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De onde vem a tilápia que você come?

Como funciona e quais os possíveis impactos ambientais da aquicultura: a atividade que mais produz peixe no mundo
Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)

O setor da aquicultura já ultrapassou a pesca extrativa como a principal fonte de produção de animais aquáticos no mundo. Em 2024, houve um crescimento de 9,2% na indústria brasileira, alcançando a produção de 968,7 toneladas de peixe, segundo o Anuário da Associação brasileira de Piscicultura de 2025 (PeixeBR). A aquicultura, ou piscicultura, é frequentemente anunciada como “uma alternativa sustentável à pesca”, o que pode negligenciar seus potenciais danos ao meio ambiente. 

Das 968,7 toneladas de peixe produzidas no Brasil em 2024, 662,230 toneladas eram de tilápia [Imagem: Kindel Media/ Pexels]

O que é aquicultura?

Os centros de produção de peixes no Brasil se concentram em São Paulo e no Paraná, enquanto os de camarão estão localizados  no Nordeste. Segundo Marcus Girotto, consultor da Aquicultura Brasil Consultoria e zootecnista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a maioria desses empreendimentos começou há cerca de 25 anos, com fazendeiros motivados pelo governo a produzir.

“Houve incentivos por parte dos governos estaduais, e às vezes até municipais, para implantar a atividade. Então, produtores que trabalhavam com aves, suínos, gado ou até pequenas hortas eram abordados por órgãos de extensão para produzir em áreas vazias dentro do terreno”, explica Girotto. “Era benéfico para os produtores porque, pelo menos uma vez no ano, na Semana Santa, haveria uma saída de peixe. Era uma renda diferente em um período que talvez fosse mais escasso”. 

Os tipos de produção do país são tanque-rede e viveiro escavado. No primeiro, dentro de corpos de água já existentes, como lagos ou represas, instalam-se estruturas em forma de caixas ou gaiolas — feitas de telas de metal ou plástico. Nesse modelo, a água não precisa ser regularmente trocada porque a renovação ocorre pela própria correnteza. Os peixes dependem da alimentação fornecida pelo produtor, pois a circulação da água quase não permite a formação natural de alimento. 

Os tanques-rede são mais comuns no sudeste do Brasil [Imagem: Gordon Legget/Wikimedia Commons]

No viveiro, por outro lado, escava-se um lugar específico para a atividade. Nele, a água deve ser drenada e reabastecida constantemente, para garantir sua qualidade e evitar o acúmulo de matéria orgânica no fundo do reservatório. Muitas vezes, para facilitar essa reposição, produtores constroem efluentes conectados aos rios, para criar sistemas fechados em que a água pode retornar à sua origem após o uso. Diferente do tanque-rede, o ambiente permite a produção natural de fitoplâncton e zooplâncton — que auxiliam na alimentação dos peixes. 

Os Viveiros escavados são mais comuns no sul do país
[Imagem: Gordon Legget/Wikimedia Commons]

Impactos ambientais

Como afirma Girotto, mesmo que alguns veículos promovam a aquicultura como uma alternativa sustentável à pesca, como na matéria do National Geographic: O que é aquicultura? Pode ser a solução para a sobrepesca, essa nem sempre é a realidade. “É uma visão normal do setor. A maioria dos produtores acha que está tudo bem e esse negócio de impacto ambiental é coisa de ecochato”, conta. 

Se não for conduzida com cautela, a atividade pode gerar consequências ao meio ambiente. De acordo com o zootecnista, o principal perigo está no uso dos efluentes. A água desviada dos rios adentra um ambiente com uma população de animais muito diferente da original. A abundância de peixes concentrados e parados, que recebem uma quantia massiva de alimento, produz matéria orgânica — os peixes produzem muitos resíduos. Se não for filtrada adequadamente, essa água pode retornar ao ambiente original com uma carga de nutrientes que antes não existia ali. 

Girotto explica que, no dia a dia, a maioria dos produtores costuma se atentar a esse perigo, já que a má qualidade da água impacta diretamente a qualidade de seus peixes: “Quanto melhor for a água, mais saudável estiver o peixe dele, mais rápido ele cresce, menos ele gasta e mais ele ganha. Logo, ele não tem a intenção de impactar. Hoje, o principal problema é na hora que você vai tirar esse peixe”. Diversos produtores descartam a matéria irregularmente e acabam desregulando ecossistemas inteiros — seja pelo desequilíbrio da cadeia alimentar ou pela mudança do pH da água, por exemplo.

