Jornalismo Júnior

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Há 25 anos, Serena e Venus Williams faziam história na final do US Open

Com 19 e 21 anos, as atletas, que já somavam quatro títulos de Grand Slam, protagonizaram a primeira final entre irmãs em 117 anos de torneio

Por Cecilia Barros (ceciliaabarros@usp.br), Júlia Berlim (juliaberlim@usp.br) e Vitoria Mendes (vitoria_luisalmendes@usp.br) williams

Na noite de sábado, 08 de setembro de 2001, as irmãs Serena e Venus Williams disputaram a final do US Open, um dos quatro eventos que compõem o Grand Slam de tênis. A partida ocorreu no Complexo de Flushing Meadows, no distrito do Queens em Nova York (EUA), e reuniu aproximadamente 23 mil pessoas. Enquanto isso, a audiência da CBS, que transmitia o jogo, ultrapassou 22 milhões de pessoas, o que contribuiu para a construção da atmosfera de uma final inédita.

A partida entrou para a história por três principais motivos: além de ser a primeira final feminina do US Open transmitida na televisão em horário nobre, foi também a primeira decisão de um Grand Slam entre duas mulheres negras e a primeira disputada entre irmãs na Era Aberta — quando os torneios de Grand Slam deixaram de ser amadores e passaram a permitir a participação de profissionais. Para além disso, foi um evento histórico para a família Williams em si: tratou-se da primeira vez em que Venus e Serena se enfrentaram em uma final de Grand Slam.

Irmãs Williams juntas dentro de quadra na infância

As irmãs ganharam 14 títulos de Grand Slam em duplas e nunca perderam uma final de Major jogando juntas [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Uma partida para se lembrar 

Quase quatro anos antes da final histórica, em 21 de janeiro de 1998, as irmãs se enfrentaram pela primeira vez em um Grand Slam. O confronto ocorreu na Quadra Central, hoje conhecida como Rod Laver Arena, na segunda rodada do Aberto da Austrália. Foi o primeiro Grand Slam de Serena, aos 16 anos. Já Venus, aos 17, vinha de uma recente conquista de marca pessoal após chegar a sua primeira final de Grand Slam na categoria simples, no US Open de 1997.

Nessa partida, a mãe delas, Brandy, optou por sentar-se em um canto neutro da arena, mais preocupada com o relacionamento entre as filhas do que com o resultado. O primeiro set foi para o tie-break, um pequeno novo jogo de desempate disputado quando o placar de um set chega a 6 a 6, e Serena largou na frente, mas Venus assumiu a liderança graças a um erro de backhand da caçula das Williams, e venceu por 7 a 4. 

“O que vocês viram hoje é definitivamente algo para se observar no futuro”

Serena Williams durante coletiva de imprensa após perder para a irmã em 1998

A primeira vez em que as irmãs se enfrentaram em uma final desse porte aconteceu sob os holofotes do US Open, em 2001, três anos depois da estreia de Serena nos circuitos de Grand Slam. A partida teve duração de apenas 69 minutos, com vitória de Venus por 2 sets a 0 e parciais de 6 a 2 e 6 a 4. Com o resultado, Venus conquistou seu segundo título consecutivo do torneio americano. Após a disputa, a atleta demonstrou contentamento pela vitória, mas frustração por ter sido contra sua irmã caçula. “Caso eu fosse a irmã mais nova, talvez eu me sentisse mais contente”, declarou. 

No total, as irmãs Williams se enfrentaram 31 vezes nos 20 anos seguintes, inclusive em nove finais de torneios do Grand Slam. Dessas, Serena venceu sete e Venus, duas. Ao todo, Serena possui 23 títulos de Grand Slam na categoria simples e é considerada a segunda mulher com mais títulos na história, atrás somente de Margaret Court com 24; enquanto isso, Vênus possui 7.  

Em entrevista ao Arquibancada, Felipe Priante, jornalista do Tênis Brasil formado pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que, embora a competição fraterna seja uma questão complicada, ambas são atletas de altíssimo nível, o que faz com que lidem com os confrontos de maneira mais madura. “Elas possuem, talvez, uma visão mais desprendida. Não totalmente, mas elas focam muito mais no resultado. Acho que, durante o jogo, o fato de serem irmãs fica em segundo plano”, afirma. 

