Por Daniel Mota (danielzinhomota@usp.br)
Em meio a uma geração em que a juventude defende acordar às 5h para correr, prega o celibato do “escolher esperar” e muitos influenciadores são virgens orgulhosos — em tom de fascismo —, cabe a um cineasta de 66 anos lembrar aos jovens que não há problema algum em estar com tesão. Em I Want Your Sex (2026), que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), Gregg Araki leva essa ideia a sério.
A ideia do longa (que ele coescreveu com Karley Sciortino, fundadora do Slutever, site focado em sexo e sexualidade) surgiu depois da leitura de um artigo sobre como a Geração Z (aqueles que nasceram de 1997 até 2012) estava fazendo menos sexo do que as gerações anteriores, e que bom que Araki resolveu intervir e fazer algo a respeito.
“A geração atual não faz sexo. Eu achei isso tão chocante e estranho.”
-Gregg Araki
Seu grande retorno desde Pássaro Branco na Nevasca (White Bird in a Blizzard, 2014) — e o primeiro filme que realmente se parece com uma obra sua desde o louco, mas fascinante, Kaboom (2010) —, I Want Your Sex (2026) é nada menos do que um guia para que a Geração Z saia dessa bolha e se machuque sem o medo de se machucar e, finalmente, seja livre (menção honrosa à escolha perfeita da música tocada no filme, Free Yourself, 2022, de Jessie Ware).
A trama se inicia com o corpo de Erika (Olivia Wilde) flutuando em uma piscina, em uma clara referência à cena de abertura do clássico Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder. Assim como na obra icônica, o jovem protagonista Elliot (Cooper Hoffman) narra a história por meio de flashbacks, conduzindo o público pelo início da relação BDSM do casal até responder à pergunta central: Erika está morta?
O papel dominador da relação é assumido por Erika Tracy, uma artista com uma galeria sexualmente explícita que performa profundidade, mas admite que tudo é pela riqueza — tudo é sobre sexo, exceto o sexo, que é sobre dinheiro. Ela contrata como assistente o ingênuo Elliot, uma alma sem rumo 14 anos mais jovem.
Sexualmente frustrado, com uma namorada que o odeia (Charli XCX, destacando-se por sua expressão de tédio em todo seu tempo de tela) rodeado por pessoas que parecem infinitamente mais legais, experientes e seguras de si, Elliot parece totalmente despreparado para o ambiente de Erika. Porém, logo fica evidente que sua timidez pode ser justamente o que atraiu a atenção dela.
Além de Billy Wilder, a obra traz diversas referências cultuadas do cinema: o recorte temporal de nove semanas e meia remete ao drama erótico Nove Semanas e Meia de Amor (9½ Weeks, 1986); a repressão sexual que se converte em violência lembra A Professora de Piano (La Pianiste, 2001); e também nuances de Secretária (Secretary, 2002) ao utilizar a comédia erótica para falar sobre aceitação.
Araki brinca com os clichês dos thrillers eróticos, especificamente noir, com um ar de descontração, transitando das referências mais cultas até elementos cartunescos com a coragem de alguém que não tem problema nenhum em inserir um pouco de Looney Tunes em seu thriller psicosexual. Tudo isso de forma espontânea, como se fosse um sonho erotico ou a imaginação fertil de um garoto em período de puberdade (Elliot tem 23 anos), o que tira risada do público e diverte, sem parecer forçado.
A estrutura do filme permite que Araki se divirta bastante com a dinâmica questionável em jogo. Elliot, enquanto interrogado, insiste que tudo entre ele e Erika é consensual, mas o consentimento se complica quando um dos participantes é consideravelmente mais velho, mais rico e, crucialmente, o empregador do outro. Erika detém quase todas as formas de poder imagináveis dentro do relacionamento, mesmo antes de o casal incorporar deliberadamente o poder à sua dinâmica sexual.
Em vez de oferecer um julgamento moral fácil, Gregg parece muito mais interessado em deixar todos desconfortáveis o suficiente para que comecem a discutir sobre o assunto posteriormente, colocando o público como um voyeur, assistindo à química do casal na tela.
Isso se estende principalmente em relação à divisão geracional do filme. Erika se mostra horrorizada com a postura cautelosa da Geração Z em relação ao sexo, enquanto Elliot representa uma juventude habituada a debater limites, identidade e bem-estar emocional — mesmo que, em alguns momentos, a crítica soe mais como um sermão do próprio Araki, como se o cineasta estivesse palestrando atraves de Erika do que como um diálogo natural da personagem.
