Por Eduardo José (edujs0207sp@usp.br)
A série de quadrinhos Absolute Batman, publicada pela DC Comics desde 2024, apresenta uma nova abordagem do personagem ao modificar sua origem e contexto social. Escrita por Scott Snyder e ilustrada por Nick Dragotta, a obra tem atraído novos leitores e resgatado fãs experientes. Segundo o The Hollywood Reporter, a publicação alcança cerca de 300 mil cópias vendidas por mês nos Estados Unidos.
Absolute DC, ou Absolute Universe — Universo Absoluto em tradução direta —, é uma linha editorial que não se restringe ao Batman. Ícones como Mulher-Maravilha, Superman, Lanterna Verde e Flash também possuem suas séries individuais, lideradas por diferentes artistas. Todas essas publicações têm características em comum: são versões descritas pelos fãs como cruas, brutais, críticas e sem os recursos tradicionais que serviram como base da tradição daquele herói. Batman, em sua versão absoluta, por exemplo, não vem de família rica. É, na verdade, um operário de origem proletária, longe da realidade endinheirada da família Wayne.
Neste universo, Bruce Wayne é filho de Thomas, um professor do ensino fundamental, e Martha, uma assistente social do serviço público. A vida de Bruce se transforma drasticamente na infância, com o assassinato de seu pai em um passeio ao zoológico de Gotham. Apesar das diferenças com a origem tradicional, essa versão mantém traços essenciais do personagem, tal como a morte do pai. Para o pesquisador e autor Alexandre Linck do canal no Youtube Quadrinhos na Sarjeta, “desde o começo, Bruce Wayne é mostrado como o cara do proletariado, mas que é excepcional. Ele tem um físico extremamente invejável, é um homem grande e forte. Se não é do ponto de vista de posses, mas do ponto de vista natural, ele é especial.”
Além do jeito excêntrico, Linck afirma que esse Batman mantém seu caráter ligado à aristocracia das histórias tradicionais, marcado pela necessidade de se distinguir dos demais. “Não é qualquer um, ele é distinto. Mesmo sendo mais pobre aqui, ele é mostrado como uma figura genial”. O pesquisador conclui dizendo que esse homem morcego também não mata — assim como nas histórias convencionais — para se distinguir dos outros. “Batman absoluto ainda é um aristocrata”, afirma.
“Uma história que eu sempre quis fazer é: e se o Batman, em vez de fazer parte do sistema e ter os recursos que Bruce Wayne tem, viesse de uma origem de classe trabalhadora?”
Scott Snyder
As polêmicas de Scott Snyder
Scott Snyder buscou subverter elementos do cânone, para uma abordagem atual. Bruce, ao invés de ser herdeiro, trabalha como um operário na construção civil e vive com a mãe, que está viva neste universo.
Nessa história, Alfred – o famoso mordomo das histórias originais – é um mercenário britânico, e identidades atribuídas a grandes vilões, como Edward Nigma (Charada), Cobblepot (Pinguim), Harvey Dent (Duas-Caras) e Waylon Jones (Crocodilo), aqui, são amigos de infância de Bruce Wayne. O Coringa, principal antagonista de Batman, é um milionário, ao contrário da Terra Zero — termo usado para se referir ao universo tradicional da DC Comics nos quadrinhos.
Não foi a primeira vez que o autor incrementou o universo de super-heróis na DC. Já veterano da indústria, Scott tem histórico de sucesso no âmbito de vendas, ainda que provoque polêmicas na comunidade.
Fábio da Luz é colecionador e criador de conteúdo especializado em Batman, através do canal no YouTube Caverna do Morcego. Em entrevista à Jornalismo Júnior, destacou que a importância do autor, desde sua fase com o Batman nos Novos 52 (Panini, 2012 – 2016). — linha editorial que buscava reiniciar a cronologia dos personagens da DC, em 2011.
“Ele fez uma fase bem popular nos Novos 52, que chamou a atenção na época. É uma fase muito marcante. Eu particularmente tenho alguns problemas aqui e acolá mas não acho que a fase é ruim”. Fábio ainda afirma que Snyder tem problemas em concluir as suas histórias de maneira satisfatória. O colecionador justifica que essa inconsistência típica, em seu início de trabalho com a DC, se deve pela pressão: “O roteirista disse que tinha muito receio de escrever o Batman, que não estava muito preparado. Ele acabou abraçando a ideia de Grant Morrison — importante roteirista do personagem nos anos dois mil — de que ele não tem que pensar no que outros autores fizeram. Ele tem que fazer o Batman dele!”
Fábio acredita que Snyder se tornou mais experiente e que sente menos a pressão de lidar com o personagem nessa nova fase. “Absolute Batman é uma evolução muito benéfica do que foi o trabalho do roteirista com o passar do tempo”, concluiu.

