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O que rolou no segundo dia do Pint Online
Horizonte de Eventos
14 maio 2020 | Por Victoria Borges (victoriarborges@usp.br)

Mesmo dentro de casa, a cerveja e a ciência ainda combinam. O Laboratório esteve presente no segundo dia do Pint of Science Online, através da transmissão ao vivo pelo Youtube, e conta um pouquinho do que aconteceu por lá. Confira a cobertura!

Saiba também o que rolou no primeiro dia do evento.

 

Pandemias ao longo da história: o que elas nos ensinam?

Foi falando um pouco sobre as principais pandemias da história que Ethel Maciel, professora associada da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisadora na área de Epidemiologia, abriu a primeira parte do evento. Em março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia da Covid-19 e, desde então, o termo vem sendo bastante discutido. Entretanto, essa não é a primeira vez que a humanidade precisa enfrentar a disseminação de uma doença a nível mundial. Algumas antigas pandemias tiveram índices de letalidade maiores que guerras e foram consideradas mais devastadoras que desastres naturais.

Luiz Almeida, diretor nacional do festival e a professora Ethel Maciel. Reprodução: Pint of Science.

Luiz Almeida, diretor nacional do festival e a professora Ethel Maciel. Reprodução: Pint of Science.

Ethel explicou brevemente sobre cada uma dessas doenças e a forma que elas se espalharam pelo mundo, bem como a impressionante quantidade de mortos que elas deixaram. Ela começou pela “praga de Atenas”, que ocorreu em 430 a.C., passando pela peste bubônica, cólera, tuberculose, varíola, gripe espanhola, tifo, sarampo e malária, até chegar à aids identificada em 1981 e, desde então, considerada uma epidemia. Em seguida, a professora apresentou algumas formas como essas pandemias foram, ao longo do tempo, retratadas no meio artístico. As obras, feitas numa tentativa de “imitar a vida”, delineavam as aflições e angústias de quem viveu na pele as mais severas epidemias. Em um dos quadros mostrados – “A Praga”, pintado por Arnold Bocklin em 1898 – a peste bubônica foi retratada como um demônio que arrasava toda a cidade.

Mas o que aprendemos com tudo isso? Ethel comentou que as pandemias trazem consequências sociais importantes e relacionou as mudanças no sistema às grandes taxas letalidade: “Talvez a maior transformação tenha sido a mudança da crença das pragas e pandemias como castigo divino para acreditarmos na ciência”. Ethel também relacionou o surgimento de novas doenças com as desigualdades sociais e explicou como a falta de cuidados sanitários básicos em alguns lugares pode se tornar um risco para todo o mundo. “A fronteira que precisamos estar realmente vigiando é a fronteira entre o mundo humano e o mundo dos microrganismos. Todas as vezes que essa fronteira foi rompida de alguma forma, ela dizimou muitos humanos”, alertou a epidemiologista.

Por último, a professora levantou o questionamento: como podemos mudar depois da Covid-19? Alertou sobre a importância do isolamento social – única forma de conter a doença enquanto ainda não existem vacinas ou medicamentos efetivos. Também falou que, semelhante à pandemia de gripe espanhola em 1918, é possível que vejamos ondas de contágio até essas vacinas ou medicamentos surgirem. Mas Ethel nos dá uma esperança em relação à guerra contra as epidemias: “Os agentes patogênicos só tem um recurso: as mutações. Nós contamos hoje com um arsenal, que a ciência nos possibilita. A gente tem uma vantagem, mas precisamos saber aproveitá-la”.

 

E agora, quem poderá nos defender?

Com o surgimento e a disseminação de novas doenças, os anseios e dúvidas sobre os mecanismos de imunização tornam-se ainda mais frequentes. Como funcionam as vacinas e os testes diagnósticos? Quais são os diferentes tipos existentes dessas tecnologias? E, principalmente, como as vacinas são desenvolvidas? Na segunda parte do evento, Felipe Naveca, Vice-Diretor de Pesquisa e Diretor substituto do Instituto Leônidas & Maria Deane/Fundação Oswaldo Cruz no Amazonas (ILDM/Fiocruz Amazônia), além de docente permanente de pós-graduação em Imunologia Básica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), respondeu a essas perguntas.

Luiz Almeida e o pesquisador Felipe Naveca. Reprodução: Pint of Science.

Luiz Almeida e o pesquisador Felipe Naveca. Reprodução: Pint of Science.

Felipe deu início à apresentação falando sobre os diferentes tipos de diagnóstico – o clínico, baseado na observação sintomas e dados epidemiológicos, e o laboratorial, que utiliza exames de imagem ou laboratoriais para indicar a detecção do causador da doença  ou de anticorpos no organismo. “Nem sempre é possível chegar a uma definição do que se trata aquela infecção somente baseado nos sinais, sintomas e nos dados epidemiológicos. Para isso, a gente utiliza o que chamamos de ‘diagnóstico laboratorial’. Assim, o médico tem mais uma certeza para fechar a análise”, complementou o virologista.

Em seguida, explicou as diferentes formas em que pode-se obter o diagnóstico laboratorial das viroses: o isolamento do vírus, a detecção de antígenos (substâncias que desencadeiam a produção de anticorpos), de ácidos nucleicos e de imunoglobulinas. Ressaltou ainda que não há definição de qual dos testes é o melhor: “Tudo vai depender do tempo de evolução daquele quadro”. 

Felipe também apresentou as diferentes classes de anticorpos que podem ser detectadas num diagnóstico – elas são capazes de mostrar se o contato com o vírus existiu ou foi recente – e, a partir disso, mostrou como se dá o mecanismo de funcionamento dos testes rápidos, bastante comentados nesse momento de pandemia da Covid-19, ressaltando o exame RT-PCR, que detecta o material genético do causador da doença. O virologista continuou explicando como as evoluções virais podem interferir nos testes diagnósticos, levando à detecção de “falsos-negativos”,indicando que existe a presença do vírus, mas que por algum motivo – nesse caso, as mutações – ele não foi mais reconhecido pelos insumos.

Seguindo a apresentação, Felipe mostrou como é feito o desenvolvimento de vacinas contra vírus e deu exemplos das diferentes estratégias utilizadas. “Cada uma é melhor em uma situação. As indústrias farmacêuticas hoje trabalham utilizando essas diferentes abordagens”, completou. O biólogo continuou salientando a importância da proteção das vacinas, relacionada ao fenômeno da “imunidade de rebanho”. “Num cenário onde há a imunização, com a vacina em uso, o vírus não consegue passar livremente porque uma parcela da população não irá se infectar. Com um grande número de pessoas imunizadas teremos uma redução drástica do número de casos graves e fatais”, explicou. No caso da Covid-19, ressaltou ainda a importância do isolamento social. 

Por fim, o virologista mostrou o que vem sendo feito em relação ao combate do novo coronavírus e finalizou falando sobre o experimento extremamente arriscado de Edward Jenner para o desenvolvimento da primeira vacina – a da varíola. Jenner inoculou amostras do vírus numa criança, que apresentou uma forma mais branda da infecção, e depois a expôs à forma selvagem do vírus. Felizmente, o experimento deu certo, mas Felipe afirma que, nos dias de hoje, estratégias assim seriam inconcebíveis. “Arriscar inocular primeiro a Varíola bovina para depois desafiar com a Varíola humana seria uma coisa totalmente impensável hoje em dia. […] Existem diversas fases para a produção de uma vacina até chegar num número grande de seres humanos e ele fez isso direto em uma criança”, enfatizou.

O segundo dia do evento está disponível no canal ‘Pint of Science Brazil’ e pode ser acessado por meio deste link.

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