Por Fernando Silvestre (fernando.silvestre@usp.br)
Carranca é uma escultura usada principalmente nas embarcações do Rio São Francisco. Elas são um amuleto de proteção contra os perigos das águas, além de serem uma herança sociocultural das comunidades ribeirinhas do Velho Chico. A imagem é atrelada ao orixá Exu, que, dentro do contexto afrobrasileiro, é o orixá responsável por cuidar dos trajetos, ou seja, Exu fornece, fecha e protege os caminhos para os humanos dentro da mitologia iorubá. Esse é o símbolo que Urias quer trazer para seu novo álbum.

O disco apresenta um contexto artístico interessante. A artista utiliza elementos da religiosidade africana como referência, de orixás, como Iemanjá e Oxalá, a deuses egípcios, como Hórus, para compor seu panorama. A direção de arte ficou sob responsabilidade de Ode, uma artista multidisciplinar que, junto com a cantora, criou uma narrativa não linear com conceitos do afro-surrealismo. O uso do nome Carranca é para que exista proteção ao caminho que o eu poético da obra traça.
Carranca possui 14 faixas, em que três são interlúdios narrados por Marcinha do Corintho, ícone travesti da comunidade LGBTQIA+. Urias inaugura sua nova fase de forma diferente dos lançamentos anteriores. As músicas apresentam um tom mais maduro e crítico sobre os preconceitos estruturados na sociedade. Ela aborda questões sobre racismo, estereótipos e exclusão, o que compõe um álbum também focado na função social de repassar uma mensagem — no caso, sobre resistência.
A Liberdade
Os interlúdios — escritos pelo pesquisador e historiador de arte francês Guillaume Blanc-Marianne — dentro do álbum ajudam o ouvinte a entender o caminho lógico que Urias propõe. O primeiro dos três é A Liberdade (Intro). Nele, a composição constrói uma cena e um fluxo narrativo que mostram a falsidade proposta por ser livre.
A faixa trata sobre a casa da Liberdade, um local supostamente civilizado que faz referência a críticas do darwinismo social, e que, para chegar até lá, é necessário passar por um caminho doloroso. Porém, somente os personagens nomeados de Peregrinos podem chegar a ela. Quando a narradora-personagem chega, ela é excluída e proibida de entrar. A narradora sente-se enganada e promete vingança. Os Peregrinos são aqueles que buscam, por devoção, a liberdade seletiva que exclui os grupos marginalizados “não civilizados”.
A música que inaugura a primeira parte do disco é Deus. Na canção com Criolo, Urias explana sobre caminhar em busca da liberdade enquanto leva a imagem de Deus. A cantora questiona essa escolha e compreende que, em uma situação assim, não poderá mais amar.
Já em Quando a Fonte Secar, o eu lírico conta sobre um momento de transformação entre o passado e o futuro. A música fala sobre esse passado duro cheio de julgamento dos outros contra o eu poético. Agora, Urias assume que chegou em um ponto de sucesso e que detém certo controle sobre sua situação.
Vénus Noir faz referência à artista Josephine Baker, um dos primeiros ícones do jazz. Josephine recebeu o apelido de Vénus Noir (Vênus Negra, em tradução livre para o português), que também tinha um significado referencial. O apelido estava ligado à imagem da deusa romana Vênus e suas representações, como a de Botticelli e a de Willendorf, mas também à mulher sul-africana Saartjie Baartman, conhecida como “Vênus Hotentote”, que teria sido traficada para um “zoológico humano” na França entre os séculos 18 e 19. Urias canta sobre a exotização do corpo negro.
A cantora reconhece que ainda foge e compreende a insegurança depois de ser enganada e traída em Vontade De Voar. A artista sabe que chegou na tal casa da Liberdade, mas não se sente completa. O eu lírico é julgado como cruel por ter escancarado a porta dessa casa, um lugar onde não é bem-vindo. Ele mostra-se muito consciente sobre seu destino e sabe que seus medos e anseios ganham força.
Oração
A segunda parte é introduzida por Oração (interlúdio). A narradora conta sobre os caminhos nas águas em busca da nova calmaria. Além disso, existe uma oração para que Deus proteja a vida das comunidades excluídas. O caminho termina em Etiópia, o local de origem em que é permitida a paz e a fraternidade. Etiópia, dentro do interlúdio, não se refere ao país, mas sim à idealização de terra ancestral que não possui a busca incessante do progresso pelo homem.
Nessa lógica, a continuação é a música logo após essa pausa ser Etiópia. A composição trata desse lugar quase sagrado que acolhe os marginalizados sem distinção. A artista relembra os trajetos difíceis, porém acredita em um futuro promissor que será lembrado pelos historiadores. Em Etiópia, seria possível entender o amor.
A próxima canção é Águas De Um Mar Azul. Diferentemente das outras músicas, essa é de autoria de Hyldon e Fábio, foi composta há 50 anos e nunca tinha sido gravada. Ela aborda um eu lírico sentimental que passou por uma briga com alguém que amava. A cena de fundo é o mar que faz o eu poético refletir sobre o conflito e culpabiliza, de certa forma, a intensidade do sentimento de ser latino.
Navegar e Se Eu Fosse Você desenvolvem-se de forma semelhante. Ambas expõem uma relação de amor em que, na primeira, o eu lírico navega sobre as águas de um amor e as explora. Já Se Eu Fosse Você brinca com esse amor ao instigá-lo a navegar sobre o mar da artista.
Em Herança, com Giovani Cidreira, o tema parece iluminar outros caminhos. A letra debate qual a importância da herança sociocultural e qual é a privilegiada. Urias compara a cultura hereditária a uma estrela, que mesmo morta continua brilhando. Nessa música, a cantora aborda as questões raciais e como a herança africana é fundamental para a sociedade, mesmo que ela sofra tentativas de apagamento constantes.
Paciência (com Don L) funciona como uma conclusão da narrativa do disco, ou dessa parte. O eu lírico pede a Deus por paciência para que consiga continuar a viver em um mundo no qual ele é procurado, discriminado e julgado. Urias volta a relacionar seu álbum com a essência divina, o que fortalece a relação entre a obra e a ancestralidade.
A canção também critica a objetificação dos artistas que são resumidos ao que produzem sem a preocupação com o que eles são de verdade. A energia da música assemelha-se mais à primeira parte do que à segunda por conta do sentimento de poder e orgulho.
Eterna
O último interlúdio é Eterna (Outro). O trajeto contado por Urias se encaminha para o fim. A faixa conta como a narradora ascende ao ponto de deusa por ter encontrado a paz e a tranquilidade em Etiópia. Ela, agora como divindade, não exige culto, uma vez que cuidará de seus seguidores por adoração a eles. Se antes a Liberdade excluía os povos marginalizados, em El Dourado — um símbolo da América Latina — eles encontrarão a paz e o fim de suas angústias. A cidade mítica torna-se a casa da Liberdade que não excluí a grupos discriminados, e, sim, os acolhe.
O álbum acaba com a música Voz do Brasil, com Major RD, que fala diretamente sobre os estereótipos que o país sofre e os desejos que a cantora tem para sua nação. Em uma adaptação de fragmentos do Hino Nacional, Urias ironiza e questiona o ideal do Brasil.
O conjunto das canções e interlúdios do disco sintetiza a luta de resistência pela qual as comunidades marginalizadas, principalmente a população negra, têm que passar para sobreviver. A artista idealiza que os grupos possam encontrar a Liberdade e criar um espaço para o amor, longe de toda a violência e discriminação, seja em El Dourado ou em Etiópia.
