Por Eduardo José (edujs0207sp@usp.br)
O hip-hop chegou ao Brasil em meados da década de 80, inspirado nos movimentos culturais norte americanos. Desde então, o rap, grafite, poesia e o breaking dance tomaram as ruas de São Paulo e trouxeram identidade à juventude da época. Para além do cenário da capital, a cultura se encontra também no interior de São Paulo, onde as barreiras para a arte de rua sobreviver encontram desafios únicos.
Campos do Jordão é uma cidade do interior do estado de São Paulo, próxima a divisa com Minas Gerais, muitas vezes apelidada de “Suíça brasileira” pelas suas baixas temperaturas e arquitetura característica europeia. O município é o berço da Batalha da Montanha (BDM), projeto cultural que promove atividades como saraus de poesia, oficinas de grafite e de dança.
A Suíça inventada
Os altos preços de hospedagem e consumo no Capivari — centro turístico da cidade — exigem padrão elevado de renda das famílias que a visitam. Boinas, casacos de pele e sobretudos almofadados são artigos comuns de serem vistos durante a temporada de inverno. Mas a fartura exibida pelos turistas contrasta com o padrão de vida dos trabalhadores e moradores de Campos do Jordão.

O Capivari, principal área turística, e os hotéis luxuosos do município se encontram em lugares afastados do centro comercial, o bairro Abernéssia. É ao redor desse centro que se encontram as áreas periféricas e de baixa renda da cidade, onde vivem também grande parte dos trabalhadores que se deslocam diariamente ao centro turístico. Moradores alegam sobre a grande presença de jovens e, até mesmo, menores de idade em trabalhos informais.
“Quando você tem o tempo para fazer o que ama, está totalmente gasto depois de um dia de trabalho CLT. No tempo livre você quer descansar, mas também de que correr atrás do seu sonho”
Gabriel Vasconcelos
É neste cenário que surgiu, em meados de 2016, um movimento da juventude periférica jordanense. Ao redor da pista de skate da cidade, jovens se reuniam para torneios de rimas e poesia. Com o passar do tempo, o movimento se expandiu por Campos do Jordão e levou consigo arte, resistência, luta e senso de pertencimento aos jovens da periferia. O movimento ficou conhecido como a ‘Batalha da Montanha’.
A batalha mais alta do Brasil

Hoje, os eventos da BDM ocorrem mensalmente e têm sido cada vez mais profissionalizados no quesito técnico e de logística. Em entrevista à Jornalismo Júnior, MC Rastro, pseudônimo de MC Rastro 012 conta que o projeto é uma das batalhas mais antigas do Vale do Paraíba, e o nível de profissionalização acaba influenciando outras batalhas: “A batalha tem uma estrutura melhor de som e filmagem, cronograma organizado, mídia social, contratação de artistas, negociação de patrocínio e etc.”.

Para além do valor cultural, a BDM tem papel social transformador. Ao atrair a faixa etária dos 15 aos 20 anos, o projeto está na “fonte onde a pessoa está se conhecendo, desenvolvendo caráter, conhecendo seu corpo, criando laços, conhecendo pessoas”, conforme contou Rastro. A ação social vai além do acolhimento. Através dos eventos, o MC relata que já arrecadaram alimentos em campanhas e agasalhos durante o inverno “A Batalha da Montanha não age para benefício próprio, mas sim por uma razão social”, destaca.
A relação com o poder público
No início, os eventos eram marcados em espaços públicos da cidade e atraíam dezenas de pessoas. Nessa época, conflitos com a polícia e desacordos com poder público eram frequentes. Com o crescimento da BDM, em 2023, a prefeitura lançou um projeto de lei “reconhecendo o hip-hop como movimento oficial de arte e cultura urbana do município”. Posteriormente, a secretaria de educação passou a integrar membros do movimento em atividades de extensão em escolas, com oficinas e workshops.

