Por Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br)
Os protestos liderados pela Geração Z no Nepal, que levaram à renúncia do primeiro-ministro KP Sharma Oli em setembro de 2025, reacenderam o debate sobre o protagonismo dos jovens em movimentos políticos na Ásia. Desencadeadas pela proibição de 26 redes sociais, as manifestações refletiram um descontentamento mais amplo com a corrupção, a desigualdade e a falta de perspectivas econômicas. Mobilizações semelhantes ocorreram em países como Bangladesh e Indonésia.
Entre 8 e 9 de setembro de 2025, a Geração Z do Nepal organizou uma série de protestos contra o governo. A proibição de 26 redes sociais foi o estopim para a revolta dos “primeiros nativos digitais” — nascidos entre 1995 e 2010 —, que já estavam insatisfeitos com o desvio de dinheiro e a desigualdade. Antes de irem às ruas, o movimento “#Nepobaby” havia viralizado nas plataformas virtuais. A campanha criticava a diferença de padrão de vida entre políticos, suas famílias e o restante dos cidadãos.
Em 2008, o Nepal tornou-se, oficialmente, uma república democrática. As primeiras eleições aconteceram em 2013 e, dois anos depois, foi aprovada a atual Constituição do país. Ele é subdesenvolvido, e possui a segunda menor renda per capita do Sul da Ásia. Com base nisso, é possível compreender que a política instável e a economia pobre intensificam a insatisfação profunda da população com episódios de corrupção.
A revolta levou o primeiro-ministro KP Sharma Oli a renunciar. Na segunda-feira, 8 de setembro, os manifestantes ocuparam as ruas de Katmandu, capital e maior cidade do país. No dia seguinte, atearam fogo no parlamento e na casa do ex-primeiro-ministro Sher Bahadur Deuba. Os confrontos entre os civis e a polícia resultaram em 72 mortos e mais de 2 mil feridos, segundo autoridades nepalesas.
Apesar do caso nepalense ser o mais recente, ele não é o único. Manifestações lideradas pela Geração Z têm se espalhado pelo continente asiático. Cada uma delas possui suas particularidades, mas todas revelam um incômodo em comum: a corrupção.
Em Bangladesh, mobilizações em massa lideradas por estudantes obrigaram a primeira-ministra Sheikh Hasina a renunciar e fugir para a Índia entre julho e agosto de 2024. Na Indonésia, o presidente Prabowo Subianto teve que demitir ministros e revogar regalias para atender às reivindicações dos jovens e se manter no poder entre agosto e setembro de 2025.
Em entrevista à J.Press, Emiliano Unzer, professor titular de História da Ásia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), explica como o passado do continente asiático pode ajudar a entender essas revoltas e quais são os possíveis desdobramentos delas.
J.Press – Como a história do continente asiático pode explicar as atuais revoluções da Geração Z?
Emiliano Unzer – O continente asiático acumula um repertório longo de levantes juvenis contra elites que são vistas como ilegítimas. Um dos mais importantes levantes da China ocorreu em maio de 1919. Depois disso, vieram os movimentos populares nas Filipinas, em 1986; as revoltas de 8 de agosto de 1988, na Birmânia (Myanmar); a manifestação de muitos jovens estudantes em Pequim, em 1989, na Praça de Tiananmen.
Esses episódios raramente nascem de uma ideologia importada. James Scott fala que esses movimentos emergem quando o que ele chama de “transcrição oculta” — o repertório cotidiano de queixas sussurradas, boatos, pequenas sabotagens — encontra um estopim que o torna público e coletivo.
O que aconteceu no Nepal, por exemplo, revela essa gramática antiga de resistência infrapolítica, que se choca com uma estrutura de castas ainda operante na burocracia estatal. O gatilho digital funcionou assim como a fome e os impostos injustos funcionaram historicamente: um evento pontual que revela uma indignação já amadurecida há anos. Vimos, por exemplo, cartazes nepaleses pedindo o fim da corrupção antes de qualquer pauta partidária.
Isso é agravado porque países como o Nepal, por exemplo, possuem uma economia muito frágil, baseada em remessas e empregos precários. Tal situação produz uma juventude que, apesar de escolarizada e conectada, não possui horizonte material correspondente.
J.Press – Quais consequências essas revoluções podem ter no futuro do continente?
Unzer – No curto prazo, já existem sinais concretos. O Nepal, por exemplo, elegeu como primeiro-ministro um rapper, o Balendra Shah. Ele venceu as eleições decorrentes da queda do governo anterior. Isso sinaliza uma renovação geracional real da classe política.
Bangladesh e Nepal viveram processos eleitorais que vão reformular a relação do Estado com a juventude vigilante, o que sugere uma abertura institucional em alguns casos. Mas nós devemos ter cautela. O autor indiano Partha Chatterjee diz que a sociedade política das margens costuma negociar concessões pontuais sem alterar a arquitetura de poder.
David Graeber insiste que aparatos burocráticos têm enorme capacidade de absorver energia revolucionária e devolver formulários. Por isso, eu acho que a gente deve ter cautela nisso. O risco existe, a repressão existe. Concessões podem ser parciais e isso pode gerar desmobilização e retorno das mesmas elites sob uma nova fachada, como aconteceu em 1998 na Indonésia.
A consequência mais duradoura talvez não seja institucional, mas cultural. É uma geração que aprendeu a se reconhecer como classe política transnacional capaz de mobilização rápida, assim como aconteceu no Nepal, quando a “#Nepokids” apareceu numa rede social.
