Por Luana Sales Riva (luanariva06@usp.br)
O filme A Meia Irmã Feia (The Ugly Stepsister, 2025) chega às bilheterias brasileiras nesta quinta-feira (23). Dirigido e roteirizado por Emilie Blichfeldt, cineasta norueguesa, o longa é a primeira produção dublada da produtora Mares Filmes. A trama é uma releitura do clássico conto Cinderela (1812), dos Irmãos Grimm, e, antes mesmo da estreia no Brasil, tem chamado a atenção da mídia por sua repercussão nos Festival de Sundance e Festival de Cinema de Berlim deste ano.
O longa traz um dos contos de fadas mais conhecidos mundialmente com uma proposta diferente: a trama se dá a partir da ótica de Elvira (Lea Myren), uma das meia-irmãs de Cinderela. Com a morte do pai da “Gata Borralheira”, restam na endividada casa, ela, sua mãe, a irmã e a órfã.
No entanto, Elvira, que sonha em casar com seu príncipe encantado, percebe que, para seu sonho se realizar, deverá ofuscar a beleza de Agnes (Thea Sofie Loch Næss), que no filme é a Cinderela. Determinada a competir com sua meia-irmã, a protagonista faz de tudo para alcançar seu objetivo, em uma narrativa imersa em terror corporal e efeitos de vídeo viscerais.

A começar pelo elenco, a composição e performance de cada um dos atores deram à A Meia Irmã Feia a atmosfera necessária para ele ser considerado um dos melhores filmes de terror do ano, conquistando 96% no site de críticas Rotten Tomatoes.
A protagonista transmitiu assertivamente ao telespectador toda a angústia de Elvira no decorrer da trama, seja nos momentos em que era comparada com Agnes — é possível sentir o sentimento de ódio crescendo dentro da personagem cada vez mais —, durante os procedimentos estéticos e até mesmo na própria relação consigo mesma e com sua imagem.
A composição de Agnes, a Cinderela, também é essencial para a construção do longa. Não existe uma caracterização meiga ou até mesmo encantada da personagem, como nos desenhos animados, mas sim uma abordagem humanizada da mesma. Sua beleza é inegável, porém, diferente das animações, não existe nada de “mágico” que a torne especial, ela é tão comum quanto Elvira — exceto por encantar os olhos do príncipe Julian (Isac Calmroth), cuja figura também é desencantada no longa.

A diferença na relação da protagonista com a mãe Rebekka (Ane Dahl Torp) e com a irmã Alma (Flo Fagerli) explora a profunda personalidade de Elvira. De um lado têm-se uma mãe egoísta, que quer dinheiro a todo custo e só pensa nas aparências — contribuindo até mesmo para o enlouquecimento da filha com a ideia de se casar com o príncipe. Do outro existe uma irmã mais nova que se diferencia do restante da família, fugindo das aparências, dos grandes bailes e se importando com o bem-estar da irmã.
A relação entre Alma e Elvira é um ponto que poderia ter sido mais aprofundado ao longo do filme. Em todos os momentos que as duas aparecem juntas, a sintonia das personagens é harmônica, especialmente no final da obra. É perceptível o amor que uma irmã tem pela outra, mesmo em um ambiente em que esse sentimento nunca foi cultivado.
Um dos pontos fortes de A Meia Irmã Feia é a profundidade de Elvira. Diferente dos filmes em que as meia-irmãs eram retratadas como feias e chatas, nessa produção isso não acontece. O público consegue entender o lado de Elvira e se compadece pela personagem: ela é uma jovem que tem o desejo de ser amada.

Em um reino em que a beleza é fundamental, a personagem se perde em comparações com Agnes e comete loucuras para chamar a atenção de Julian, desde quebrar o osso do nariz para afiná-lo a comer um ovo de tênia para emagrecer. Mesmo fazendo tudo isso, Cinderela ainda é a escolhida. Quantas “Elviras” e “Cinderelas” existem na contemporaneidade, especialmente em tempos em que a beleza torna-se cada vez mais inalcançável? Este aspecto da protagonista é bem elaborado.
Os efeitos visuais são viscerais durante o filme. A proposta body horror — subgênero do cinema de terror — é fundamentada pelos efeitos. Todas as cenas de horror levam uma edição minuciosa para chegar no resultado alcançado. Cenas de cortes explícitos, desfigurações corporais e vômitos são aliadas da narrativa e vão ao encontro com a promessa aterrorizante do longa de impressionar o telespectador.
Essa atmosfera de terror conversa com o conto original dos Irmãos Grimm, justamente pela dupla estética: cômica e sombria. A decisão do roteiro de se aproximar do conto e se distanciar das animações — se afastar da magia para se aproximar da sátira e do horror — é inteligente e responsável pelo alcance que a produção tomou.

O enfoque na humanização dos personagens e da própria trama da Cinderela é uma estratégia eficaz. Contúdo, a direção exagera na construção de cenas de sexo explícitas, as quais não ocupam muito tempo de tela, mas, quando ocupam, fazem com que o foco de A Meia Irmã Feia seja outro.
A existência dessas cenas cabe bem ao enredo da história, porém, da forma que foram feitas, abrem espaço para críticas por uma intensa exposição desnecessária, que poderia ter sido pensada de maneira diferente, ainda sim mantendo a proposta de humanizar o clássico e dar o tom de terror para o roteiro.
Embora o filme leve no título o adjetivo “feio”, a produção carrega um lado estético — uma beleza que se impõe mesmo no auge do horror corporal e deixa sua marca. A narrativa, por mais perturbadora que seja, prende o olhar. O telespectador se vê dividido entre um enredo que discute a pressão estética feminina e, simultaneamente, escancara as consequências disso de um modo aterrorizante.
Para aqueles que assistiram à animação Cinderela, A Meia Irmã Feia os surpreenderá ao apresentar um outro lado do sapatinho de cristal; e para aqueles que queiram conhecer a história de Elvira, preparem-se para descobrir quais os limites da aceitação e saírem impressionados.

A Meia Irmã Feia já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem da capa: Reprodução/IMDb