A final como palco de rupturas 

A importância da disputa de 2001 ultrapassa o resultado esportivo. Até os dias de hoje, a final entre as Williams é vista como símbolo de representação, ruptura e mudança cultural. Isso não por ter colocado duas irmãs frente a frente, mas, segundo Priante, porque “permitiu que duas mulheres negras ocupassem, simultaneamente, o lugar de protagonistas em um dos palcos mais tradicionais do tênis mundial”. 

O tênis é historicamente um esporte caro, devido à exigência do equipamento adequado, da manutenção das quadras e da disponibilidade de tempo para treinar intensivamente para ser minimamente bom no esporte [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O tênis profissional, principalmente nos Estados Unidos, sempre carregou uma forte associação ao público branco e de maior poder aquisitivo. Nesse contexto, a presença de Venus e Serena em uma final de Grand Slam já era extremamente significativa. Elas não estavam apenas participando do torneio: eram as melhores jogadoras da edição e estavam disputando pelo maior título diante de uma audiência global. 

O confronto marcou uma quebra da tradição histórica, motivada pelo fenômeno de audiência das irmãs Williams. Pela primeira vez, a final feminina não seria “espremida” na tarde de sábado entre as duas semifinais masculinas — que encerravam a temporada aos domingos. A partida ganhou uma sessão às 20h na TV norte-americana, atraiu mais de 22 milhões de espectadores e superou até mesmo o tradicional futebol americano na audiência.

“Se tinha duas mulheres fantásticas, com um grande potencial, e isso poderia ser aproveitado. A onda das irmãs Williams foi surfada nos Estados Unidos, no tênis americano como um todo” 

Felipe Priante

Segundo o jornalista, o tênis feminino norte-americano ganhou uma projeção maior, porque o masculino teve mais dificuldades para se desenvolver. Devido à ambição americana pela conquista de títulos, as federações passaram a ser motivadas a abrir espaço para as mulheres na modalidade, e a iniciativa trouxe um bom retorno. “Serena acumulou conquistas, não só pelo número de títulos, mas por seu posicionamento”, conclui Priante. “Ela está para o tênis feminino como Jordan está para o basquete. As Williams enfileiraram títulos e abriram espaço para que outras garotas pudessem fazer o mesmo.”

Ao vencer adversárias e conquistar seus lugares dentro de quadra, as irmãs Williams demonstraram a possibilidade de alcançar grandes feitos  sem precisar se encaixar no estereótipo tradicional do esporte. Elas trouxeram a público uma combinação incomum para a época: mulheres negras, fortes fisicamente, intensas no estilo de jogo, confiantes e pouco dispostas a se adaptarem aos estereótipos de feminilidade. 

Irmãs Williams juntas em quadra com raquetes de tênis em mãos

As irmãs construíram uma parceria forte, e até hoje, são a única dupla da história a vencer três medalhas de ouro olímpicas em duplas femininas [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Posteriormente, Serena Williams passou a ser reconhecida não apenas como uma das maiores tenistas da história, mas também como uma atleta que contribuiu para a alteração de discursos sobre raça, gênero, corpo e poder no esporte. 

“Conforme fui envelhecendo, passei a me sentir diferente a respeito [do meu corpo]. Poder é beleza. Força é beleza. Agora, na quadra, eu quero que as pessoas pensem que sou poderosa”

Serena Williams, em entrevista à Vogue   

Embora as irmãs tenham sido responsáveis pela abertura de novas oportunidades, dificuldades estruturais ainda restringem a participação no esporte. Em 2026, jogadores como Jessica Pegula e Frances Tiafoe ainda fazem críticas a questões relacionadas à diversidade, e especialmente às barreiras financeiras que impedem o acesso de jovens ao tênis. 

Trajetória pessoal e profissional das Williams

Venus e Serena Williams cresceram em Compton, na Califórnia, bairro marcado por altos índices de criminalidade e distante do universo tradicional do tênis norte-americano. A formação como tenistas surgiu por treinos incentivados pelo pai das duas, Richard Williams, que traçou, antes mesmo do nascimento das filhas, um plano para ambas chegarem ao topo do esporte. Em 1991, com Serena e Venus ainda crianças, a família se mudou da Califórnia para a Flórida. Sob regras rígidas, as irmãs mantiveram a rotina de treinos — então conduzidas sob o comando do técnico Rick Macci — juntamente a suas respectivas formações acadêmicas. 

