Por Estela Bughay (estelabhupalo@usp.br)
Dados do Sistema Único de Saúde mostram que o número de internações por infarto entre pessoas jovens aumentou de 2010 a 2025. Das 74.694 internações registradas em 2010, 2.996 foram de pessoas com até 39 anos. Já em 2025, o número mais que dobrou, com 6.606 internações em um total de 199.819. Mesmo que o percentual de jovens entre as pessoas hospitalizadas por infarto em relação ao total de internações tenha diminuído (4,01% em 2010 contra 3,31% em 2025), a quantidade de ocorrências chama a atenção.
De acordo com o Ministério da Saúde, o infarto do miocárdio é a maior causa de morte no Brasil. Ele ocorre devido a uma parada súbita do sangue que circula pelo coração, que sem oxigênio e nutrientes trazidos pelo sangue, começa a sofrer danos, podendo levar a pessoa ao óbito. É comumente causado pela obstrução das artérias, mas também está associado a traumas que afetam a circulação do sangue e à formação de coágulos. Genética, tabagismo e sedentarismo foram alguns dos fatores de risco levantados por especialistas entrevistados pelo Laboratório.
Fatores de risco para a população geral
De acordo com o Professor Doutor Emilton Lima Júnior, professor de cardiologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a aterosclerose, ou seja, a formação de gordura nos vasos sanguíneos, começa a partir da infância e vai aumentando ao longo do tempo, o que torna a idade um dos principais fatores de risco para o infarto. Além disso, a doença aterosclerótica é poligênica e ocorre devido a diversas predisposições estabelecidas pela genética, outro importante fator.
Depois da genética, o professor Lima apontou o sedentarismo como um grande problema para a saúde cardiovascular. Para ele, a atividade física ajuda a prevenir doenças associadas à formação de placas de gordura, como a hipertensão e a dislipidemia. “Se você faz atividade física, você tem colesterol mais baixo, tem pressão arterial mais baixa, tem glicose mais baixa, tem peso mais baixo, tem menos estresse”, afirma. O sedentarismo, portanto, contribui para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, e pode aumentar os riscos do infarto.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada por semana, mas Lima ressaltou que qualquer movimento já traz benefícios. “É muito importante e muito benéfico qualquer tipo de atividade física, isso se soma ao longo do dia, da semana, do mês, da vida. A gente vai ganhando minutos de vida, dias de vida, semanas de vida, meses de vida.”

[Imagem: Reprodução / Pexels]
Fatores de risco entre os jovens
Ao lado do sedentarismo, o tabagismo também pode estar associado ao infarto entre jovens, fator apontado tanto por Lima quanto pelo nutricionista Luciano Pedro da Silva Junior, em entrevista ao Laboratório. Isso porque o consumo do tabaco contribui para a formação de placas de gordura nas artérias, além de aumentar a frequência cardíaca e reduzir a quantidade de oxigênio que circula pelo sangue.
Silva explica que, em comparação com gerações mais velhas, o consumo de cigarros entre jovens diminuiu, devido a políticas públicas contra o tabagismo que foram bem-sucedidas. Porém, o uso de cigarros eletrônicos, proibidos no Brasil, aumentou entre adolescentes nos últimos anos. De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de adolescentes de 13 a 17 anos que experimentaram cigarros eletrônicos subiu de 16,8%, em 2019, para 29,6%, em 2024.

[Imagem: Reprodução / Wikimedia Commons]
O consumo de alimentos ultraprocessados também pode estar associado ao risco de doenças cardiovasculares. De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, alimentos ultraprocessados são aqueles formulados industrialmente, com adição excessiva de açúcar, gordura vegetal hidrogenada, sódio, corantes e aromatizantes, que normalmente buscam tornar o produto mais atraente e duradouro. A Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE em 2017 e 2018, mostrou que os adolescentes são os principais consumidores de ultraprocessados.
Para além do consumo desses alimentos, Silva alerta para o perigo do padrão alimentar ultraprocessado, ou seja, a substituição de alimentos saudáveis e ricos em nutrientes, como os in natura, por ultraprocessados, pois isso contribui para problemas na saúde. “Esses alimentos [ultraprocessados] têm um desequilíbrio nutricional. Maior proporção de sódio, gordura saturada, gordura interesterificada e baixa presença de fibras, de vitaminas, minerais, de flavonóides, e de polifenóis. O combo é um padrão alimentar que aumenta o risco de doenças cardiovasculares”, afirma.

[Imagem: Reprodução / Pexels]
Lima aponta o uso de anabolizantes como outro fator que pode estar associado ao infarto de pessoas mais jovens. De 2019 até 2026, a venda desses produtos cresceu 700%, o que preocupa o cardiologista, pois os anabolizantes aumentam a chance de formação de coágulos na circulação e demandam muito mais energia dos órgãos, o que favorece a ocorrência de ataques cardíacos.
Desde 2023, a prescrição de esteroides anabolizantes com finalidade estética ou ganho de performance está proibida pelo Conselho Federal de Medicina, mas a aquisição de formas ilegais continua. Atletas de fisiculturismo e praticantes de musculação são os principais consumidores, normalmente motivados por questões estéticas. Além do infarto, depressão, agressividade, hipertensão, AVC e doenças no fígado estão entre as consequências do uso dessas substâncias.
Formas de prevenção
“Durma bem, coma bem, faça exercício. E tenha amigos, seja feliz”, aconselha o professor Lima. A afirmação é bem-humorada, mas traz hábitos relacionados com a prevenção de infartos: alimentação saudável, atividade física e sono regulado. De acordo com ele, “a vida é estressante por definição inicial” e dormir entre sete a dez horas por dia, previne doenças causadas pelo estresse das situações cotidianas.
Para Silva, políticas públicas que orientem o consumo adequado de alimentos são fundamentais para prevenir doenças cardiovasculares. Um exemplo a ser seguido é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), voltado para estudantes da educação básica de escolas públicas e que oferece alimentação saudável no ambiente escolar. Incentivar a atividade física e a redução do tabagismo e do consumo de bebidas alcoólicas é igualmente importante.
Além disso, a atenção durante o diagnóstico é fundamental. Em relatos que circulam em redes sociais, jovens contam ter sofrido infartos que, inicialmente, foram diagnosticados como ansiedade, principalmente pela semelhança entre alguns sintomas e à idade dos pacientes. Um dos exemplos é Isabelle Meraio, que recebeu o diagnóstico de ansiedade durante o atendimento que recebeu após ter infartado aos 19 anos de idade. “O médico olhou para mim e disse ‘Essa menina aqui, nova desse jeito? Isso é crise de ansiedade, pode ir para casa’”, relata em vídeo para o TikTok.
Isabelle tem diabetes tipo 1 e histórico de infartos na família, e já apresentava sintomas como cansaço excessivo e falta de ar antes de infartar. Quando questionado sobre o tema, Lima afirmou que prestar atenção em todos os fatores de risco é importante. “A característica da apresentação do infarto vem mudando ao longo desses últimos anos”, comenta.
De acordo com ele, o infarto não se manifesta somente de sua forma mais clássica: dor no peito que irradia para o braço esquerdo e falta de ar, mas sim de diversas formas, o que exige atenção dos profissionais. “A manifestação clássica é a dor no peito […]. Mas também pode ser uma coisa completamente diferente, como uma dor de estômago, uma sensação de mal-estar, uma tontura. Isso pode ser menos frequente, mas tem sido mais frequente do que era antigamente”, afirma. No caso de apresentação de sintomas, procurar atendimento é essencial. Um dos canais possíveis é o SAMU, pelo número 192.








