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50º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo | ‘Tigre de Papel’: até onde o sonho americano pode levar

Quando dois irmãos se envolvem com a máfia russa para fazer negócios em busca do sonho americano, suas vidas são tomadas pelo medo em uma trama envolvente e trágica
Por Denise Cristina (denise.cristina@usp.br)

Escrito e dirigido por James Gray, conhecido por trabalhos como Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z, 2016) e Era Uma Vez em Nova York (Immigrant, 2014), Tigre de Papel (Paper Tiger, 2026) se situa na Nova York de 1986 e nos leva pela jornada de dois irmãos: Irwin Pearl (Milles Teller) e Gary Pearl (Adam Driver). Ao tentarem abrir um negócio de consultoria  e prestar serviços para a máfia russa, o engenheiro e o ex-policial acabam por colocar as vidas de sua família e suas vidas em risco.

O longa teve sua estreia mundial em maio deste ano no Festival de Cannes onde concorreu à Palma de Ouro. Com estreia no Brasil prevista para 7 de janeiro de 2027, o filme servirá de abertura para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 15 de outubro. 

A família nuclear americana é apresentada logo no começo do filme, com Irwin ao lado de sua esposa Hester Pearl (Scarlett Johansson) e seus filhos Scott (Gavin Goudey) e Ben (Roman Engel), vivendo uma vida tranquila no subúrbio nova-iorquino. Irwin trabalha como engenheiro para sustentar a família e se preocupa com as despesas que aumentarão com a ida do filho mais velho à faculdade. 

Na Nova York do final dos anos 1980, Irwin tenta educar os seus filhos para que fiquem longe do cenário violento da cidade. A família mora no Queens, mas a esposa sonha em comprar uma casa em um dos condomínios sofisticados construídos pelo mercado imobiliário em ascensão.

Com distribuição no Brasil pela Diamond Films, o filme é uma produção da brasileira RT Features, em parceria com Leone Film Group e Keep Head Productions
[Imagem: Reprodução/TMDb]

Nesse contexto, o irmão mais velho do engenheiro, Gary, entra em cena. Um homem de negócios, Gary é elegante, e mostra de forma sutil o seu poder aquisitivo através de seu carro potente e dos paletós refinados que veste. Adam Driver dá um tom assertivo ao personagem e entrega uma atuação justa, sabendo dosar entre o ex-policial que sabe lidar com situações perigosas e o irmão e tio amorosos.

O filme é produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, conhecido por projetos como Me Chame pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017) e A Bruxa (The Witch, 2015)
[Imagem: Reprodução/TMDb]

Com uma nova ideia de negócio em mente, Gary quer trabalhar para os russos e ajudá-los a lidar com o vazamento de óleo existente há anos no Canal Gowanus, no Brooklin. Sem o conhecimento acadêmico necessário, mas com a expertise das ruas, Gary entra para negociar e Irwin com o seus saberes de engenharia. Tudo parece perfeito, finalmente Irwin pode ganhar um dinheiro a mais e cobrir as despesas extras e Gary pode aumentar seus negócios e se restabelecer após o divórcio. 

Em meio ao arrependimento de não ter dado a devida atenção aos estudos e não ter entrado em uma faculdade de renome para fazer contatos, Irwin ensina aos filhos a importância destes e do trabalho duro. Isso faz com que  o protagonista leve os filhos no meio da noite – com negativas da esposa – para ver o local que trabalha com a promessa que o negócio será muito lucrativo. Aqui Milles Teller interpreta Irwin de forma assertiva, e leva o telespectador a julgar o personagem,  antecipando que a ideia não pode levar a nada positivo.

No lugar e na hora errados, o engenheiro presencia uma ação ilegal por parte dos russos. Não suficiente, ele e os filhos  são vistos e sofrem agressões e ficam na mira da máfia. 

Aqui o roteiro acerta ao construir a atmosfera da Nova York do final dos anos 1980: as cenas que se sucedem adquirem um ar mais real ao ter personagens que falam somente em russo, sem legendas, deixando apenas para a imaginação as atrocidades que devem proferir, colocando quem assiste ao lado dos protagonistas e de seu medo do que pode acontecer depois. 

Na tentativa de continuar vivendo normalmente, os filhos vão para a escola no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, e o pai volta ao local para buscar o carro deixado no bairro dos russo na noite anterior. À noite, à mesa, a família conversa enquanto Irwin e os filhos  tentam disfarçar o medo eminente. 

Com a premissa de que os russos seriam como tigres de papel, ou seja, demonstram voracidade mas são fracos – termo utilizado por Mao Zedong  para se referir a seus opositores enquanto liderava a República Popular da China – Gary convence Irwin a permanecer no negócio e deixar que ele resolva a situação. 

O cerco está armado. Irwin, que nunca tocou em uma arma, se desespera e pensa em contatar a polícia, e Gary tenta resolver a cilada em que o irmão os envolveu. A forma como os atores entram em sintonia para viver os personagens é convincente e faz acreditar que poderiam ser irmãos na vida real. Além disso, a narrativa potencializa isso ao mostrar como o irmão policial se vê perdido e com medo do que pode acontecer com seu irmão e sobrinhos se não agir rapidamente.

O líder da máfia russa, Simeon Bogoyavich (Victor Ptak), outro personagem que fala um inglês muito marcado e carrancudo, tenta convencer o irmão mais velho da dupla a entrar para o seu negócio. Com os contatos que sua carreira na polícia lhe garantiu, os russos procuram em Gary um aliado, querem aproximação com integrantes da prefeitura para expandir ainda mais o seu negócio. 

 Já em um clima de muita tensão, o filme mostra ao telespectador de forma convincente o horror que Irwin e sua família sentem, em uma sequência de cenas onde os russos invadem sua casa, tiram foto de cada membro da família enquanto dormem e desconfiguram a sala em um aviso: estamos chegando. Hester acorda e finalmente fica sabendo de toda a história, pela primeira vez vemos alguém mostrar o medo de forma mais vocal, batendo no próprio marido e chorando.

A direção de fotografia do longa ficou foi feita por Joaquín Baca-Asay [Imagem:Reprodução/TMDb] 

A mãe é a personagem que traz delicadeza ao longa. Representando a típica mãe suburbana, que ama os seus filhos e cuida da casa, Hester demonstra preocupação pelos olhos da maternidade, afinal, sua família está na mira de uma máfia russa e ela não sabe o que fazer. Scarlett Johansson traz seriedade à personagem e consegue construir um clima amoroso em meio ao estresse que envolve a trama.

O longa toma um ritmo constante e nos prende para saber o que acontecerá a seguir, deixando o telespectador curioso para saber como Gary e Irwin sairão da situação. Durante o desenrolar de tudo, o engenheiro e a família tentam viver com normalidade. No entanto, a  narrativa envolve Gary em uma atmosfera melancólica e preocupada, que, ao decorrer do filme, alcança o seu auge e leva a história a desfechos dramáticos.

Com o sonho americano de ascensão social, a sinceridade do amor entre a família e o medo do que pode acontecer quando se mexe com pessoas poderosas, Tigre de Papel é um longa que promete ser um dos favoritos do ano de muitos. Com atuações que se conectam com o telespectador o deixando aflito e tenso, o filme se constrói pouco a pouco até alcançar o seu ápice com dramaticidade  e realismo.

Tigre de Papel chega aos cinemas brasileiros em 07 de janeiro. Confira o trailer:

*Imagem de capa: [Imagem: Reprodução/IMBd]

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