Scott Snyder ganhou respeito logo em seu primeiro trabalho na DC ao assumir a revista Detective Comics em 2010, meses antes do reboot da marca em 2011 com Os Novos 52. Já nesta nova fase, o autor recebeu a tarefa de assumir a nova revista principal do Batman, onde emplacou histórias de sucesso, como A Corte das Corujas (Panini, 2014), Morte da Família (Panini, 2016) e Ano Zero (Panini, 2016).
Em 2017, Snyder foi responsável pela liderança de uma mega-saga que reuniu os títulos mais importantes da DC, como Noite de Trevas: Metal (Panini, 2018). Também assumiu o título principal da Liga da Justiça (Panini, 2018) no ano seguinte.
Estes dois últimos trabalhos tornaram a relação dos fãs com o autor desgastada. Comentários frequentes em fóruns online reclamavam da saturação do autor, com críticas à finalizações questionáveis de arcos, novos personagens sem profundidade e balões de diálogos excessivamente longos.
Em 2020, Snyder decidiu focar em trabalhos de quadrinhos independentes, fora da DC Comics, mas retornou em 2024 com uma aposta certeira da editora no mercado: a ideia da linha Absolute.
A aposta absoluta
Em entrevista ao portal de notícias da DC, antes do lançamento da linha Absolute, Snyder destrinchou sobre seus objetivos com a saga: “Queremos que o desafio para os criadores que entram nesse universo seja realmente olhar para o herói e pensar: ‘Como posso tornar esse herói mais aquilo que ele é?’. Para ele, escrever um Batman vivendo no mundo atual, com os problemas atuais, poderia render boas histórias.
O autor propôs a ideia da linha à DC, sem ter certeza de que trabalharia efetivamente com alguma revista, como aconteceu com o título do Batman. O personagem foi importante porque, em suas palavras, se tornou o exemplo de como uma obra poderia ser feita. “Eu usei [o título] para apresentar o universo Absoluto a outros criadores.”, concluiu.
“E se ele surgisse em um mundo como o de hoje, onde a riqueza é ainda mais desigual? Onde os bilionários hereditários são frequentemente as pessoas que parecem antagonistas para o resto de nós? Foi assim que eu apresentei o universo Absolute”
Scott Snyder
Sucesso absoluto
Quando estreou em 2024, Absolute Batman #1 foi a edição de quadrinhos mais comprada do ano, com quase 400.000 cópias vendidas nas primeiras seis semanas de lançamento. Com o passar dos meses, a série dominou as listas de vendas mensais e conquistou o primeiro lugar mais vezes do que qualquer outra série. Dados divulgados pelo The Hollywood Reporter estimam que a linha de quadrinhos mensais do Universo Absolute vendeu mais de 8,2 milhões de unidades no total ao longo de 2025 — sem incluir dezembro de 2025.
No Brasil, a revista está sendo publicada pela Panini Comics, bimestralmente, desde setembro de 2025. Até abril de 2026, foram lançadas 4 edições. Cada edição brasileira contempla duas das edições originais, ou seja, a primeira edição brasileira é equivalente as duas primeiras edições originais. As três primeiras revistas que foram comercializadas no Brasil já contemplam o primeiro arco da história, chamado Zoológico, elas são correspondentes às edições originais de Absolute Batman #1 à #6. O arco introduz o leitor a este novo universo e estabelece suas regras, bem como busca explicar a origem deste novo Batman.

[Reprodução/Reddit/@_shx1ro_]
Para além das subversões narrativas, Fábio da Luz explica que o sucesso da revista se deve por se tratar de uma história de origem:“Começar do zero ajuda a atrair um público que, às vezes, não quer entrar no mundo dos super heróis por causa da cronologia.” Ele ainda conclui dizendo que a linha do tempo assusta novos leitores mais do que deveria.
Os desenhos de Nick Dragotta também são destaque ao se aproximar do traço de Mangás — HQs japonesas. “Os mangás são uma febre muito forte. Quando você traz essas influências pro próprio Batman, isso acaba influenciando muito no sucesso”, pontua Fábio.
Gabriel Fernandéz, gestor de marketing e criador de conteúdo, é leitor assíduo do gênero e fã do universo Absolute. Em depoimento à Jornalismo Júnior, aponta que a inversão de valores da história é o maior atrativo aos novos leitores: “Quando você pega uma das características mais marcantes do personagem, o fato de ser bilionário, e simplesmente remove isso, você cria uma curiosidade imediata. Como ele se sustenta? Como ele luta? Como ele se mantém relevante sem aquilo que sempre foi uma muleta narrativa? ”.
