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Quem dita as nossas tendências? Os altos e baixos da estética minimalista

Para além das redes sociais, movimentos de moda e arquitetura refletem cenário político e socioeconômico do momento
Colagem de pessoas usando roupas da estética minimalista, em contraste com outras vestindo sobreposições
Por Ana Julia Oliveira (anajulia.oliveira@usp.br

Nos últimos anos, estéticas como “old money”, “quiet luxury” e “clean” têm dominado as redes sociais, com vídeos de dicas e ensinamentos que prometem trazer não só uma mudança de vestuário, mas de estilo de vida. Cores neutras, formas simples, pouca textura e detalhamento são algumas das características principais da estética minimalista, que busca se comunicar através da ordem e da clareza.

Em relação ao comportamento, quem adota o minimalismo defende o descarte dos excessos, o consumo consciente e a funcionalidade acima da estética. Não se trata da escassez de recursos, mas da escolha racional de consumir somente o necessário. Essa lógica foi muito adotada por uma elite jovem, que se destaca por seu estilo simples, e ainda elegante.

Para Coco Chanel, estilista francesa e fundadora da marca de grife que leva seu nome, “a simplicidade é a chave de toda verdadeira elegância”.

O nascimento de uma estética

Antes de se tornar a estética que conhecemos hoje, o minimalismo teve sua origem na Alemanha do século 20. Criada em 1919 por Walter Gropius, a Escola Bauhaus reuniu artistas, designers e arquitetos em torno da ideia de modernização da maneira de pensar e criar, de modo a unir funcionalidade, eficiência e acessibilidade. Sua filosofia se baseava na lógica de que “a forma de um objeto é definida pela sua função”.

Prédio da Escola Bauhauss; a estrutura é de cor cinza com poucos detalhes
Conhecida como a primeira escola de design do mundo, a Bauhaus revolucionou a arquitetura e a arte, com projetos focados na simplicidade, funcionalidade e modernidade
[Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

Também original da Alemanha, o arquiteto Mies Van der Rohe teve um papel importante no movimento modernista. Foi diretor da Bauhaus, e durante a década de 1920, seu estilo marcante se fez presente, com a rejeição de cômodos fechados e o uso do vidro como barreira entre interior e exterior. Foi Mies que trouxe à vida a máxima do minimalismo: “Menos é mais”, que ainda é usada nos dias de hoje. Para Marcos de Oliveira Costa, docente e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Fundação Armando Alvares Penteado, localizada em São Paulo (FAAP-SP), o arquiteto austríaco Adolf Loos também teve um papel importante no processo de limpeza das superfícies e eliminação dos adornos.

A criação de novas tendências, segundo Marcos, se dá pelo processo histórico que relaciona fenômenos ambientais, culturais, econômicos e políticos. Apesar da proposta inovadora, o professor também aponta a “ausência de sentido simbólico nas expressões minimalistas, que acaba por reprimir aspectos importantes para a arquitetura, como memória e estabilidade”.

Pessoas sentadas em um longo banco no Pavilhão de Barcelona
Pavilhão de Barcelona, pensado por Mies Van der Rohe e Lilly Reich, em 1929, para a Exposição Internacional de Barcelona
[Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

Na Holanda, a estética tinha outras feições, com o movimento De Stijl, implementado por arquitetos como Piet Mondrian, Theo van Doesburg e Bart Anthony van der Leck entre as décadas de 1920 e 1930. Para eles, o minimalismo estava longe da ideia de construções brancas e neutras, pelo contrário, as cores, principalmente primárias, e as formas geométricas simples deviam estar presentes. Novamente, o objetivo era combinar só o essencial para trazer equilíbrio.

Nas décadas de 1950 e 1960, o minimalismo voltou como um movimento artístico e cultural em Nova Iorque, nos Estados Unidos. A proposta dos artistas e arquitetos que o defendiam era a clara oposição a outros movimentos da época, como o expressionismo e a Pop Art, que não economizavam nos exageros, texturas, cores e expressões. Em um contexto pós-guerra, em que o consumismo exacerbado era incentivado, os minimalistas prezavam pela simplicidade.

“A arquitetura minimalista se adequa a duas questões contemporâneas: facilita os processos de produção industrializadas e, ao mesmo tempo, produz um certo silêncio diante dos múltiplos ruídos gerados pela infinidade de imagens que bombardeiam as pessoas através das redes sociais.”

 Marcos de Oliveira Costa

Já no Oriente, o minimalismo já se fazia presente há muito tempo, em filosofias como o Zen, Budismo e o Taoísmo. Apesar das diferenças, essas crenças se baseiam na simplicidade, equilíbrio e renúncia de tudo que é considerado desnecessário para a tranquilidade da mente. No Japão, o Wabi-sabi constitui uma filosofia que valoriza o simples, transitório e enxerga beleza na imperfeição. Também japonês, o kanji Ma (間) se refere ao “intervalo de tempo”, conceito de várias interpretações que pode estar ligado ao espaço entre objetos, silêncio entre sons ou entre ações. 