Apesar da anterior relação conturbada da BDM com a prefeitura de Campos do Jordão, Rastro conta que com o tempo foi possível estabelecer um contato mais significativo para realização de atividades em locais públicos. “Foi mais uma insistência nossa do que ajuda deles. A gente insistiu tanto que foi impossível não ajudar”.
“Passamos a ficar presentes em votações de projetos na câmara e em todo lugar. Quando passamos a aparecer na prefeitura, começamos a ‘morder um pedaço do bolo’. Com a cena [do hip-hop] sempre nesses espaços, chega uma hora que não dá mais pra ignorar.”
MC Rastro 012
A batalha de rima consiste em duelos entre rappers que improvisam versos no ritmo de um beat — instrumental que é improvisado durante as batalhas de rap freestyle. O vencedor do round é determinado pela agitação da plateia que cerca os dois (ou mais) competidores. Aquele que conseguir mais apelo, vence. A partir disso, é possível criar torneios de premiações diversas com eventos transmitidos via livestream na internet, por exemplo. Foi em um desses torneios que o MC Rastro 012 conseguiu a produção de seu primeiro EP, Blindado (2020).
Rastro de vivências
Rastro é o pseudônimo por trás de Leonardo Alcântara, de 26 anos. Atualmente, é gerente de vendas em uma loja de artigos para skatistas da cidade e concilia o emprego com seu trabalho artístico. “Costumo dizer que sou um produtor musical. Trago e produzo vários eventos aqui pra cidade”, afirmou.

O artista alega que foi morador do bairro Monte Carlo, na periferia de Campos do Jordão. O contato com o hip-hop vem da infância: “Começou dentro de casa, pelo meu irmão mais velho”. Racionais MC’s e a rádio Espaço Rap foram as principais referências deste período e que moldaram o modo de vida de Leonardo. Mencionou que a escola também teve papel central no desenvolvimento da escrita de versos e poemas. “Aos 16, comecei a participar da Batalha da Montanha”, contou.
“Freestyle é como um esporte. Tem que treinar, se aperfeiçoar”
Rastro 012
Como produtor cultural, Leonardo ajuda outros artistas locais a ganharem seu espaço. Um dos projetos futuros dele conseguiu ser beneficiado com o subsídio do edital Audir Blanc da secretaria de cultura do estado. A ideia é produzir um álbum musical só com artistas independentes, para expressar a realidade de quem mora em Campos do Jordão, com inclusão de mulheres e artistas LGBTQIAPN+. À princípio, o nome do projeto seráa “Mãetiqueira” – trocadilho com “Serra da Mantiqueira”, segundo o artista.
Outro projeto do MC é fazer oficinas de rimas em bairros periféricos e levar formas de expressão do hip-hop, como música, dança, poesia e grafite. O objetivo é ampliar a representatividade cultural do jovem jordanense. “A gente quer acolher esses jovens de forma gratuita. Vai ser um dos maiores projetos que já fiz”, afirmou.
Produção musical no interior

Braia Beats é o nome artístico de Gabriel Augusto Cambraia Ribeiro, também morador de Campos do Jordão e um dos organizadores da BDM. É DJ, produtor musical, assinando diversos projetos nacionais e internacionais com outros artistas, como no EP CERBERUS, lançado pela gravadora Parlophone Portugal. Presente desde o início da cena hip-hop na cidade, Braia construiu seu legado local e está focado na produção de música eletrônica Psy Trance — subgênero psicodélico popular nos anos 80.
O DJ relata que agitar a cena em Campos do Jordão tem seus obstáculos: “Como é uma cidade reconhecida pelo turismo, as pessoas nem imaginam que exista rap aqui”. Estabelecer contatos na capital, em outras regiões do Brasil e do mundo foi uma barreira superada por Braia. “O mais difícil foi furar a bolha”, concluiu.
“Aqui não tem loja para comprar equipamentos de áudio, ou para manutenção. Não tem muito público e são poucos artistas se comparados à São Paulo”
Gabriel Vasconcelo
Além de Braia, outro artista local que contribuí para a produção musical é Gabriel Vasconcelos. Gabriel já performou nos palcos sob o pseudônimo de Blvck 012, mas decidiu interromper o trabalho solo para focar na engenharia de mixagem. Mesmo aos 20 anos de idade, já foi responsável pela gravação e mixagem de outros artistas locais, como Sagaz Mc —hoje conhecido como Azaf—, Lya — no mixtape de “IT´S LYA”—, OG Real D —mixtape de “Melhor parte de mim”—, e outros.