I Want Your Sex pode não ter o vigor e a urgência necessários para voltar a ser um sucesso (apesar da mensagem atual do filme), mas um filme de Gregg Araki nunca será entediante, e este é divertido mesmo quando se esforça para complicar a história e disfarçar a tentativa de servir como uma lição do diretor para quem está assistindo. O que poderia ter sido apenas uma trama policial investigativa, uma comédia romântica tediosa, ou um filme erótico incapaz de transmitir tesão, nas mãos de Araki vira uma mistura instigante de gêneros que prende a atenção e diverte do começo ao fim.
Com 90 minutos de duração, I Want Your Sex tem a energia frenética de alguém que bebeu demais e decidiu que todos na festa precisam saber seu histórico sexual. O design de produção é extravagante, os figurinos se tornam cada vez mais ousados, e Araki alegremente desmascara a arrogância do mundo da arte contemporânea.
Há também um charme artesanal em seu excesso; por mais estiloso que o filme se torne, ele mantém a personalidade queer-punk que sempre diferenciou Araki de cineastas que simplesmente tentam fabricar transgressão. O novo longa resgata a falta de rodeios de Totalmente Fudido (Totally Fucked Up, 1993), onde Gregg traz de forma crua uma juventude com urgência de viver loucamente e de se experimentar, independentemente de quão jovem seja — todos ali eram bem mais novos do que o personagem Elliot. Já de Estrada para Lugar Nenhum (Nowhere, 1997), o diretor resgatou o surrealismo que também esteve um pouco presente em I Want Your Sex, junto com a loucura e paranoia sexual de Kaboom (2010).
No entanto, a maior arma do filme é, sem dúvida, Olivia Wilde. Nas mãos de uma atriz principal menos segura, isso poderia ter sido um fracasso, mas a interpretação de Wilde da complexa Erika mantém o filme interessante pelos motivos certos.
Após seu trabalho em O Convite (The Invite, 2026), Wilde demonstra mais uma vez o quão bem entende personagens que usam a confiança como arma, enquanto escondem uma complexa engrenagem emocional por baixo. Erika poderia facilmente ter se tornado uma caricatura — uma coleção de provocações vestidas de látex disfarçadas de pessoa —, mas a atriz dá a ela uma presença cativante, fazendo que Erika se torne magnética, ridícula, intimidadora e inesperadamente vulnerável, às vezes na mesma cena. Há um toque quase de estrela de cinema da velha guarda na forma como Araki a fotografa, e Olivia claramente aprecia a liberdade que lhe foi dada para ousar tanto.
O elenco de apoio também se destaca. Chase Sui Wonders arranca algumas das maiores gargalhadas do filme como a colega de quarto de Elliot, enquanto Daveed Diggs entende exatamente o quão impávido precisa ser em meio à crescente maluquice.
Já Charli XCX causa uma impressão divertida como a namorada cada vez mais incompatível de Elliot, também tirando boas risadas do público(mesmo que seu sotaque americano não consiga esconder completamente o seu britânico natural).
Como muitos dos filmes de Araki, I Want Your Sex perde um pouco do controle à medida que se aproxima do final. O ato final se apressa em desenvolvimentos que poderiam ter se beneficiado de um pouco mais de espaço, enquanto a trama policial não é tão interessante quanto os argumentos sexuais e geracionais que a cercam. Mas há algo quase apropriado em um filme tão deliberadamente caótico se recusar a se amarrar em um final perfeitamente convencional.
Apesar de toda a sua iconografia BDSM, política sexual e diálogos intencionalmente provocativos, I Want Your Sex acaba por transmitir uma sensação surpreendentemente alegre. Por trás da extravagância, reside um argumento sincero em defesa da curiosidade sobre sexo, outras pessoas e experiências que podem nos assustar ou constranger.
Araki não está necessariamente exigindo que todos adotem a visão de mundo de Erika; ele está sugerindo que uma cultura aterrorizada com a possibilidade de cometer erros corre o risco de se tornar aterrorizada com a própria vida.
Após doze anos afastado da direção de longas-metragens, I Want Your Sex prova que Araki não se tornou mais tranquilo, mas sim refinou a maneira como quer causar. Impulsionado por um caos e colorido suficiente para satisfazer os fãs de longa data, o filme é engraçado, provocativo e orgulhosamente imperfeito.
Não termina particularmente bem, mas tudo bem! Ninguém morre, quase todos saem ilesos e descobrem coisas sinceras sobre si mesmos ao longo do caminho. O tipo de coisa que é quase impossível descobrir sem tirar a roupa e se ver nu, tanto por dentro como por fora. A vulnerabilidade é assustadora, admite Araki, mas nem de longe tão assustadora quanto a ideia de passar a vida sem saber quem você é, o que você quer ou como é a sensação de conseguir.
I Want Your Sex já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]






