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Césio-137: o drama que nunca acabou

À luz do lançamento da série Emergência Radioativa na Netflix, o maior acidente radiológico do mundo volta à memória nacional com novos dilemas morais e efeitos radioativos que não se esvaem com o tempo
Césio-137 foi descartado incorretamente
Por Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)

Em 1987, a cidade de Goiânia foi vítima de descaso ambiental. Por consequência do descarte inadequado de uma máquina radioterápica que continha césio-137, houve uma exposição à radiação a uma grande parcela de seus moradores.

O césio-137 é um isótopo radioativo do césio, elemento químico que pode ser encontrado na tabela periódica (Cs) e que é classificado como um metal alcalino. Essa forma do elemento se espalhou rapidamente pela cidade, devido à sua forma em pó e à sua curiosa cor azul brilhante. Tais características instigaram os goianos a compartilharem pequenas amostras com seus familiares e vizinhos, sem saber que a radiação contida naquelas porções levaria à maior tragédia envolvendo radiação fora de uma usina nuclear.

Decorridos 39 anos desde o acidente, a memória – que deveria ser preservada e repercutida em âmbito nacional – foi se esvaindo aos poucos. Políticas de esquecimento tinham como finalidade a desresponsabilização de culpados e foram instrumentalizadas desde o primeiro dia após a descoberta da tragédia, quando o governo segurou informações para não causar alarde. Segundo a antropóloga e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Suzane Vieira,  “existe uma recusa e negação insistente de não trazer esses episódios para a história oficial, responsabilidade, sobretudo, da equipe de gestão municipal e estatal da época que mantiveram isso contido por conta de um grande evento que ocorria na cidade.”

Apesar das constantes tentativas de conter a propagação de informações sobre o ocorrido, a reencenação do episódio na série Emergência Radioativa (2026) trouxe à tona o acidente. Além disso, a produção audiovisual levantou indagações acerca da mercantilização do trágico como forma de entretenimento; a maneira que ela corrobora para a preservação da memória e compensação das vítimas; e qual o limite para explorar a dor dos goianos para esse fim.

Registro de jornal no contexto do acidente com césio-137
Anúncio oficial do aniversário de 54 anos de Goiânia em 1987. As autoridades tentaram usar a festa para acalmar a população após o acidente do césio-137 [Imagem: Imprensa do Governo de Goiás/Wikimedia Commons]

Setembro de 1987

No final de 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia abandonou sua sede até aquele momento para mudar de endereço e deixou para trás uma máquina que continha césio-137 encapsulado para proteção da sua alta radioatividade prejudicial aos seres humanos. A máquina era utilizada no tratamento de pacientes com câncer. Dado o perigo da amostra, o descarte deveria ter sido informado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para que a instituição tomasse as devidas providências. Todavia, isso não aconteceu.

Em 10 de setembro de 1987, dois catadores de lixo, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, encontraram essa máquina abandonada e a levaram até um ferro-velho, com o objetivo de vender o material que acreditavam ser apenas de uma cápsula de chumbo. Devair Ferreira, dono do estabelecimento, comprou o aparelho, o desmontou e encontrou o fascinante pó azul brilhante.

Cápsula que guardava césio-137
A cápsula de chumbo que foi encontrada ao relento no Instituto Goiano de Radioterapia [Imagem: Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)/Wikimedia Commons]

A ameaça invisível da radiação passou pelas mãos de Devair, sua família, seus vizinhos, seus amigos, e todos se impressionaram com o brilho daquela substância. O encontro, porém, teve consequências.

Ao notar que seus conhecidos começaram a apresentar problemas de saúde após terem contato com a cápsula encontrada,  Maria Gabriela Ferreira, esposa do dono do ferro-velho, pegou um ônibus em direção à Vigilância Sanitária. Ela carregava o cilindro que continha o césio-137 e, sem saber, contribuiu com o espalhamento da radiação por outros pontos da cidade. Todavia, foi a decisão dela que permitiu a adoção de medidas para a contenção da radiação. Ao chegar nas mãos da vigilância, surgiu a suspeita que os sintomas mencionados pela mulher poderiam estar associados a irradiação do material que estava dentro da cápsula.