Arco japonês na cor vermelha
O torii, portal que destaca a entrada de santuários xintoístas, é uma forma de Ma, em que o espaço anterior ao local permite que o visitante se prepare espiritualmente para sua experiência
[Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

Luxo silencioso: a arte da exclusividade e pertencimento

Nos anos 1990, o minimalismo voltou com tudo na moda. Designers como Yve Saint Laurent, Coco Chanel, Martin Margiela e Calvin Klein investiram em peças de alfaiataria e seda, paletas neutras e recortes simples, que comunicavam elegância e refinamento. Sob os holofotes, ícones da moda como Kate Moss, Julia Roberts, Carolyn Bessette-Kennedy e Lady Di representavam o movimento nas ruas e na passarela.

Modelos femininos usando vestimentas minimalistas da marca Calvin Klein. As cores usadas são areia, bege e preto
Nos anos 1990, as cores neutras, a simplicidade e a praticidade tomaram conta da moda
[Imagem: Divulgação/ Calvin Klein]

A ampla divulgação e a popularidade da estética até os dias de hoje colaborou para a crença de que qualquer pessoa que tivesse um conjunto neutro em casa e prezasse pelo consumo consciente podia ser minimalista. No entanto, para as classes mais altas, o minimalismo estava muito longe de ser alcançado pela massa. Em entrevista ao Sala33, Eneus Trindade, professor de Publicidade e Propaganda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o minimalismo não tem data exata de início, mas com a urbanização, a moda precisou acompanhar o novo estilo de vida da população. Aos homens, os acessórios e ornamentos já eram negados; para as mulheres, o uso de calças e roupas mais simples trouxe conforto e praticidade à rotina.

Já o minimalismo estético, segundo Eneus, sempre esteve ligado à uma elite. “O luxo tradicional é conservador”, ele afirma, em uma busca de diferenciação da classe alta para as classes médias e baixas. Na moda, esse luxo é discreto, e no consumo, observa-se uma preocupação com a sustentabilidade. Para o professor, “não há estética minimalista para quem não tem condição. Nesse caso, trata-se de essencialidade.”

O quiet luxury, expressão em inglês que pode ser traduzida como “luxo silencioso” surge no mundo da moda como uma barreira sutil mas incisiva que diferenciava os novos ricos, aqueles que enriqueceram ao longo da vida, dos ricos de berço, herdeiros. Em um contexto em que as famílias que enriquecem tendem a esbanjar seu poder monetário, o quiet luxury nasceu como uma afirmação dos velhos ricos, de que não é necessário ostentar para exibir sua influência.

“Você escolhe esse minimalismo, ele não é uma imposição da necessidade. Então, quem escolhe essa estética, de alguma forma, está representando uma certa posição social”

Vanessa Nobre Nunes, sobre dissertação de mestrado “Minimalismo: gosto, estilo de vida e distinção”

Pelo contrário, o ato de vestir peças simples, sem etiquetas aparentes, porém da mais alta qualidade, já era suficiente para que “olhos treinados” enxergassem a nobreza e a exclusividade do vestuário. Não se trata de modéstia, portanto, mas de exalar elegância sem vulgaridade, e mostrar que nem todo dinheiro do mundo consegue comprar a riqueza da herança. 

Essa dinâmica é muito bem exemplificada na série Succession (2018-2023), exibida pela HBO Max, em que o núcleo principal da família Roy representa o new money —  aqueles que se tornaram ricos — enquanto a família Pierce representa o old money, de riqueza herdada. Ambas possuem um patrimônio material enorme, mas aos Roy falta um patrimônio cultural que foi passado de geração em geração na casa dos Pierce. Esteticamente, é clara a tentativa dos novos ricos de pertencerem através do vestuário sofisticado, mas socialmente, existe uma lacuna significativa.

Personagens da série Succession
O estilo quiet luxury se faz muito presente nas peças dos personagens de Succession, que representam uma família de novos ricos
[Imagem: Reprodução/ The Movie Database]

É por isso que “ser old money” ou “ter um estilo quiet luxury” não passam de hashtags e trends nas redes sociais que estão muito distantes da realidade. As estéticas foram criadas para segregar uma elite quase inalcançável, que não deseja se misturar e o deixa muito claro. Isso não impede que as pessoas se interessem pelo movimento e desejem reproduzi-lo por gosto pessoal, desde que haja uma conscientização no uso desses termos. 