“É uma releitura que não só reimagina, mas desafia diretamente o que a gente espera e isso, por si só, já é um baita atrativo.”
Gabriel Fernandéz
O legado para o gênero
O gênero de super-heróis não se restringe aos quadrinhos. No cinema, esses filmes tiveram seu auge com o título Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019) que arrecadou mais de 2 bilhões de dólares de bilheteria, em 2019. Passado alguns anos, em 2025, o filme Superman foi o único representante do gênero na lista de 10 maiores bilheterias, com a marca de pouco mais de 600 milhões de dólares, segundo o UOL.
A queda massiva de público se aplica ao cinema como um todo, devido aos impactos da pandemia do Covid-19, e a popularidade das plataformas de streaming. O fato não impede o forte debate nas redes sociais sobre a possível decadência dos super-heróis na cultura pop.
Ao ser questionado sobre tal assunto, Scott Snyder afirmou em entrevistas que não vê o gênero de super-heróis em decadência, mas sim em constante transformação. Para a ilustradora Ananda Ramos, existe um crescimento no público leitor de quadrinhos Geek. “Existe um número prevalente de leitores do público masculino, mas o crescimento vem de leitoras femininas e da comunidade LGBTQIAPN+”, afirma em depoimento à Jornalismo Júnior.
Ananda menciona que os quadrinhos sempre tiveram público feminino, mas o gênero de super-heróis tem ganhado força nos últimos anos: “Conforme esses personagens foram adaptados para outras mídias, a atenção do público se voltou ao gibis. Tanto que certas HQs dos anos 80 já tinham determinadas sensibilidades adaptadas para uma experiência feminina dentro do gênero — tanto Watchmen quanto a fase da Mulher Maravilha do George Perez.” Pesquisas da Geek Power de 2019 confirmam que existe um aumento considerável no público feminino da cultura pop.
O público LGBTQIAPN+ também tem forte relação com o universo Geek e principalmente com Batman. Muitos artistas da comunidade Queer já trabalharam com o personagem, sendo o mais notável, Grant Morrison — pessoa não-binária que foi roteirista de títulos do Batman entre 2006 e 2013. O Canal no Youtube Sociocrônica também traz, de uma perspectiva sociológica, a forte relação entre o personagem, no filme Batman Eternamente (Schumacher, 1995), e a comunidade LGBTQIAPN+.
“O Batman é basicamente uma drag queen. Ele veste um figurino todas as noites, uma grande roupa de couro com máscara, e sai”
Grant Morrison
Críticas sociais explícitas
A origem adaptada de Batman ao universo absoluto permite a exploração de temas sociais pelo roteirista. Contudo, diferentemente da sutileza convencional dos quadrinhos de super-heróis quanto às críticas sociais, Absolute Batman agrega um teor enfático ao contrastar com os limites morais tradicionais do personagem.
Em Absolute Batman Annual #1, história que se passa antes da revista Absolute principal, o autor Daniel Warren Johnson polemizou ao fazer o personagem ultrapassar sua principal regra moral. Na HQ, Batman, em início de carreira, enfrenta uma seita de supremacistas brancos responsáveis por ataques a moradores de rua. O homem morcego não poupa recursos para combater os criminosos e usa força letal que leva muitos deles à óbito.

O episódio se tornou polêmico porque Batman, tradicionalmente, tem uma regra moral de não matar pessoas. O dogma também é reaproveitado por Scott Snyder na revista principal do Batman Absoluto e, por isso, a atitude do personagem causou confusão entre os leitores.
Na narrativa, um membro da seita racista, clama por misericórdia da brutalidade do morcego e argumenta que são humanos. Batman responde que “não são humanos, são baratas” e justifica a letalidade dos inimigos.
Jonhson aproveitou o caráter disruptivo da linha editorial absoluta e buscou tecer em sua trama uma história do Batman que levantasse discussões acerca dos extremismos. Mesmo dizendo ser discreto com seus posicionamentos, o autor viu uma oportunidade de se expressar: “Com algo assim [Batman], eu senti fortemente que tinha que fazer”.
Um de seus desenhos promocionais do quadrinho mostra Batman mobilizando um agente do ICE. Sobre isso, o autor alegou em uma entrevista que não acredita em violência, mas que a desenhar é uma “forma de se conectar com outras pessoas que estão passando pela mesma coisa”.
Apesar dos desenhos que explicitam o teor dessa revista, Johnson buscou escrever uma narrativa profunda, com personagens que contrapõem a violência do morcego. Para ele, as discussões ali tratadas não são simples, mas debates complexos e vigentes nos dias atuais.
“Eu preciso de mais do que um ponto de exclamação para dar clímax às minhas histórias. Eu preciso de uma pergunta.”
Daniel Warren Johnson
