Por Nicolas Sabino (nicolassabino@usp.br)
Goat (Him, 2025), filme de terror produzido pela Monkeypaw Productions, estreia nesta quinta-feira (02) nos cinemas. O longa é dirigido por Justin Tipping, que dirige o segundo filme da carreira. A trama acompanha o jogador de futebol americano Cameron Cade (Tyriq Withers) que desde criança almeja ser igual a seu ídolo, o quarterback Isaiah White (Marlon Wayans). Após sofrer um ataque misterioso, Cade precisa mudar seu caminho no futebol e lidar com uma séria lesão na cabeça.
É nesse momento que surge uma proposta de Isaiah White, jogador de futebol americano considerado o GOAT — o melhor de todos os tempos. Ele se oferece para treinar Cade e fazer dele o próximo GOAT. Mas conforme os treinos avançam, o ambiente isolado que antes era o sonho de Cade começa a se transformar em um pesadelo.
O filme conta com Jordan Peele na produção, diretor de Corra! (Get Out, 2017) e Não! Não Olhe! (Nope, 2022). Seu nome, amplamente utilizado durante a campanha de divulgação, pode induzir o público a que este é um longa capaz de oferecer uma experiência semelhante à do diretor. O que, infelizmente, não é o caso. Peele não deixa a desejar na produção desse filme. Pelo contrário, ele executa um ótimo trabalho. Mas a sua ausência na direção e na escrita do roteiro pode ser sentida.

Ao optar por não aprofundar os temas que constrói, o roteiro passa superficialmente pelas diversas situações do futebol que poderiam ser criticadas e joga fora a oportunidade de usar o ambiente esportivo para fazer um bom filme de terror.
O principal ponto abordado é o dos sacrifícios necessários para ser o melhor, como a exploração e a rigidez com os atletas, a idolatria e o uso de substâncias para melhorar a performance em campo. Mas, essas questões são deixadas de lado para expor a parte sobrenatural da trama, o que acaba confundindo ao invés de trazer reflexões. Como se isso não bastasse, a explicação para alguns dos principais eventos que envolvem o protagonista é omitida do público.
O filme, repleto de simbolismos visuais, não é capaz de sustentar a ausência de sentido que permanece ao decorrer da trama. Entre visões aleatórias e os mistérios que envolvem a residência de Isaiah, o longa se começa a se aproximar do final como se a história não tivesse sido desenvolvida. O desconforto que essas dúvidas causam é tanta que os 105 minutos parecem se prolongar por mais tempo.
Mesmo com uma bela fotografia, o longa beira o cômico com tantos exageros. Exemplo disso é uma das sequências finais que, além de previsível, se excede em sangue e mortes de forma a deixar a situação ainda mais supreende. O que não acontece.
Algumas cenas de horror funcionam, mas, no geral, os sustos e o medo presentes no filme estão desconectados do restante da história, e a repetição do modelo usado também não contribui para manter a tensão. Um outro problema com o longa é que ele é um filme com pano de fundo sobre futebol americano com quase nenhum jogo em tela. O que chega mais perto são os treinos na casa de Isaiah, que se transformam e se distanciam do esporte conforme a trama avança.

Um aspecto positivo no filme é a forma como os protagonistas priorizam coisas diferentes. Enquanto para Isaiah o esporte vem primeiro, para Cade a família é a prioridade. A relação de Cade com a família é mostrada desde o começo do longa, quando o pai dele, antes de falecer, dizia que o filho seria o melhor atleta. Com a sua morte, Cade transforma a vontade do pai em objetivo de vida.
A atuação de Marlon Wayans é sem dúvidas o ponto alto do longa. Conhecido principalmente por seus papéis em filmes de comédia, Wayans brilha como um treinador extremamente instável e rodeado de mistérios. Já a interpretação de Tyriq Withers é boa, mas ele é facilmente apagado pela presença de Wayans em cena.
O filme ainda conta com a atuação de Julia Fox, de Jóias Brutas (Uncut Gems, 2019). Sua personagem, que aparenta ser só uma mulher de jogador, tem um propósito muito sinistro por trás.

Nos aspectos técnicos, o filme mostra uma fotografia e ambientação impecáveis. Tanto a parte interna, quanto os arredores desérticos da casa de Isaiah contribuem muito na trama. Os efeitos visuais, parte fundamental para tirar o cansaço da trama, também são dignos de elogios.
Ao mostrar uma busca implacável pelo sucesso, GOAT não desenvolve bem sua própria história, muito menos os problemas do futebol americano. Todas as alegorias do filme são perdidas quando a trama decide tornar os sacrifícios literais demais, abrindo espaço para briga entre um aspirante a quarterback de liga profissional e um veterano que não quer se aposentar.
O forte peso estético apresentado não é capaz de salvar um roteiro bagunçado. Entre tantos temas que o filme podia tratar, ele decide falar sobre todos e, ao longo da trama, esquecer todos eles.

GOAT já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/Monkeypaw Productions