Foi dessa base que se formou a carreira de Venus Williams, a mais velha das irmãs e a primeira a despontar no circuito profissional. Em 1997, ainda adolescente, Venus chegou a sua primeira final de Grand Slam no US Open e, ao longo da carreira, somou sete títulos de simples em torneios de Grand Slam. Além dos troféus, Venus se tornou uma das principais vozes na luta por igualdade de premiação entre homens e mulheres, bandeira que ajudou a mudar as regras do esporte e beneficiou gerações seguintes de tenistas. 

Venus Williams segurando uma raquete e uma bola de tênis dentro de quadra

Venus Williams foi diagnosticada com a síndrome de Sjögren em 2011, o que a afastou das quadras por 6 meses para ajustes de tratamento [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

Em entrevista ao Arquibancada, Sheila Vieira, mestre em Ética e Integridade no Esporte pela Universidade Católica de Lovaina e graduada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), comenta que a tenista foi responsável por pressionar os organizadores de Wimbledon após vencer o torneio por anos seguidos, até obter paridade em relação à premiação masculina. “O tênis é um dos pouquíssimos esportes em que as mulheres ganham igual aos homens nos principais eventos”, aponta. “Não é à toa que, se você pegar a lista das dez atletas femininas mais bem pagas do mundo, oito são tenistas. E essa é a realidade há muitos anos”.

Serena, a caçula, superou a irmã em números e se tornou uma das maiores tenistas da história. Venceu seu primeiro Grand Slam no US Open de 1999 e, ao longo da carreira, chegou a 23 títulos de simples, além de 14 títulos conquistados ao lado de Venus nas duplas. A tenista permaneceu mais de 300 semanas como número um no ranking mundial da Associação do Tênis Feminino (WTA, na sigla em inglês), que elenca as pontuações acumuladas e o desempenho das jogadoras em torneios ao longo do período. 

Além disso, Serena somou quatro medalhas de ouro olímpicas, uma trajetória que a coloca atrás apenas de Novak Djokovic e Margaret Court na lista de maiores campeões do Grand Slam de todos os tempos.  

Irmãs Williams como inspiração 

A importância que as irmãs Williams representam para o universo do tênis se estende para além das quadras e dos títulos que ambas já conquistaram ao longo da carreira. Serena e Venus são figuras que modificaram os padrões de um esporte tradicionalmente branco, elitizado e com olhos majoritariamente voltados à categoria masculina. 

Especialistas do próprio circuito profissional apontam que o efeito dessa ruptura é duradouro: segundo Martin Blackman, que foi gerente-geral de desenvolvimento de jogadores da Associação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, na sigla em inglês) e jogador de tênis profissional, a presença das duas em finais de torneios de grande porte gerou o que ele chama de “efeito demonstração” — o impacto de meninas negras verem outras meninas negras disputando os palcos mais importantes do esporte. 

Esse efeito é hoje mensurável: a nova geração de tenistas americanas negras costuma apontar as irmãs Williams como referência direta de que era possível chegar ao topo do esporte vindo de fora do circuito tradicional. “Depois das Irmãs Williams, várias mulheres negras surgiram no tênis americano com ótimos resultados”, comenta Felipe Priante. “Isso eu acho fundamental, sensacional e importante. Há pelo menos três exemplos que ganharam o Grand Slam: Sloane Stephens, Madison Keys e a Coco Gauff.”

Vieira reforça a relevância das irmãs para a reafirmação racial e de gênero no universo do tênis. “As irmãs Williams fizeram com que meninas negras se sentissem capazes de ocupar esses espaços. Porque é isso: se você não vê alguém parecido com você, como vai cogitar a possibilidade de chegar lá?”, reflete. 

Uma das vozes mais ativas em relação à representatividade das irmãs para sua própria carreira é a de Naomi Osaka — vencedora de 4 Grand Slams e uma das principais personalidades do tênis profissional atual. Em 2022, ela declarou à BBC Sports: “Ela [Serena] mudou tanto o tênis. Ela introduziu pessoas ao tênis que nunca sequer tinham ouvido falar desse esporte, e eu acho que sou um produto do que ela tem feito. Eu não estaria aqui se não fosse ela, Venus e toda a família”.