A partir desse momento, o físico Walter Mendes Ferreira foi acionado. Sua atuação se inicia com estratégias de remediação da situação, com o isolamento dos pontos por onde a substância teria passado e com o encaminhamento das pessoas que tiveram contato com ela para tratamento apropriado. Conforme informações do Governo de Goiás, na época, de 112,8 mil pessoas examinadas, 249 apresentaram contaminação pelo isótopo. Dessas, 129 necessitavam de acompanhamento médico permanente e 4 vítimas morreram de Síndrome Aguda da Radiação (SAR) nas primeiras semanas após a  descoberta – dentre elas, Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, que ingeriu o pó.

Hoje, segundo o Governo de Goiânia, 3500 m3 de lixo radioativo advindos da tragédia se encontram em Abadia de Goiás, município localizado a 23 km de Goiânia, onde foram enterrados e concretados.

Memória social e o papel da mídia

Entre ruas que um dia mantiveram vivas as memórias das vítimas do acidente e ruínas dos lugares onde um dia elas viveram, o episódio com césio-137 esvaece com o decorrer do anos. 

O acontecimento é pouco repercutido entre as novas gerações, que não têm uma memória viva do que aconteceu nas ruas que, atualmente, se chamam: D. Francisca da Costa Cunha (Tita) e Paulo Henrique de Andrade, e que, respectivamente, são as antigas ruas 26 A e 57 A.

O nome das ruas foi alterado devido a um esforço do governo em ressignificar a lembrança do acidente aos goianos, uma vez que nesses lugares ficavam o ferro-velho de Devair e o marco zero do acidente – local em que a cápsula de césio-137 começou a ser desmontada. Para Suzane Vieira, antropóloga e autora do livro Drama Azul (Cânone Editorial, 2014), “existe uma guerra de símbolos e um enfrentamento de signos em relação à organização dessa experiência trágica. E, nessas disputas, a narrativa oficial que é empreendida pelos governos municipais, estaduais e do Estado, pelo alcance temporal do evento, atua para apagar essas referências.”

Ruas onde moraram vítimas do acidente com césio-137
À esquerda, antiga rua 57 A; à direita, antiga rua 26 A, em 2010 [Imagem: Adelano Lázaro /Wikimedia Commons]

O Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados (CARA), em Goiânia, também teve seu nome alterado, apesar de estar diretamente ligado ao acidente. O departamento que auxilia os danos radioativos da população era chamado de ‘Superintendência Leide das Neves Ferreira’, em homenagem à menina de 6 anos morta pela radiação semanas após ingerir a substância, símbolo do acidente e memória imantada do que se passou.

A antiga Santa Casa de Misericórdia, que faz parte do complexo clínico de onde foi retirada a cápsula de chumbo, foi demolida e não há identificação do que ocorreu naquele local. Pelo contrário, hoje o espaço abriga o Centro de Convenções de Goiânia, construído de forma a revitalizar o quarteirão e contribuir para o esquecimento da tragédia.

“Foi uma maneira de criar algo por cima da ruína. A gente não mantém ativo o poder reflexivo da memória, que é material. Você passa pelos lotes onde as famílias que foram altamente contaminadas moravam e é um vazio ali, um lugar onde nada mais pode ser construído.”
Suzane Vieira, antropóloga e professora da UFG

O papel da mídia nesse processo foi político, afirma Vieira.  A antropóloga conta que a primeira notícia divulgada em jornal pedia pela evacuação total da cidade. Esse registro demonstra a perplexidade da população e da mídia e a indeterminação sobre  o que acontecia, de fato, em Goiânia. Após essa publicação, houveram tentativas de conter a dimensão real do acontecimento, o que se tratava de uma construção de narrativa que nem sempre é segura. Além disso, constata como os jornalistas mantiveram – e mantém – a memória viva do acidente desde aquela época até os dias atuais, o que multiplica as possibilidades de registro e documentação do acontecimento, e evita que o episódio caia no esquecimento tão desejado da gestão municipal.

