Por Nicoly Modesto (nicoly.modesto@usp.br)
Eu estou aqui desde o primeiro dia. Já enfrentei semanas de chuva e outras de muito calor, mas resisti. Minha mãe não concorda comigo: ela diz que antes de mim vieram outras das minhas irmãs, as quais nunca pude conhecer. Quando questiono sobre seu passado, mamãe diz não se lembrar muito bem de como é ser um pequeno broto, com apenas algumas folhas. Mas ela se recorda que chegou junto com a Alata e Biflora, nossas vizinhas que nos ajudam a crescer.
Pergunto para ela onde estão minhas irmãs, e ela sempre responde que tenta nos manter por aqui — mas se ficarmos por muito tempo vamos apodrecer, e precisamos amadurecer para continuarmos vivas.
Com isso eu também já estou acostumada. Apesar de crescermos penduradas nas cercas, não somos muitas por aqui, e dividimos o espaço com algumas verduras e outras frutas. Já vi várias das minhas irmãs se tornando flores, como eu, ou se tornando frutos e indo para um lugar melhor — como também já vi algumas morrendo, sem ter a chance de se desenvolver corretamente. O momento certo de amadurecimento não depende só de mim, e, por medo de apressá-lo, continuo no mesmo lugar.
O calcário do solo, o nitrogênio e outros compostos do adubo me ajudam a continuar, mas sei que quando me tornar um fruto terei pouco tempo para desvendar o que o futuro me aguarda. Faz tempo que as abelhas não voam na nossa região: ultimamente, o pólen é depositado pelos seres humanos, sempre apressados e preocupados para que as flores não murchem.
Nunca entendi o porquê, mas para que uma flor de maracujá se transforme em fruto, é necessário receber o pólen de outra flor. Não somos capazes de realizar a autofecundação, e quanto mais pólen, mais chances de amadurecermos.
Podemos ser verdes ou roxas. Qual será a minha cor como flor, afinal? E meu fruto? Percebo que somos muito mais chamativas do que as outras flores, não só devido às vivas cores de nossas pétalas, mas também ao nosso formato único na natureza.
Hoje o dia está muito bonito, as chuvas já passaram e agora só resta o Sol, que parece estar mais forte do que nos últimos dias. Estou sentindo algo de diferente… Será que, depois de tanto tempo aguardando, seria mesmo a minha vez?
Então, assim que o Sol se posicionou bem no meio do céu todo azul, fui sentindo, lentamente, a minha flor se abrir…
Tudo parecia mais claro: eu sentia o vento e o sol, mais quente do que nunca, em minhas pétalas. Eu tinha que aproveitar essa dádiva enquanto podia, pois em breve se iniciaria o meu amadurecimento, que dura, pelo menos, 70 dias. Antes que eu pudesse pensar muito nisso, escutei um zumbido alto e robusto vindo de longe. Depois de muito tempo, as tímidas mamangavas apareceram.
Sempre solitárias, algumas conversaram comigo e com minhas irmãs, mas todas pediram licença para coletar nosso pólen e néctar. Sabemos que somos importantes umas para as outras mesmo sem nunca nos vermos, assim como as árvores são importantes para as abelhas.
Disseram que a grande presença de agrotóxicos nas matas exigia que elas fossem mais cautelosas em seu trabalho. Aparentemente, os humanos não gostam delas, ferindo-as devido ao seu tamanho, zumbido e picada. Não consigo entender muito bem, elas são tão inofensivas…
Por serem maiores do que as outras abelhas, as Xylocopas são as únicas que conseguem voar contra o vento e nos alcançar, mas o calor também pode ser um ocasional impedimento. Uma veio por debaixo das anteras, tirou o pólen que estava aqui e, em troca, passou o pólen de outra flor pelo meu estigma. Ela rapidamente agradeceu e seguiu seu caminho, cruzando os pólens pelas flores do campo.
O Sol já tinha ido embora, então, como de costume, me fechei. Nos próximos dias, tudo pode acontecer: posso abrir e não me fechar mais, cair, ou até mesmo ser tirada daqui por um humano. Logo na minha vez?
Enquanto pensava, minhas pétalas foram caindo. Eu já conseguia imaginar o fim do meu ciclo como flor de maracujá. Apesar de não saber qual seria o meu futuro, tentei relembrar os momentos bons que vivi acompanhando as outras flores, as abelhas, as mudanças do clima…
Foi quando vi que já haviam se passado três dias, e eu não tinha me aberto no horário comum. Estava começando, ali, o processo de me tornar uma fruta, um maracujá!
Será que minha polpa será muito azeda? Qual utilidade eu terei como maracujá? Como será minha vida após sair da árvore? Ainda terei guardadas as minhas memórias como flor? Um forte nervosismo e muitas outras dúvidas atravessavam meus pensamentos enquanto, sem perceber, eu ia me desenvolvendo. Quarenta e cinco dias se foram assim, e eu me sentia cada vez mais cheia e volumosa. O meu destino havia se concretizado como flor, e agora iria se consolidar como fruta.
A ansiedade do processo de amadurecer já estava num passado distante, e eu reparei que, preocupada com o futuro, não tinha aproveitei direito esse período tão especial e único. O que eu poderia ter falado com a minha mãe? Se eu tivesse conversado com as abelhas, talvez não tivesse tantas dúvidas… ou talvez tivesse, de qualquer forma.
No momento estou amarelinha, como minhas irmãs um dia foram. Estou seguindo um ciclo delicado, e cresço acima de todas as flores do jardim e das próprias mamangavas. Aguardei mais alguns dias e vi que flores de outras árvores seguiam, assim como eu, os últimos passos dos seus próprios ciclos. Percebi que mesmo que estejamos juntas nessa vivência, cada uma de nós tem o seu próprio tempo, que a diferencia de qualquer outra.
Então, chegou o dia e a hora. Mal percebi passar o tempo enquanto cumpria meu papel de flor, e agora, saindo do caule, as coisas serão diferentes. Sempre estive rodeada de minhas irmãs e das queridas folhas, e agora, serei apenas eu, uma unidade de fruta. Era meio dia quando pude ver uma figura humana se aproximando. Era uma criança que, assim como eu, também estava florescendo.
Com ajuda de outro humano, sinto seus pequenos dedos no fruto, puxando-me para baixo para que eu caia em suas mãos. Tenho certeza que minhas dúvidas de uma vida inteira, do broto ao fruto, serão esclarecidas agora, após me despedir da árvore em que nasci.
Então, tudo escureceu.