Vozes e atitudes de enfrentamento

A trajetória das irmãs também não foi isenta de episódios que expuseram o racismo dentro do próprio esporte. Ainda em 2001, meses antes da final histórica do US Open, Serena e Venus foram alvo de ofensas racistas por parte de parte do público durante o torneio de Indian Wells, na Califórnia — episódio que levou as duas a boicotarem a competição por mais de uma década, até o retorno em 2015. 

Ao longo de suas carreiras, ambas se tornaram vozes ativas em pautas que vão além da quadra, associando-se publicamente a discussões sobre equidade de gênero — como a diferença histórica de premiação entre homens e mulheres no tênis — e representatividade racial no esporte de alto rendimento. 

Esse enfrentamento também se expande para a forma como as irmãs se apresentavam em jogo, com estilos de cabelos que carregavam simbologias culturais e auto-afirmação. Em março de 2026, em uma das coletivas de imprensa do torneio BNP Paribas Open, a tenista Coco Gauff lembrou que, quando era mais nova, adorava ver as irmãs Williams jogarem com miçangas, tranças ou cabelo crespo natural. “Eu sempre dizia que queria estar nesse formato só para mostrar às meninas, especialmente às meninas negras com cabelo natural, que elas podem competir como as melhores e ainda exibir esses estilos”, declarou. 

Serena e Venus Williams sorrindo com cabelos decorados com miçangas

Serena e Venus Williams apostavam em diferentes estilos de cabelo nas partidas. Um dos mais icônicos e simbólicos eram os penteados com miçangas (no inglês, beads) [Imagem: Reprodução/Instagram/@montreality]

Questões territoriais: o quanto influenciam?

Ao ser questionado se a representatividade das irmãs Williams poderia ser considerada mundialmente nivelada, Priante alega: “Elas foram importantíssimas para a divulgação do tênis feminino no panorama mundial e ajudaram outras meninas a acreditar que também poderiam chegar lá”. “Mas a questão do local também influencia: fica muito mais fácil para meninas norte-americanas sonharem com isso do que meninas de qualquer outro lugar do mundo.”, completa.

Para o entrevistado, o espelhamento nacional é essencial para que a juventude se inspire e tenha perspectiva de sucesso no esporte. Ele pontua que, para o Brasil, é muito importante ter uma figura como a tenista profissional Bia Haddad. “A Bia é um exemplo brasileiro para as meninas que estão começando, porque ela já chegou lá”, declara.

Priante adiciona que isso também vale para atrair audiência e, consequentemente, investimentos nos atletas. “Quando você tem sucesso em alguma modalidade, você atrai. Hoje em dia, por exemplo, temos a Bia Haddad e o João Fonseca no tênis, que atraem mais gente para ver”. O jornalista afirma que, fora o futebol — que no Brasil já é muito consolidado —, o número de espectadores e investidores dos outros esportes varia muito de acordo com a quantidade de grandes nomes no país e a nível mundial.

O retorno de Serena Williams às quadras 

Serena havia se despedido das quadras em 2022, ocasião em que evitou a palavra “aposentadoria” e disse apenas estar evoluindo para outras fases da vida. Ao longo de 2025, negou publicamente qualquer plano de retorno às competições, e em redes sociais, rebateu rumores sobre uma possível volta. O cenário mudou em junho de 2026, quando a tenista confirmou o retorno ao circuito profissional após quatro anos de ausência.

A nova estreia ocorreu no WTA 500 de Queen’s Club, em Londres, na chave de duplas ao lado da canadense Victoria Mboko. Questionada em coletiva de imprensa sobre o motivo da volta, respondeu sentir falta do ambiente que o esporte proporciona. “O que mais senti falta foi da atmosfera de um torneio. Vivi isso a vida toda e, quando você para, acaba não dando mais valor. Agora estou tentando vivenciar isso de uma forma diferente”. 

Antes da estreia em Londres, Serena e Venus já haviam recebido um convite especial para disputar as duplas em Wimbledon, mas precisaram desistir em razão de uma lesão no joelho de Serena. O reencontro das irmãs em quadra só se concretizou em agosto de 2026, no Cincinnati Open — a primeira vez em que jogaram juntas desde o US Open de 2022 —, em uma derrota diante da dupla Marta Kostyuk e Peyton Stearns. Ainda assim, o episódio manteve viva a expectativa dos fãs de vê-las novamente lado a lado no US Open deste ano. 

*A capa desta matéria usa uma imagem editada do Wikimedia Commons por emmett anderson

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