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Ensaio | Masculinidade tóxica e relações na juventude através do cinema

Incentivo a comportamentos e mentalidades misóginas podem transformar meninos inocentes em homens reprimidos e infelizes
Por Ana Julia Oliveira (anajulia.oliveira@usp.br)

O termo “masculinidade tóxica” se refere a um modelo de comportamento associado ao gênero masculino, que compõem o que é considerado socialmente aceito dentro de uma sociedade.

Ser forte, não se abrir emocionalmente, não demonstrar carinho, principalmente com outros homens, são apenas algumas das regras às quais os meninos são impostos desde muito cedo, sob o risco de serem excluídos ao fugirem do padrão.

Essa imposição social contribui para o assustador aumento no número de casos de violência contra a mulher. Segundo o Instituto Patrícia Galvão, só em 2024, mais 21 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência, e cerca de 11 foram vítimas de feminicídio por dia. 

Além disso, a masculinidade tóxica, ao reforçar condutas de pertencimento entre os homens, também afeta o próprio gênero, que, mundialmente, apresenta quatro vezes mais casos de suicídios do que as mulheres.

 “Qual foi o modelo de carinho no qual você foi socializado? Recebia abraço, beijo, ouvia ‘eu te amo’ de quem? Estabelecia diálogo, com quem? Qual relação era fria e distante, de obedecer ordens, e qual tinha proximidade?”

Rita Von Hunty em palestra ao Tribunal Regional do Trabalho

No cinema, obras como  Monster (Kaibutsu, 2023), Close (2022) e Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), exploram a complexidade desse tema. Neles, a masculinidade frágil se faz presente, mesmo que de forma sutil, na relação entre garotos, na maioria das vezes forçados a abandonar a natural inocência da infância para serem aceitos à medida que crescem.

A amizade entre dois meninos, na maioria das vezes, é colocada em jogo na adolescência [Imagem: Reprodução/Imdb]

Quem são os verdadeiros monstros?

Dirigido por Hirokazu Kore-eda, também conhecido por seu trabalho em Assunto de Família (Manbiki Kazoku, 2018) e Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru, 2013), Monster conta a história de Minato (Soya Kurokawa), um pré-adolescente que começa a adotar comportamentos estranhos após se queixar de sofrer agressões de seu professor (Eita Nagayama).

Preocupada com o filho, sua mãe (Sakura Ando) vai atrás de respostas, mas ao se aprofundar no problema, descobre que há muito mais acontecendo do que Minato deixa transparecer.

O longa trabalha muito bem com a estratégia de vários pontos de vista. Assim, a cada corte, uma nova narrativa é exposta, sob o olhar de um personagem diferente, como a mãe, o professor, a diretora e o garoto, o que permite ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça que revela o que, de fato, aconteceu. 

Esse estilo de narrativa expõe um hábito muito comum do público: acreditar em tudo que nos é exposto, e julgar os envolvidos como certos e errados. Assim, as diferentes versões da história mostram que a verdade, muitas vezes, é subjetiva, e que julgamentos pré-concebidos podem arruinar outras vidas.

Ao longo da trama, o espectador é introduzido a outro personagem central para a trama: Yori (Hinata Hiiragi), um garoto da mesma sala de Minato, mas que, por ser menor que os outros meninos, aparenta ser mais novo. Yori é gentil, sensível e indefeso, características que o fazem se destacar negativamente entre seus colegas. 

Por esse motivo, sofre bullying, não só na escola, mas também em casa por parte do pai, que o chama de monstro. Entre os dois nasce uma amizade pura e sincera, comum na infância, mas devido ao medo de sofrer o mesmo destino de Yori, Minato se afasta quando estão em público. 

Longe dos olhares de julgamento, no entanto, os meninos se sentem livres para serem eles mesmos, e com o tempo de convivência, acabam descobrindo um sentimento mais forte do que apenas amizade. Incapazes de dizerem em voz alta ou de viverem esse amor por inteiro, Minato e Yori acreditam que são monstros, ao mesmo tempo que se refugiam em suas brincadeiras e cenários utópicos.

Destaque no Festival de Cannes de 2023, Monster sugere uma constante reflexão sobre quem é o monstro de verdade, e qual o perigo de acreditar em apenas uma versão da história que ouvimos. Mais do que isso, o filme mostra quais os impactos de uma masculinidade ideal forçada sobre meninos desde a sua infância.

Minato e Yori não falam abertamente, mas possuem um carinho muito grande um pelo outro [Imagem: Reprodução/Imdb]

O fim da inocência

Outro destaque de Cannes, dessa vez em 2022, Close acompanha Léo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav de Waele), dois amigos inseparáveis. Aos treze anos, eles ainda dormem na casa um do outro, brincam e criam cenários imaginários para se divertir. Ao entrarem para uma nova escola, porém, o vínculo que antes parecia eterno, começa a se romper após um comentário mal-intencionado ser dirigido aos dois.

