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‘Valor Sentimental’ explora como memórias e traumas moldam uma família

'Valor Sentimental' traz um retrato sensível da complexidade de relações familiares, marcadas por perdas e rachaduras
Por Heloisa Falaschi (heloisafalaschi@usp.br)

Estreia nesta quinta-feira (25) o filme vencedor do Grand Prix — segundo prêmio mais importante do Festival de Cannes —, Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, 2025). O longa é protagonizado por Renate Reinsve como Nora Borg e dirigido por Joachim Trier, ambos conhecidos por A Pior Pessoa do Mundo (Verdens verste menneske, 2021), indicado a duas categorias no Oscar de 2022.

Com ritmo lento e poético, Valor Sentimental se afasta de produções puramente comerciais e pode não ser palatável a todos os públicos. Entretanto, para quem se envolve com a obra, seja pela sensibilidade narrativa ou pela beleza estética, as duas horas passam de maneira fluída. Repleto de cenas que não utilizam de palavras para despertar sentimentos e sensações, o espectador é inserido às dores, desconfortos e similaridades dos personagens.

A comédia dramática se baseia na vida de uma família disfuncional. Ao evidenciar a difícil relação entre as irmãs Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) com seu pai, o cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgård), tece as embaraçosas relações entre pais e filhos, muitas vezes marcadas por ausências físicas e de comunicação.

Após a morte da mãe de suas filhas, Gustav volta à antiga casa da família. As irmãs, além de enfrentarem o luto, revivem as marcas negativas deixadas por seu pai. Ao longo da trama o espectador é introduzido a esse universo conturbado e nebuloso.

Gustav, assim como suas filhas, é marcado pela falta de uma família estável e presente [Imagem: Reprodução/TMDB]

Mas Valor Sentimental não apresenta uma narrativa traçada por vilões e heróis. De maneira sensível e madura a trama mostra que ações humanas, como erros, acertos e dificuldades enfrentadas, podem ter reflexos negativos a longo prazo. O roteiro aponta como a falta de diálogo pode ruir uma família.

O retorno de Gustav traz à tona outro drama: a produção de um filme na casa ocupada pelos Borg há gerações. A produção do cineasta se entrelaça em uma narrativa autobiográfica e ficcional, além de refletir sua tentativa de aproximação com as filhas, principalmente a primogênita. Nora compartilha o ofício artístico com o pai, mas caminha em uma vertente diferente e ganha a vida como atriz de teatro. 

Com o roteiro criado por Gustav pensado para Nora protagonizar o projeto, o cineasta capta as similaridades entre sua filha e sua mãe. No entanto, marcada pela ausência do pai, principalmente na falta de suporte psicológico após a perda de sua mãe, Nora rejeita o papel. Mesmo com o imprevisto, a excentricidade de Gustav o faz convidar Rachel Kemp (Elle Fanning), uma famosa atriz estadunidense para o papel, o que a insere no drama familiar.

 A personagem de Rachel é responsável por ajudar o espectador a entender de maneira mais sólida os principais conflitos da família. A atuação de Elle Fanning é essencial para a construção de uma personagem que, ao mesmo tempo que exala ser uma estrela, demonstra o amadurecimento e humildade de uma pessoa devota ao trabalho. 

Fatores como a maior valorização de Gustav ao trabalho do que à família implica no sentimento de abandono e solidão das filhas. A partir de sua relação com a atriz, é perceptível que o cineasta têm um lado doce e compreensivo, mas que escolheu devotar toda sua paixão ao trabalho.

A fusão da face dos personagens mais conflitantes da história, o pai e a primogênita, alimentam suas similaridades [Imagem: Reprodução/TMDB]

E assim como o pai, Nora parece dedicar toda sua vida ao trabalho como atriz. Apesar de admirar o pai como profissional, demonstra sede em se afastar da pessoa que ele é. A ironia se apresenta na excentricidade que ambos apresentam em sua entrega à vida profissional.

Valor Sentimental apresenta excelente direção de arte, figurinos indispensáveis e uma bela direção de fotografia, que auxilia na imersão do espectador ao universo dos personagens. Porém, o roteiro, atuação e direção se mostram como excepcionais para o estabelecimento de uma narrativa tão delicada e certeira como a de Valor Sentimental.

Ainda que o filme possa ser analisado como um retrato da “angústia milenial” — termo que se refere ao sentimento coletivo de ansiedade e dificuldade de equilibrar vida pessoal, financeira e profissional da geração que nasceu entre os anos 1981 e 1996 — a obra mira em um aspecto ainda mais profundo da sociedade que não se limita apenas à vivência de pessoas que enfrentam a meia idade hoje em dia.

Parte dos problemas enfrentados pela família foram iniciados com a tortura sofrida pela mãe de Gustav durante a Segunda Guerra Mundial. A dor nunca superada foi suprimida por anos e resultou em uma depressão profunda, a qual Gustav acompanhou de perto.

Assim como o pai usa o cinema para expressar sentimentos densos, Nora utiliza do teatro para equilibrar sua tristeza, revolta e solidão [Imagem: Reprodução/TMDB]

O sofrimento da mãe de Gustav levou a dificuldade de expressão de afeto por sua parte, o que refletiu em seu relacionamento frio com as filhas. O cineasta parece apenas conseguir aproximação com sua família através do trabalho que, por sua vez, funcionou como válvula de escape para suas emoções.

Para além de vivências humanas, a casa da família, localizada na Noruega, também ocupa local de protagonismo. Valor Sentimental relaciona aspectos físicos da casa com situações vividas naquele lugar.

A partir de descrições do local que ocorrem no decorrer do longa é possível entender que a ligação dos personagens que viveram no local os ajuda a lidar com as próprias dores e sentimentos. A personificação da casa e associação com traumas familiares mostra que, assim como os bens materiais, as memórias não são eternas e podem ser reconstruídas.

As rachaduras da casa, que existiam há muito tempo, representavam a relação fragmentada da família [Imagem: Reprodução/TMDB]

Enquanto isso, Agnes, irmã mais nova, caminha em contrapartida a seu pai e sua irmã e cria uma família saudável. Ao equilibrar sua vida de mãe, esposa e historiadora, a personagem assume o papel de harmonização na família e tenta apartar os conflitos vividos entre seu pai e irmã.

Parte de sua forma passiva de ver o mundo vem do apoio obtido por sua irmã na infância. Um dos diálogos mais marcantes no filme mostra Agnes reconhecendo o quanto Nora doou de si para proporcionar à irmã o apoio que não teve durante a infância.

Apesar de aparentar ser menos soturna que a irmã, Agnes também enfrenta seu próprio sofrimento pessoal. O luto pela perda da mãe e as dificuldades em não transmitir ao seu filho os traumas familiares que vivenciou esculpem as situações complexas que a personagem driblar com maestria. Sua doçura é apresentada no filme como um oásis entre o caos vivido pelos demais personagens, mas a camuflagem de suas dores não as apaga.

O retrato delicado da família dilacerada se torna revolucionário. Apesar de não apresentar ousadias cinematográficas, o ato de trazer à tona tamanha sutileza em detalhes, atuação e temática em uma ritmo que garante que o público absorva cada mensagem passada, deixa visível o traquejo de Joachim Trier em transformar as dores em um cenário belo e emocionante.

Mesmo como toque de humor,Valor Sentimental se torna dramático quando extraído da ficção por representar a realidade de famílias que por falta de diálogo recorrem ao abandono, onde poderia existir amor.

Valor Sentimental já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de Capa: Reprodução/KVIFF

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