J.Press – Historicamente, a população jovem da Ásia é mais revolucionária ou reacionária? Existe alguma explicação para isso?
Unzer – Não existe um padrão fixo. Essa é a resposta mais honesta que a história nos apresenta. A mesma faixa etária que derrubou, por exemplo, o Suharto [ex-presidente da Indonésia] em 1998, ou o Marcos [ex-presidente das Filipinas] em 1986, também forneceu boa parte da base social de movimentos nacionalistas e religiosos conservadores, como a Hindutva indiana, ou até mesmo a direita conservadora islâmica na Indonésia.
O que muda não é a idade, mas a posição estrutural. A juventude urbana escolarizada tende a ser o setor mais sensível a rupturas de expectativa, porque foi educada com a promessa de ascensão que a economia real não cumpre. James Scott chamaria isso de erosão do contrato tácito entre governantes e governados. Quando esse contrato é rompido de maneira visível — como nos vídeos de filhos de ministros ostentando luxo — a reação tende a ser revolucionária.
J.Press – O que o senhor acha da afirmação de que o continente pode estar vivendo uma nova “primavera asiática”?
Unzer – Eu prefiro tratar essa expressão com reserva. A Primavera Árabe se tornou, na memória política, sinônimo de simultaneidade, de contágio regional homogêneo. Essa leitura simplifica processos que, na verdade, tiveram trajetórias distintas.
A Ásia já presenciou ondas semelhantes de solidariedade política: em levantes, como os ocorridos em Myanmar e nas Filipinas nos anos 1980, ou protestos como a Aliança do Chá com Leite, em Hong Kong, em 2019. Isso sugere um padrão cíclico e recorrente, mas não um evento único e inaugural. Eu prefiro falar em ressurgência de um repertório histórico de revolta anticorrupção adaptado à infraestrutura digital contemporânea.
Há, de fato, sincronia de símbolos, como a bandeira preta do One Piece, adotada simultaneamente por manifestantes indonésios, filipinos e nepaleses. Mas sincronia de imaginário não é sincronia de resultado político. Cada país carrega sua própria arquitetura institucional e sua própria elite. E é aí que a analogia com a Primavera Árabe se torna mais enganosa do que esclarecedora.
J.Press – Por que as revoltas dessa geração se espalharam pelo continente? Existe um padrão entre elas?
Unzer – Há um padrão que aparece em quase todos os casos recentes. Bangladesh, Nepal e Sri Lanka viram governos caírem por mobilizações lideradas por jovens. Nas Filipinas, por exemplo, protestos pressionaram fortemente as autoridades. Em todos esses episódios, corrupção, desigualdade e desemprego juvenil aparecem como denominadores comuns, independentemente do espectro ideológico do governo em questão.
O mecanismo de propagação também segue uma lógica reconhecível historicamente. O que Benedict Anderson mostra é como comunidades imaginadas se formam através de circulação de linguagens e símbolos compartilhados. Hoje essa circulação ocorre por meio de hashtags. Um exemplo disso é a “#SEAblings”, criada durante os protestos no Sudeste Asiático. A sigla SEA, de South East Asia [Sudeste Asiático, em português], junto com “blings”, cria uma ideia de identificação de irmãos. Isso viralizou à medida que filipinos, indonésios e outras nações do Sudeste Asiático manifestaram apoio recíproco aos seus movimentos anticorrupção. É a velha solidariedade regional operando em nova infraestrutura.
J.Press – Como o senhor entende que as redes sociais têm influência sobre essas revoltas?
Unzer – As redes funcionam menos como causa e mais como acelerador e vitrine. As plataformas expõem, em tempo real, o abismo entre o discurso oficial de moderação e a vida ostentatória dos filhos da elite. É significativo que no Nepal o próprio banimento das plataformas tenha sido o estopim da revolta, o que demonstra que a tentativa de controlar essa vitrine pode ser mais explosiva do que tolerá-la.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar o determinismo tecnológico. As redes organizam e aceleram, mas não criam indignação. A indignaçãomjá vinha se acumulando há anos em torno de trends locais como “Nepokids” nepaleses, meses antes da explosão em setembro. Graeber sempre insiste que as tecnologias de comunicação são instrumentos de organização horizontal quando o Estado perde o monopólio da narrativa. E é exatamente esse deslocamento do monopólio simbólico que estamos observando.
J.Press – A desigualdade social e a corrupção motivaram protestos no Nepal e na Indonésia. Essas situações pioraram? Por que a demora para a revolta da população?
Unzer – Os dados recentes sugerem piora relativa, e não apenas uma percepção subjetiva. Em um relatório da Oxfam sobre desigualdade de riqueza, é registrado que a pobreza global recuou pouco desde os anos de 1990. Ao mesmo tempo em que 204 novos bilionários foram criados apenas em 2024.
Em países como Indonésia, Filipinas e Nepal, esse contraste ficou concreto em casos específicos: em benefícios de moradia recebidos por parlamentares indonésios, equivalentes a cerca de 20 vezes a renda média da população, e em projetos superfaturados de controle de enchentes nas Filipinas. A demora não é passividade. Enquanto a corrupção era abstrata, o cálculo individual favorecia o silêncio. Mas quando ela se torna visível e comparável — o carro de luxo, o apartamento, o vídeo nas redes — é que a economia moral da população se sente formalmente violada, e a ação coletiva deixa de ser racional do ponto de vista de cada indivíduo isolado.
Imagem de capa: Reprodução Wikimédia Commons