O filme, dirigido por Lukas Dhont, é o perfeito exemplo de quando crianças, ainda no auge de sua inocência, são confrontadas por outras que há muito tempo já perderam a sua ligação com essa fase da vida. Léo aparenta perceber mais rápido o teor maldoso dos rumores, e numa tentativa tão comum para a idade, de se encaixar entre os colegas, procura se afastar de Rémi, que, ainda preso na infância, sofre para compreender a frieza súbita do amigo.

Para à revista Vanity Fair, o diretor comentou que teve a ideia para o filme quando teve acesso a uma pesquisa feita por uma psicóloga, que analisou 150 meninos por cinco anos. No trabalho, ela constatou que aos treze anos, os garotos falavam de suas amizades como se fossem histórias de amor, mas conforme cresciam, e as expectativas de masculinidade se tornavam mais fortes, perdiam essa linguagem. 

“Muitas vezes temos imagens de comportamento tóxico representadas quando se trata de masculinidade, mas raramente vemos uma amizade rara e bonita em que dois meninos se deitam juntos na cama e só querem estar tão próximos quanto são capazes”, ele pontuou.

“Sinto que dizemos aos homens que o único lugar onde eles podem encontrar intimidade neste mundo é através do sexo e que expressar amor e vulnerabilidade para outro homem parece ser algo impressionantemente complexo.”

Lukas Dhont à Vanity Fair

Mais do que apenas uma narrativa de amadurecimento, Close é sobre crescer antes da hora, sobre se adaptar para ser socialmente aceito, mesmo que isso signifique deixar para trás uma parte de você, e mais do que isso, sobre se arrepender eternamente de uma decisão que fizeram no seu lugar.

Assim como em Monster, a necessidade de garotos ainda tão jovens de se afirmarem como homens em um mundo que exclui qualquer demonstração de singularidade e de sensibilidade.

A amizade entre meninos é constantemente mal interpretada e desencorajada [Imagem: Reprodução/Imdb]

A solidão do diferente e marginalizado

Em uma proposta adversa às anteriores, Moonlight é ambientado nos guetos de Miami dos anos 1980, e acompanha a história de Chiron (Alex Hibbert), um garoto que desde muito cedo, enfrentou o vício em drogas da mãe e o bullying de seus colegas.

Apelidado de Little (pequeno, em tradução livre do inglês), ele era apontado como homossexual pelos outros meninos mesmo antes de se reconhecer como tal, e sem entender por que se sentia tão diferente dos outros, acaba por encontrar refúgio em Juan (Mahershala Ali), um traficante local que o leva para sua casa e o trata como filho.

Ao longo da adolescência, Chiron, agora interpretado por Ashton Sanders, passa a entender que para sobreviver em uma comunidade que, mesmo marginalizada, ainda excluía aqueles que se diferenciam, ele precisaria se proteger. Por esse motivo, ele se torna mais agressivo e passa a reprimir ao máximo sua sexualidade, principalmente quando começa a criar sentimentos pelo amigo Kevin (Jharrel Jerome).

Na última fase do filme, Chiron ressurge como um homem adulto, agora forte fisicamente, traficante e com um novo nome: Black (Trevante Rhodes). Apesar das camadas nas quais teve que se envolver para se proteger da violência e do preconceito, ele encontra dificuldade para se libertar do seu passado e se reafirmar como um homem negro, periférico e homossexual no presente. 

Quando dois meninos se tornam amigos muito próximos, a sociedade costuma questionar essa proximidade, mesmo que seja natural [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

No decorrer de sua vida, ele apenas aceita os rótulos que recebe: fraco, covarde e pequeno quando criança, e mais tarde, criminoso e violento. Por isso, já adulto, ele perde sua identidade, e se rende àquilo que todos esperam de um menino crescido no gueto, com medo que descubram quem ele realmente é. 

“Sob a luz do luar, meninos negros parecem azuis”. Essa frase, originalmente título de uma peça nunca encenada, escrita por Tarell Alvin McCraney, dá sentido à narrativa. No inglês, blue não se refere só à cor azul, mas ao sentimento de tristeza e melancolia, que se encaixa perfeitamente às vivências do protagonista, que passa sua vida se sentindo rejeitado e não pertencente ao lugar e às pessoas que o rodeiam. 

Dirigido por Barry Jenkins e vencedor das categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2017, Moonlight não se limita às questões de raça e sexualidade, mas se utiliza delas para contar a história de um garoto que sempre foi punido por ser diferente dos outros.

Depois de adulto, Chiron revê Kevin e entra em conflito consigo mesmo [Imagem: Reprodução/Imdb]

Meninos e masculinidade

O sistema representado através desses filmes demonstra como a tentativa de reafirmação da masculinidade por parte dos homens pode se tornar sua própria ruína. Mas também é válido lembrar, que assim como o conceito de masculinidade foi criado sociologicamente, ele também pode ser ressignificado.

Nas palavras de Rita Von Hunty — persona drag do ator e professor Guilherme Terreri —, “Não é um debate identitário, é um tema de segurança pública. Isso diz respeito a como criamos nossos filhos, como os educamos nas escolas, o que vai compor o currículo escolar.”

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