Recession core, limpeza visual e padronização

Assim como qualquer expressão ou movimento, a moda pode e deve ser analisada do ponto de vista político. O recession core, que pode ser traduzido para “tendência da recessão” é o termo utilizado para designar determinadas disposições do mundo fashion que estariam ligadas a períodos de crise. No contexto atual de guerras, emergência climática e crescimento da desigualdade social, existe uma possibilidade palpável de que o mundo inteiro passe por uma recessão econômica.

E o minimalismo é frequentemente apontado como uma reação à uma possível crise. Nos últimos anos, os desfiles de moda exibiram modelos com acessórios mínimos e roupas simples. Afinal, assim como afirma o professor Eneus, ostentar riquezas em momentos sensíveis da economia mundial — como a pandemia — é uma atitude deselegante. Além disso, a simplicidade traz conforto e estabilidade, essenciais em momentos de tensão. Em dezembro de 2025, por exemplo, a Pantone anunciou “Cloud Dancer” como a cor do ano de 2026. Segundo a marca, que desde 2000, tem a tradição de escolher a cor que define as tendências de moda e design, a cor do ano é “um neutro branco elevado, cuja presença arejada funciona como um sussurro de calma e paz em um mundo barulhento”. Apesar de uma tendência passageira, o que as pessoas estão usando diz muito sobre o cenário em que estão inseridas.

A busca pela perfeição, simetria e limpeza também não é bem vista por alguns críticos do movimento minimalista. Se os ideais da moda são definidos pelas elites, pequenos grupos que detém um enorme poder econômico e político, todas as outras expressões, principalmente as que não fazem parte do centro econômico cultural, são excluídas. 

Modelos usando looks minimalistas em cinza e preto
Coleção de Outono de 2023 da marca VTMNTS, com peças quase imperceptíveis, cores neutras e sem estampas
[Imagem: Reprodução/ Vogue Runway]

Tendo em vista o contexto histórico de colonização, as tendências da Europa e América do Norte, geralmente, são entendidas como padrão de beleza e estética, enquanto a cultura do Sul Global é considerada feia, brega e excessiva. A política de controle permanece, mesmo que indiretamente, a partir da lógica de limpeza, ordem e do apagamento das diversidades culturais.

O maximalismo também é moda e resistência

Da mesma forma que o minimalismo vira tendência de tempos em tempos, o seu oposto, maximalismo, também entra e sai de cena. Em 2025, roupas coloridas, estampas, acessórios, sobreposições e combinações fora do óbvio voltaram para as passarelas e feeds do público. Com looks ousados e chamativos, o estilo personalizado está na moda de novo para mostrar que nem tudo precisa ser silencioso e regrado.

O movimento não é nada recente, e tem suas origens nos séculos 1917 e 1918, com o Barroco e o Rococó, quando o luxo estava na ostentação. Dois séculos depois, Gianni Versace e Christian Lacroix capturaram a essência maximalista no design de peças excêntricas, que não passavam despercebidas nos desfiles. Nos anos 1960, ‘70 e ‘80, tornaram-se populares o psicodélico, o disco e o glam rock, que também fugiam da discrição. 

Já no século 21, na década de 2010, o maximalismo voltou nas passarelas, principalmente pelas ideias de Alessandro Michele (Gucci), e de outras marcas, como Dolce & Gabbana e Moschino. Na cultura pop, a estética messy das divas pop, os clipes cheios de informação e as músicas com batidas fortes também contribuíram para o culto ao excessivo.

“Cada vez que uma estética reaparece, ela não está apenas expressando o clima social e político do momento — está também reagindo ao que veio antes. Por isso, nunca é a mesma interação de expressão minimalista e maximalista. Ela evolui a cada vez”

Melissa Marra-Alvarez, em entrevista à CNN

No Brasil, as casas estão aderindo novamente às cores e texturas em sua composição, e as roupas exploram a diversidade da cultura latinoamericana. Para Eneus, trata-se de um resgate às origens, ao tradicional e popular, que é uma resposta ao apagamento trazido pelo minimalismo. Ronaldo Fraga e Lino Villaventura são alguns dos estilistas que incorporaram a estética maximalista em suas peças, assim como marcas como Meninos Rei. 

Desfile da marca Meninos Rei, com estampas coloridas, na São Paulo Fashion Week
A forte presença de elementos maximalistas no desfile da marca baiana Meninos Rei durante a São Paulo Fashion Week de 2025
[Imagem: Reprodução/ Instagram/ @meninosrei]

Se o minimalismo se projeta como um luxo silencioso, exclusivo e discreto, o maximalismo é sinônimo de barulho, orgulho e liberdade. A estética que tomou conta das lojas e do guarda-roupa popular celebra a diversidade de culturas e a autenticidade de quem se propõe a montar looks únicos e personalizados.

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