No que tange à série Emergência Radioativa, a dramatização do acidente com fins de entretenimento corrobora a criação de uma memória idealizada do que aconteceu, efetivamente, em 1987. “A série relata tudo como se tivesse acontecido no mesmo dia. Se tivesse sido assim, teria sido um triunfo da ciência brasileira. Além disso, a série salva a barra da CNEN, pois retrata como se eles tivessem pleno controle e assumissem inteiramente a responsabilidade, mas ela também é parte dos processos judiciais de responsabilização e incriminação”, diz Vieira.

Os elementos audiovisuais, utilizados de forma a tornar um enredo complexo em um produto de entretenimento, entram em conflito com a moralidade de se representar não personagens puramente fictícios, mas sim pessoas que viveram os acontecimentos, estão vivas até os dias atuais e ainda sofrem com as consequências da radiação. Em entrevista ao G1, Lourdes da Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves, afirma: “Sempre mexe um pouco com a gente, com a nossa saúde, o nosso psicológico. A gente revive tudo.”

Vítima do acidente com césio-137
Leide das Neves morreu cerca de um mês após ingerir a substância por Síndrome Aguda da Radiação (SAR)  [Imagem: IAEA Imagebank /Wikimedia Commons]

O acidente com césio-137 gerou milhares de vítimas que necessitam de acompanhamento no CARA e que recebem compensação do governo Estadual e Federal, que se dividem para indenizar a população pelos danos radioativos. Tais compensações financeiras, muitas vezes, são insuficientes para os afetados viverem com dignidade e arcarem com os remédios de uso vitalício para tratamento dos efeitos da radiação no corpo humano.

Os efeitos da radiação

Mão pós acidente com césio-137
Mão após contato com césio-137 [Imagem: Reprodução/ Secretaria de Estado de Saúde de Goiás]

Segundo Emerson Itikawa, professor do Instituto de Física (IF) da Universidade Federal de Goiás (UFG), o elemento césio-137 emite alta radioatividade (cerca de 1375 Curie, por meio da irradiação de partículas beta e gama. As partículas beta, no caso do césio, tratam-se de elétrons; já a gama se trata de uma onda de radiação eletromagnética, que não possui matéria. Ambas as partículas são capazes de interagir no organismo à nível molecular nas células, seja essa interação direta ou indiretamente com o DNA.

No caso do césio, o físico pontua que “a taxa de emissão dessas radiações foi tão alta para os envolvidos, que a manifestação dessas interações tornou-se sistêmica [deixou de estar restrita a apenas um local ou órgão e passou a afetar o organismo como um todo] , em órgãos e sistemas do corpo humano”. Ademais, são feitas considerações acerca de possíveis mutações que afetarão as gerações de descendentes dos indivíduos contaminados pela substância, visto que células germinativas expostas à radiação podem transmitir à prole  uma aberração cromossômica.

Itikawa também diferencia irradiação de contaminação. Enquanto uma pessoa irradiada deixa de correr riscos ao se afastar da fonte de radiação, a contaminação ocorre quando há contato direto com o material radioativo, seja pela pele, inalação ou ingestão. No acidente de Goiânia, o césio-137 estava na forma de um pó altamente solúvel e facilmente disperso no ar, o que favoreceu sua rápida propagação.

“Não acredito que a lacuna no acidente de 87 tenha sido no âmbito da proteção radiológica. O que houve foi um problema comum na rotina de qualquer processo: comunicação, ou a falta dela. Um equipamento como esse, do acidente, não deveria ficar ao relento, em um terreno abandonado.”
Emerson Nobuyuki Itikawa, professor do IF-UFG

Mesmo após quase 40 anos do acidente, monitorar a área ainda é  necessário. Isso porque o césio-137 apresenta atividade radioativa residual, já que sua meia-vida, período necessário para que a radioatividade caia pela metade, é de cerca de 30 anos.

*A capa desta matéria usa imagens editadas do Wikimedia Commons, por Ycaro Gouveia, e do Magnific, por YuliiaKa e por tohamina

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