Sobre seu papel dentro da cena jordanense, Gabriel enfatiza que “O pico é a Batalha da Montanha. De lá vem muitos artistas com o sonho de produzir o próprio som”. O engenheiro de mixagem conseguiu montar um estúdio de gravação para receber essas pessoas, gravar e mixar as vivências que elas querem dizer através da música.
Gabriel também teve um trabalho em parceria com o trapper norte americano YoungoJeezus. Ele relatou que, muitas vezes, artistas estrangeiros buscam mercados periféricos de mixagem devido à diferença de precificação — principalmente no Sul global, onde a mão de obra é menor do que em países do norte. O cenário brasileiro, ainda que ascendente, não tem ainda o mesmo nível de estrutura técnica do cenário dos Estados Unidos, berço do hip-hop.
Outra barreira comum aos artistas de Campos do Jordão, é conciliar a arte com o trabalho no setor turístico da cidade. Gabriel, por exemplo, relata “exaustão” em dividir o tempo com seu trabalho formal no ramo de hotelaria. “Meu sonho é poder viver da mixagem”, comentou.
Grafite na Montanha
O grafite é uma vertente dentro do hip-hop estabelecido como arte visual. Em Campos do Jordão, Paulo Albuquerque, professor de 37 anos, expande a cultura periférica para além dos olhares locais. Suas pinturas podem ser vistas por moradores e turistas, estampadas em grandes murais, escolas e portões ao redor da cidade. Oriundo da periferia do município, Paulo é peça fundamental para a ocupação da cultura periférica nos espaços em que o acesso é dificultado para moradores de periferia, como teatros e museus de arte erudita.

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Paulo conta que o grafite vai além da pintura: “É um estilo de vida, o material que se usa, o local que se pinta, se representa a quebrada”. Ele explica que trabalha com “pintura corporativa” — encomendadas de empresas ou mesmo da prefeitura — mas também com o grafite. O artista diferencia: “Grafite é o que se faz na rua”.
“Grafite não é definido só pela estética do produto final. É toda a caminhada e vivência até chegar naquilo.”
Paulo Albuquerque
Paulo é jordanense, morador da comunidade da Vila Santo Antônio. O interesse artístico surgiu na infância, quando, através de revistas de rap e skate, ele conheceu o grafite e se sentiu representado. “Era um estilo de arte que combinava com o meio em que eu vivia”, comentou.
O artista conta que demorou até encontrar sua identidade no meio. Inspirado em artistas brasileiros, Paulo busca representar na sua arte a cultura regional. “É também uma pintura informativa. Das cores até o produto final, são elementos da região”, contou. Características de fauna e flora, como a tradicional Tiriva, ave característica da cidade, pode ser notada em alguns de seus trabalhos.

Não demorou muito para que o trabalho de Paulo fosse reconhecido pela prefeitura de Campos do Jordão. A secretaria de educação local encomendou que o artista pintasse murais de várias escolas públicas. A ideia inicial era que fossem murais com elementos da vida escolar, mas o pintor aproveitou o espaço para promover educação e cultura.
Entretantoele enfatiza que o estado poderia incentivar mais ao alegar que “os trabalhos não têm continuidade”.Os projetos da prefeitura duram por um período e depois o artista fica sem um trabalho estável. Existe também uma problemática na identidade do município. Apesar de ser turístico, os produtos culturais comercializados são geralmente de outros lugares, como . “A pessoa vem visitar a cidade, vai embora e não vai levar nada daqui”, comentou.
“A principal resistência dos artistas daqui é ser reconhecido como profissional e poder ter continuidade naquilo que fazemos.”
Paulo Albuquerque
O grafite e o picho são formas de arte periférica que simbolizam resistência. Paulo explica, entre várias outras diferenças, que se identifica mais com a pichação, por ter origem brasileira, diferente do grafite de Nova York. Ambas, no entanto, são maneiras de a periferia ocupar territórios elitizados.
Em um dos eventos da Batalha da Montanha junto com Paulo Albuquerque e outros artistas, a proposta foi fazer uma oficina com várias artes no Museu Felícia Leirner, importante ponto turístico de Campos do Jordão. Uma chamada de divulgação nas redes sociais dizia: “A cultura de rua invade o museu”.

O uso de termos como “invasão”, nesse contexto, não se referem necessariamente ao desacordo com a lei. A oficina do museu, por exemplo, foi um evento planejado com os órgãos responsáveis junto ao poder público. Esses termos, na verdade, servem para representar a ocupação de atividades e lugares pensados para as elites, por parte do povo periférico.
Se durante o dia eles trabalham para o conforto das elites que visitam Campos do Jordão, à noite é hora de assinar os espaços com os nomes de quem a cidade realmente pertence, por meio do hip-hop e da vivência jordanense.






