Por Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)
A 28ª Bienal do Livro de São Paulo se encerrou neste domingo (13), depois de 10 dias de evento. A conferência reuniu grandes marcas e nomes da literatura, além de várias comunidades de leitores. O último dia teve ingressos esgotados e reuniu um público variado, com opiniões diversas.
Entre os destaques da data, estavam autores nacionais e internacionais, como Socorro Acioli e Mercedes Ron. A Jornalismo Júnior conversou com visitantes e expositores para entender suas experiências e opiniões sobre o evento.
Nas avenidas, telas e fones
Socorro Acioli, autora de Cabeça de Santo (Companhia das Letras, 2014), e Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado (Editora Todavia, 2019), estiveram presentes na Arena Cultural para discutir a adaptação de seus livros em sambas-enredo no próximo carnaval. A conversa, chamada de Esse livro dá samba: quando a literatura entra na avenida, foi mediada por Valéria Almeida, jornalista da Rede Globo. Acioli terá sua obra adaptada pela escola Unidos da Tijuca e Vieira, pela Vila Isabel.

Os escritores falaram sobre a surpresa de serem convidados e admitiram saber pouco sobre o carnaval. Eles explicam que têm poucas sugestões para fazer em suas adaptações: “o que posso fazer com a história [que criei] é torná-la literatura”, disse Itamar. Ambos afirmaram que estão animados e que aprendem muito com o contato com o público e com a produção.
“Parece que eu só escrevi esse livro pra isso. Não existe reconhecimento maior”
Socorro Aciolli
As adaptações da obra da inglesa Agatha Christie também foram pauta, na conversa Agatha Christie para ler, ouvir e assistir: Como a Rainha do Crime continua conquistando leitores, ouvintes e plateias 50 anos após sua morte. A palestra contou com os atores Thomás Aquino e Ícaro, que narraram a versão em audiolivro de Os Crimes ABC, Charles Moeller, diretor da versão teatral de A Ratoeira, e Vera Carvalho Assumpção, autora de suspenses que se inspira em Christie. Os palestrantes discutiram como a obra da autora pode ser mantida atual e relevante para o contexto brasileiro.

Já as escritoras Ray Tavares e Mercedes Ron discutiram as próprias adaptações, na palestra Luz, câmera…adaptação! Como um livro se transforma em filme ou série?. Mercedes tem três livros adaptados em filmes, da série cinematográfica Culpa Minha (2023-2025), no Prime Video. Já Tavares terá seu livro Os 12 signos de Valentina (Record, 2017) transformado em série pela Netflix, e tem experiência na área por ter sido roteirista do filme 15 Dias (2026), adaptação do livro de mesmo nome.
“A adaptação é uma tradução”
Ray Tavares
Preferências e Tendências
A variedade de títulos e temas literários disponíveis foi um ponto positivo indicado pela maioria dos visitantes entrevistados.

Beatriz, que se interessa pelo gênero dark romance, explica que encontrou versões físicas de livros que costumam ser apenas digitais: “pra mim faz toda a diferença. Gosto de poder tocar os livros, levar eles para casa e até colecionar”. A visitante, que veio em outros três dias, contou que voltou no domingo para a sessão de autógrafos da estadunidense SenLinYu, autora de Alchemised (Intrínseca, 2025).
Já Porto, que se interessa por histórias em quadrinhos (HQs), afirmou que a edição serviu melhor a esse público do que outras: “acho que perceberam que tinha bastante público para histórias de RPG e HQs, por isso trouxeram mais”. Durante o evento, ativações como a palestra Chico Barney e convidados conversam sobre 40 anos de Batman: O Cavaleiro das Trevas, deram destaque às histórias em quadrinho. No início da conversa, Ivan Costa, cofundador da CCXP, falou sobre o esforço pioneiro da edição em dar palco a quadrinistas e atender aos seus fãs.

Para as amigas Nicolle, Isabelle e Victoria, que estavam vestidas de personagens da franquia de jogos Five Nights at Freddy’s, a convenção é um espaço de encontro e convivência entre fãs. “São poucos os eventos que podemos nos vestir desse jeito, e é divertido”, disse Victoria. Nicolle conta que várias pessoas pedem fotos e que muitas amizades são formadas em momentos assim.
Milena, que usava uma camiseta dos livros de Percy Jackson, também seguiu outra tendência da Bienal: os chamados patinhos literários. Vários visitantes usaram presilhas com pequenos patos pendurados nelas, e a leitora explicou que comprou a decoração para seguir o resto do público.

