Por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
Estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (1) o filme Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You, 2025). O longa acompanha a terapeuta Linda (Rose Byrne), mãe de uma menina doente que se vê em um cenário sufocante de caos crescente quando seu marido viaja a trabalho, um grande vazamento a força a deixar sua casa e se instalar em um hotel, sua hostil relação com seu terapeuta parece próxima ao limite e sua filha tem dificuldades para alcançar o peso ideal para dar continuidade a seu tratamento de saúde.
O filme começa de forma relativamente contida, mas já estabelece o tom opressivo presente em toda a narrativa. Ele inicia com um diálogo extenso, em que, apesar de ocorrer entre três pessoas — a protagonista, sua filha e a médica da menina —, a câmera acompanha apenas o rosto de Linda, com um plano fechado que apresenta uma mulher exausta. Sob direção de Mary Bronstein, seu primeiro longa como diretora desde 2008, a obra transmite a sensação de imobilidade e evidencia sua natureza angustiante desde o primeiro momento.
A escolha de Bronstein por planos fechados se estende por todo o filme, seguindo incansavelmente a protagonista, coisa que, juntamente aos cortes abruptos, contribui para o sentimento de desconforto e impotência proposto pelo título, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Mesmo sendo uma construção coerente para a narrativa, essas escolhas tornam as quase duas horas de duração cansativas, ainda mais quando Bronstein parece não se decidir se quer optar por um ritmo mais lento e reflexivo ou algo que beira o frenético, com movimentos de câmera ousados e interessantes mas que acabam por atrapalhar a dramaticidade e fluidez do longa.
A direção de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria recebeu destaque em premiações voltadas para o cinema independente, inclusive no Gotham Awards de 2025. Apesar do destaque para Bronstein, que dirige e roteiriza, é Rose Byrne quem transforma o filme em uma experiência fascinante e praticamente indigerível.
Ao passo que o espectador se acanha diante da brutalidade do longa, que acompanha a vida de uma mãe solitária e sobrecarregada de forma realista e extremamente crua, ele também não consegue deixar de acompanhar a protagonista, graças à performance magnética de Byrne, capaz de instigar empatia, curiosidade e até mesmo o medo de tragédia anunciada que é o longa. O público observa, então, a situação cada vez mais crítica de uma mãe à beira da loucura, que se afunda em seus problemas e na solidão da maternidade.
Vencedora do Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Berlim, indicada a melhor atriz na categoria musical ou comédia no Globo de Ouro e muito cotada para o Oscar, Rose Byrne enfrenta o desafio de manter o espectador interessado na narrativa intimista com uma protagonista pouco gostável. Linda, por vezes, toma decisões questionáveis, ainda mais quando comparada à visão idealista do que deve ser uma mãe. É ranzinza, amarga e vive de maneira automatizada em decorrência de suas inúmeras dificuldades.
As relações nutridas por Linda ao longo do filme reforçam a postura desinteressada e até reativa, derivada de seu cansaço extremo. Ela parece evitar contato e afastar qualquer um que tenta se aproximar, independentemente da situação. As únicas pessoas que parecem interagir com a protagonista o fazem de maneira forçada e até mesmo interesseira. Seja seu terapeuta (Conan O’Brien), que parece pouco se importar com o que ela tem a dizer, Caroline (Danielle Macdonald), uma paciente de Linda que também é mãe e estava obcecada com o filho bebê, ou James (A$AP Rocky), funcionário do hotel em que está hospedada para os reparos em sua casa. Todos esses personagens e suas relações com Linda contribuem para a sensação de solidão e pequenez construídas pelo roteiro e fotografia do filme.

Apesar de mergulhar, de certa forma, na vida da protagonista, a produção compartilha pouco sobre a vida dos personagens. São, na maioria dos casos, ausentes de sobrenomes e até mesmo distantes da perspectiva visual. O marido, Charles (Christian Slater), tem poucas aparições. Sua voz em conversas rápidas pelo telefone representa a maior parte de sua participação no longa. A própria filha de Linda, apesar de uma personagem central da trama, não é nomeada e seu rosto é evidente apenas uma vez, por alguns segundos, em uma obra de quase duas horas.
No caso de Charles, a escolha parece enfatizar a ausência do marido, que aparece na maior parte do tempo cobrando Linda sobre os reparos na casa, os cuidados com a menina, pouco parecendo se interessar por sua esposa. Para a filha, a ausência de seu rosto aumenta o grau de impessoalidade entre ela e o espectador, que passa a enxergá-la cada vez menos como uma criança adoentada e mais como um problema.
Em partes, essa relação também se constrói nos diversos momentos em que Linda está resolvendo algum problema ou vivendo uma situação-limite e a menina age impulsivamente, algo coerente para uma criança e ainda mais para uma criança doente. A sensação de caos e ansiedade construídas pela direção frenética dessas cenas e a narrativa do ponto de vista da mãe, porém, transformam uma simples reação em insatisfação, como se a criança deixasse tudo pior e aquele cenário opressivo e difícil fosse culpa dela.
No caso mais explícito, Linda acaba de presentear sua filha com um hamster, animal que a menina é fascinada e pede várias vezes durante o filme. A pequena relata que o bicho está fazendo muito barulho e começa a abrir a caixa, ao que sua mãe pede para que não o faça. A criança não escuta e o animal começa a tentar sair, arranhando e mordendo a menina, que faz pouco esforço para tentar mantê-lo lá. Isso tudo ocorre enquanto Linda dirige, pede para que sua filha mantenha o animal preso e, eventualmente, pega a caixa e passa para o banco ao seu lado.
Nesse cenário caótico, tudo o que a pequena faz é dizer que o animal deveria amá-la e parece à beira de lágrimas. Coisa que só piora quando Linda resolve parar o veículo e, segundos depois, um carro atinge seu veículo, o que apesar de um pequeno impacto, deixa a menina assustada, que começa a gritar, chorar e repetir: “nós vamos morrer, mãe?”.

Embora seja excelente, todas essas características, somadas ao tom pessimista e caótico da narrativa, transformam o filme em uma experiência quase desconfortável, coisa que pode desagradar e afastar muitos espectadores. Nesse sentido, o roteiro é ousado ao apresentar um lado crítico e obscuro da maternidade atípica sem nenhum tipo de pudor, estabelecendo uma reflexão brutal sobre as incertezas e erros do que é ser mãe.
Nos momentos finais, essa reflexão é levada ao extremo por uma cena que beira o absurdo e o surrealismo, de tão agressiva chega a ser invasiva. A sequência é um dos principais sintomas da falta de um gênero definido para o filme, que é uma mistura de drama com body horror, suspense, terror psicológico e, em algumas circunstâncias, uma comédia perturbadora.
O principal ponto negativo do longa está na dificuldade em estabelecer o tom de sonho ao qual se propõe em alguns momentos mais surrealistas. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria se perde em sua própria viagem, não situando bem a audiência naquilo que é real, questionamento ou sonho. Isso, somado às poucas informações sobre os personagens, dificulta a interpretação de certos momentos, enfraquecendo, inclusive, o final da narrativa, que ao invés de assumir um tom questionador e poético parece apenas uma rápida solução para concluir o longa.
Com decisões narrativas arriscadas, o longa apresenta bem ao espectador o que será desde o começo: uma reflexão cruel sobre o peso e as incertezas da maternidade. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é provocador, causa reações adversas e chega mesmo a ser perturbador, mas isso da melhor maneira possível dentro do que se propõe narrativamente. Uma experiência desconfortável, mas inesquecível.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/IMDb