Outra questão é o meio de obtenção da água. Muitas vezes, para reabastecer sua produção mais rápido, fazendeiros aumentam a captação do rio. O desvio pode fazer com que corpos de água sequem antes de atingir sua foz — impactando não só outros produtores em regiões mais baixas, que ficam sem abastecimento, como também toda fauna e flora dependente desse recurso. 

A questão do camarão

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, foram construídas fazendas no Nordeste do país sobre áreas de manguezais — biomas costeiros localizados na transição entre a terra e o mar.  Girotto diz que, na época, o manguezal era considerado uma área inútil e passível de ocupação. Ali surgiu o berço do camarão do pacífico no Brasil. 

No camarão o problema é muito maior

– Marcus Girotto

Atualmente, sabe-se que o mangue abriga diversas espécies marinhas e é essencial para os oceanos: filtra poluentes e armazena grandes quantias de carbono. Por isso, existe uma disputa sobre os licenciamentos para a produção na área. Em alguns casos, fazendeiros têm suas licenças cassadas pelo Ministério Público mesmo com a atividade regularizada, devido às discussões sobre a ética ambiental desse tipo de cultivo. 

O sacrifício do peixe pelo boi

Em abril de 2025, foi revogada a proibição da entrada de tilápias produzidas pelo Vietnã no Brasil. A medida havia sido imposta pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) em abril de 2024, devido ao receio do vírus TiLV, uma infecção altamente contagiosa entre os peixes e a prática industrial vietnamita, que não se adequava à legislação sanitária brasileira. No anúncio da liberação, O MAPA declarou que o risco da importação é negligenciável, por isso a reabertura dos portos seria possível. Essa indústria, que cresce cada vez mais, representa um potencial ecológico e uma ameaça ao meio ambiente ao mesmo tempo. 

Em nota de esclarecimento ao veículo de notícias Seafood Brasil, o MAPA afirma que, após Análise de Risco de Importação: “concluiu-se que o risco para a importação de filés de tilápia é negligenciável, em razão de a probabilidade de exposição ser considerada insignificante e, para peixe inteiro, a probabilidade de exposição é muito baixa e demandaria medidas de gerenciamento”. Existe um risco, julgado pelo ministério em 2024, não só o da introdução de uma doença, mas também da disparidade de qualidade de produção entre países. 

Girotto explica que os aparatos sanitários do Vietnã são diferentes do Brasil. O risco da importação de doenças é baixo, mas de qualquer forma a condição da tilápia vietnamita é diferente da brasileira, que obedece padrões de produção rígidos. Isso pode causar um desequilíbrio no mercado. Uma legislação menos rigorosa permite uma criação mais barata. Consequentemente, o peixe pode chegar com preços desleais e qualidade inferior em comparação aos produtos brasileiros. 

Segundo o especialista, os produtores e as associações são contra a revogação. Não só porque desejam proteger o mercado nacional, como também pela garantia da segurança do produto — um dos mais seguros do mundo na questão sanitária. Para exemplificar isso, ele citou o caso da gripe aviária. Enquanto parte do mundo sofre com uma crise no setor produtor de aves, o Brasil foi capaz de controlar a infecção e manter suas exportações. 

“Nesse caso, as exigências da lei podem ter sido reduzidas por conta de acordos comerciais. Para conseguir exportar carne bovina para lá, o Brasil aceitou um tratado comercial. Nós mandamos bois, eles mandam tilápia”, diz Girotto. 

Fortalecimento da aquicultura significa o fim da pesca?

Em entrevista ao Laboratório, Lícia Lundstedt, chefe de pesca e aquicultura da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), afirmou que, embora exista certa competição entre a pesca e a aquicultura, as duas atuam conjuntamente. “Segundo os dados da FAO (2024), pela primeira vez na história, em 2022 a aquicultura ultrapassou a pesca de captura como a principal fonte de produção de animais aquáticos”, diz. 

“A pesca continuará desempenhando um papel preponderante para o Brasil, por abranger aspectos econômicos, sociais, de segurança alimentar e até de lazer. O setor gera milhões de empregos diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva; a atividade pesqueira, principalmente a artesanal, é a base do desenvolvimento e sustento de inúmeras comunidades costeiras e ribeirinhas”, diz Lundstedt.

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