Por Letícia Longo (letlongo2006@usp.br)
Em 2014, a reputação de Justin Bieber estava praticamente destruída. O cantor se envolveu em uma série de polêmicas, desde seu relacionamento com Selena Gomez, até acusações de vandalismo, de dirigir embriagado e de participar de uma corrida irregular de carros. Seu último álbum de estúdio até então, Believe (2012), apesar de ter emplacado sucessos como Beauty and a Beat e Boyfriend, privilegiava a imagem do artista em vez da qualidade musical, o que aumentou ainda mais a percepção negativa dos entusiastas de música a respeito do repertório do cantor. A fama de Bieber parecia estar com seus dias contados.
Lançado em 13 de novembro de 2015, Purpose (2015) foi a volta por cima do cantor, assim como a prova concreta de sua artisticidade. Enquanto seus três primeiros álbuns de estúdio surfam nas tendências do pop de suas épocas, Purpose apresenta um pop original, com elementos de EDM, Tropical House, rap e R&B. Apesar de alguns versos em que o canadense parece se vitimizar a fim de resgatar sua reputação, o disco tem o liricismo mais honesto e vulnerável da carreira de Justin Bieber.
A produção, assinada predominantemente por Poo Bear e DJ Skrillex, é recheada de sons peculiares, como sintetizadores tropicais, flautas e até samples da voz de Bieber com a frequência alterada. A sonoridade, quase experimental, contrasta com o timbre suave do cantor, que dá as melhores performances vocais de sua carreira, repletas de melismas e de falsetes complementares às emoções evocadas nas letras do álbum.

Em busca de um propósito
Purpose é um honesto pedido de desculpas de Justin Bieber, tanto para as pessoas que o cercam, quanto para seus fãs. Da mesma forma, é uma exposição dos seus sentimentos mais frágeis e de sua procura por autenticidade. Ele não era mais o menino de 15 anos do disco My World (2009) e queria provar isso.
Where Are Ü Now, o hit energético de EDM em parceria com Diplo e Skrillex, é a versão mais madura das abordagens do disco. A repetição da pergunta “Where are you now that I need you?” (Onde você está agora que preciso de você?, em tradução livre) expressa o sentimento de abandono e solidão experienciado pelo cantor. Além disso, há versos sobre a fé cristã, tema que seria ainda mais explorado por ele em seus projetos futuros.
“E eu estava de joelhos quando ninguém mais estava orando. Oh, Senhor.”
Justin Bieber em Where Are Ü Now (tradução livre para o português)
What Do You Mean? foi o lead single do álbum. Coproduzida pelo próprio Justin Bieber, a música é um esforço do astro pop para compreender as ações do sexo oposto em um relacionamento amoroso. Sua sonoridade tropical e chiclete trouxe o primeiro número um de Bieber na Billboard Hot 100.
Sorry é uma retratação pública dos erros do cantor para a sua ex-namorada, Selena Gomez. A canção incorpora ritmos jamaicanos, como dancehall, sons de sopro sintetizados e batidas eletrônicas. A mistura de gêneros musicais do produtor Skrillex é certeira e casa muito bem com a performance envolvente de Bieber.

É evidente a tentativa, tanto de Bieber quanto de sua equipe, de mostrar uma certa maturidade e mudança de caráter após as manchas em sua imagem. Tal artimanha é eficiente na maioria das músicas, principalmente nas mais animadas, que mostram que o forte de Justin Bieber ainda é o de um astro pop. Porém, algumas canções contêm uma narrativa de vitimização intrínseca a elas e parecem forçadas ao entrarem no disco.
A segunda canção do disco, por exemplo, I’ll Show You, tem versos como “My life is a movie, and everyone’s watching” (Minha vida é um filme, e todo mundo está assistindo, em português) que beiram a autopiedade. A produção, carregada de efeitos sonoros que aparecem com frequência ao longo do álbum, aqui parece cumprir mais uma função de coerência estética do que de real necessidade musical.
No entanto, as participações dos rappers Travis Scott e Big Sean são aspectos positivos dessa tentativa de remodelação de imagem, porque também demonstram a busca genuína do canadense por uma estética sonora que realmente o agradasse. No Pressure, com Big Sean, é uma fusão de R&B, rap e pop e usa efeitos como delays e reverbs na voz de Bieber que reforçam sua performance potente e emocional, além dos versos rápidos de Sean contrastantes com o tom melodramático da canção. O aspecto etéreo do riff principal de No Sense, com Travis Scott, é uma das primeiras manifestações do que viria a ser o som de Bieber em álbuns como Justice (2021) e Swag (2025).
O impacto na cultura pop
Purpose é um marco na música pop estadunidense, tanto em questões de estética e sonoridade quanto em questões de divulgação e marketing. A produção visionária de Skrillex popularizou ainda mais o som EDM e Tropical House em canções pop, como em Shape of You, de Ed Sheeran, e em Cheap Thrills, da SIA.
Junto ao álbum, Bieber lançou “PURPOSE: The Movement”, um projeto visual composto por vídeos de dança, um para cada canção do disco. Mesmo com a ausência de Justin Bieber nos clipes de Love Yourself e Sorry, as icônicas coreografias somam mais de 5,7 bilhões de visualizações no Youtube.
As estratégias de divulgação dos singles e do álbum em si são utilizadas por outros artistas da indústria musical até hoje. Bieber se manteve ativo nas redes sociais e interagia diretamente com o público, além de publicar vídeos curtos de ensaios de coreografias e de gravações no estúdio.

Atualmente, Justin Bieber continua envolvido em polêmicas em relação a sua saúde mental e vida pessoal. Mas, Purpose mostrou que a sinceridade e o talento — e talvez, uma boa assessoria de imprensa — contornam as controvérsias de um artista.
*Imagem de capa: Reprodução/Island Records