O que fica da edição
Sobre a organização da conferência, a opinião geral foi mista. A grande maioria dos entrevistados concordou que o evento estava cheio, e que a quantidade de pessoas chegou a atrapalhar suas visitas: “tem muitas filas, e pessoas demais”, disse Marina. Para Victoria, parte da razão do excesso de pessoas é a permissão de membros do Sesc entrarem gratuitamente, sem ingressos: “não dá pra se ter noção de quantas pessoas entram a mais. Não sei como poderiam controlar isso”.

Outra reclamação foi a disposição dos estandes: “as editoras maiores estão muito juntas, e atraem muitas pessoas. Por ali, não dá para passar”, explicou Isabelle. As editoras Alt, Rocco e Record, que reúnem grande público e livros conhecidos nas redes sociais, estavam localizadas na mesma esquina, o que levou a uma concentração alta de visitantes. “Não dava para saber onde uma fila começava e a outra terminava”, disse Gustavo.
Os preços também dividiram opiniões. Para Fernanda e Isabelle, os valores não compensavam as filas e o preço do ingresso do evento. Já Sophia, que procurava edições específicas, teve suas expectativas atendidas: “vim atrás de livros de capa dura em inglês e, para mim, estão muito baratos”.

Já para outros, o aproveitamento depende dos próprios visitantes. Renan conta que tinha objetivos claros e que, assim que entrou, procurou direto as editoras em que estava interessado: “já pegamos a fila que tínhamos que pegar, agora vamos curtir o resto”. Ele admite que o evento tinha longas esperas e estava lotado, mas afirma: “com um pouquinho de paciência, dá para aproveitar”.
Roberta, que já veio em várias edições, comentou que, apesar de cheia, a visita é tranquila. Ela ressaltou sessões de autógrafos e painéis interativos com atividades que chamaram sua atenção, especialmente por atraírem o público mais jovem. A visitante explicou que veio à Bienal para mostrar às duas filhas, de 10 e 15 anos, a “grandiosidade do evento”.
‘Foi surreal‘

As autoras Geórgia P. S. e Iara Braga concordaram sobre sua experiência no evento: “Foi surreal”. Ambas estavam com o estande Crush Literário, divulgando seus livros de romance através de interações com o público e sessões de autógrafo. Geórgia, que estava em sua primeira edição como escritora, contou que se sentiu reconhecida ao encontrar seus leitores.
“O contato com quem nos conhece, que nos lê e gosta da gente supera qualquer problema do evento”
Iara Braga
Já Ana Júlia, que trabalhou no atendimento aos visitantes durante todos os dias na Editora Fruto Proibido, relata uma experiência cansativa, ainda que positiva. “Está sendo muito agitado, mas o público do meu estande é muito educado”, ela contou. A atendente afirmou que o movimento em sua editora, que oferece livros adultos, se tornou mais tranquilo assim que passaram a exigir o RG dos visitantes e permitir a entrada apenas de maiores de idade.
A Fruto Proibido protagonizou uma polêmica no evento quando um homem vestido do personagem Ghostface interagiu com visitantes de forma íntima em seu estande. Em um pronunciamento oficial, a marca, que foi notificada pelo ocorrido, declarou não ter contratado o homem, Ana Júlia explicou não poder comentar sobre o assunto, por não representar a editora.
O artista Hiro Kawahara, que também foi entrevistado pela Jornalismo Júnior no primeiro dia de Bienal, conta que este foi o maior evento que já participou: “superou minhas expectativas”. Ele conta que acreditava que o espaço dos artistas não seria amplamente divulgado ou frequentado, mas que teve bom proveito, com o seu estoque de produtos esgotado duas vezes. Essa edição ofereceu a Alameda dos Artistas, local em que ilustradores e cartunistas vendem seus trabalhos, pela primeira vez, e Hiro já se programa para as próximas.

*Imagem de capa: Nina M Bozic/ Acervo Pessoal
