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‘O Som da Queda’: a arte de não dizer, e, sim, mostrar | 49ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Com narrativa poética, obra alemã representa a melancolia e a tensão no cotidiano feminino ao longo das décadas
Por Hellen Indrigo Perez (hellenindrigoperez@usp.br)

O Som da Queda (In die Sonne schauen, 2025), vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2025, está em exibição durante a 49º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre oficialmente entre os dias 16 e 30 de outubro. O filme é o indicado da Alemanha para concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro na próxima edição do Oscar, e marca o retorno de Mascha Schilinski à direção após sua estreia em A Filha (Die Tochter, 2017). Na Mostra, o longa integra a categoria ‘Competição Novos Diretores’ e é um dos candidatos ao Troféu Bandeira Paulista.

Com uma narrativa poética sustentada pela sucessão de longas cenas e pontuais reflexões das personagens, a obra acompanha a juventude de quatro garotas que viveram na mesma casa de fazenda na parte rural da Alemanha, em épocas diferentes. Ao longo da trama, suas histórias se sobrepõem à medida que cada uma se conecta a ecos do passado em busca da própria identidade.

Alma, uma pequena menina, cresce em meio à brutalidade e à insegurança que dominaram o início da Primeira Guerra Mundial. Erika, uma garota ousada, desafia o mundo ao seu redor, dessa vez em meio à Segunda Guerra. Já no período da Guerra Fria, Angelika precisa reencontrar a si mesma após ser moldada por um histórico de abusos. Por fim, nos dias atuais, Lenka tenta descobrir seu propósito enquanto enfrenta o turbilhão de sentimentos do início da adolescência. 

Apesar de apresentar quatro personagens principais, as verdadeiras protagonistas do filme parecem ser as emoções [Imagem: Reprodução/TMDb]

Contrariando a fórmula comum adotada por grande parte dos filmes comerciais, O Som da Queda não se baseia em uma ordem cronológica ou no desenrolar de acontecimentos interligados. A rejeição do longa aos moldes tradicionais de começo, meio e fim, torna-o, ao mesmo tempo, intrigante e caótico. Ao brincar com a linha temporal e exibir sequências de cenas que nem sempre agregam significado umas às outras, o filme apresenta-se como um quebra-cabeças que deve ser organizado pelo próprio espectador.

O desenvolvimento gira em torno de um retrato do cotidiano das protagonistas através das décadas, e demonstra como cada uma se posiciona na fração de mundo representada pela casa de fazenda. A interação das quatro garotas com as demais personagens ao seu redor tece uma narrativa cíclica centrada na forma com que a violência, o abuso e as marcas deixadas pela morte moldaram diferentes gerações de mulheres, ao mesmo tempo em que reflete mudanças no comportamento, no vestuário e nas formas de intimidade.

A ausência de um fio narrativo explícito pode confundir, mas é um recurso eficiente para fazer com que o público reflita sobre as entrelinhas que movem a trama. O roteiro, da autoria de Schilinski e Louise Peter, entrega poucas respostas e não fabrica momentos dramáticos de revelação ou grandes pontos de virada. Ao longo do filme, o espectador pode se perguntar se haverá um momento catártico em que todos os fragmentos de informação irão se unir em uma construção única de sentido. Mas, quando chegam os minutos finais, fica visível que isso não vai acontecer. Até o fim, a obra mostra-se fiel à ideia de oferecer uma contemplação sem forma definida.

A obra explora dezenas de personagens femininas em sua tentativa de representar a opressão do patriarcado ao longo das décadas [Imagem: Reprodução/TMDb]

O propósito de O Som da Queda não é dizer, é mostrar. Esse detalhe confirma-se pela pequena quantidade de diálogos e pelo esforço do diretor de fotografia, Fabian Gamper, em encontrar ângulos que transmitam ao espectador a sensação de ver o mundo fictício pelos olhos das personagens, como a fresta de uma cerca ou o buraco de uma fechadura. A escolha de retratar as partes obscuras dos núcleos familiares e da vida feminina de forma sugestiva e silenciosa, escondendo-as em meio ao olhar infantil e às representações do cotidiano, é uma estratégia admirável.

Os anseios não ditos das personagens dão à obra um tom constante de desconforto. Ao não oferecer momentos claros de clímax ou pausas para alívio, o filme transita o tempo todo no meio termo entre expectativa e angústia. Apesar de nem sempre se conectarem de forma temática, as cenas da vivência de cada uma das garotas têm a atmosfera sombria e melancólica como ponto em comum, e essa sensação é perfeitamente repassada ao público com o auxílio de elementos sonoros e cenas propositalmente incômodas 一 como os diversos funerais podem atestar. 

Apesar desse desconforto persistente 一  ou justamente por causa dele 一 o filme consegue transmitir uma sensibilidade palpável e verossímil. Ao fugir dos exageros e das delimitações, Schilinski consegue projetar as personagens para fora das telas e fazer com que o espectador continue pensando sobre a história mesmo depois do fim dos créditos.

O foco nas emoções não ditas das personagens é sustentado por ótimas atuações [Imagem: Reprodução/TMDb]

A ambientação construída pela designer de produção, Cosima Vellenzer, e os figurinos montados por Sabrina Krämer são valiosos para a construção de uma estética impecável, que impressiona a cada instante e eleva a qualidade da obra como um todo. A beleza inegável por trás da representação trágica dos quatro destinos torna o potencial reflexivo ainda mais inescapável. O resultado da junção de todos esses fatores é uma obra magnética, que consegue exprimir sentido e identificação em meio a seu caos silencioso. 

Esse filme faz parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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