Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)
O segundo dia do Festival piauí de Jornalismo aconteceu neste domingo (6), em São Paulo, e contou com a participação de Pérsio Arida, escritor, político e economista brasileiro. Em seu artigo, intitulado de “Rakudianai”, Arida relembra seus dilemas como um jovem paulistano de classe média ao tentar participar do combate à ditadura militar brasileira. Durante o evento, ele compartilhou os bastidores da produção do artigo, falou sobre suas experiências e refletiu sobre suas impressões nas transformações da política brasileira.
Arida foi um dos idealizadores do Plano Real e presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e o Banco Central do Brasil (BC). Em sua juventude, participou de movimentos políticos de oposição à ditadura e chegou a ser torturado e preso. O autor considera que sua participação na militância política foi indireta: seu desejo era ficar de fora da luta armada. “Ao mesmo tempo que eu não queria desistir de uma causa justa e ser considerado covarde, eu também não queria me arriscar muito”, afirmou.
A conversa foi mediada por Fernando de Barros e Silva, da Revista piauí, e por Fernando Gabeira, da GloboNews. Gabeira foi uma figura importante da militância política durante a ditadura militar brasileira e escreveu livros que também abordam suas experiências políticas. Assim como Arida, foi preso político e esteve detido na Organização Bandeirante (Oban), centro clandestino de informações, investigações e tortura criado em São Paulo na década de 1960.

Trajetória de seus relatos
Embora os fatos retratados no artigo tenham acontecido entre as décadas de 1960 e 1980, ele foi publicado apenas em 2011. O escritor explicou que, por muito tempo, não soube qual seria o motivo central para publicar seus relatos: “não queria engrandecer e nem denunciar, o foco é nos meus sentimentos ao longo do processo e na reflexão de um país”, declarou. Ele disse ainda que deixa o texto como herança histórica para suas filhas e acredita que são histórias que não podem ser esquecidas.
Quando Arida percebeu que estava sendo procurado pela polícia, o primeiro pensamento de seu pai foi mandá-lo para um espaço que dividia com um amigo, a garçonniere — termo em francês que caracteriza um local particular de homens solteiros ou casados para encontros discretos. A revelação foi um dos motivos para a demora da publicação do artigo, pois a mãe de Arida não se sentia confortável com a divulgação do episódio. O autor morou sozinho na garçonniere por alguns dias, mas foi preso pouco tempo depois.
Ao relembrar o modo que o Brasil lidou com o fim da ditadura, Arida pontuou que foi uma maneira que trouxe muitas incertezas, e fez com que o país “pagasse um valor muito alto”. Disse também que a tentativa de apagar a memória do passado da ditadura militar apenas faz com que os “fantasmas voltem”.
“Parecia que havia uma medusa atrás de mim e que ela me devoraria caso eu olhasse para o passado.”
Pérsio Arida
Durante a conversa, Arida relembrou alguns casos marcantes de sua militância, como no dia em que emprestou seu fusca para um grupo de guerrilha pendurar uma faixa com os dizeres “Luta armada contra a ditadura dos patrões” na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Um dos participantes do grupo era Carlos Araújo, que, em conversas com o escritor, contou sobre sua esposa que havia sido torturada e presa; ele estava falando sobre a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
“Por mim, assim ficaria para sempre, suspenso no limiar da existência revolucionária. Era uma inserção precária e em dado momento não resisti à pressão para que fizesse algo de prático. Colocar a faixa pareceu-me uma boa solução de compromisso” escreveu Arida em seu artigo. Durante o texto, o escritor reafirmou que não teve atos heróicos no combate à ditadura, mas sempre teve um compromisso claro com o Brasil.
Outro caso memorável para o escritor aconteceu quando abrigou um guerrilheiro na casa de seus pais, a pedido de Araújo. O guerrilheiro em questão era Massafumi Yoshinaga, que, alguns anos depois, ficou conhecido por ter se arrependido da militância e passou a fazer propagandas favoráveis ao regime militar. Uma dessas propagandas aconteceu na Oban, no momento em que Arida estava detido.
O escritor contou que, ao olhar para ele durante sua palestra, foi reconhecido, porém Yoshinaga não o denunciou. O ex-guerrilheiro cometeu suícidio alguns anos depois.
Passado e futuro
Ao recordar sobre os primeiros anos pós ditadura militar, Arida afirmou: “por muito tempo eu não olhava para trás, só queria esquecer”. O autor contou que, durante sua juventude, as reflexões acerca do período ditatorial eram muito difíceis de serem feitas, mas reforçaram uma certa identidade que foi importante para a concretização de sua trajetória política e pessoal.
Em seu artigo, ele escreveu: “mais de 40 anos se passarem desde os meses de prisão. Mas, ao longo desse tempo, senti pulsar a mesma identidade a cada encontro com os que compartilharam comigo aquelas aventuras de juventude”. Para Arida, uma identidade secreta foi uma herança dos anos sombrios que relatou; ela faculta o reconhecimento e o autorreconhecimento.
Ao lembrar das repercussões de seu livro, o escritor contou que, um mês após a publicação de seu texto, o coronel Ustra — ex-chefe do DOI-Codi, um dos principais órgãos de repressão e tortura durante a ditadura — publicou um artigo de opinião na Folha de S. Paulo, no qual afirmava que Arida não havia sido preso nem torturado e que tudo não passava de um delírio de Pérsio Arida.
Como resposta, Arida publicou um artigo de opinião no mesmo veículo, em que dizia: “Provar que algo não aconteceu porque não consta do processo no tribunal de exceção, como fez o coronel Ustra, é uma afronta à razão e à história”.
O escritor ainda afirmou que seu texto não citava Ustra e nenhum outro torturador: “o regime tinha muito esforço em acobertar seus líderes e não os responsabilizar pela violência. Se tivesse transparência e registro, você veria que eu tenho razão”.
Pouco antes da conversa chegar ao fim, Barros apontou um período de reclusão do autor, em que o mesmo lia muitos textos e falou sobre a menção do poema “O torso arcaico de Apolo”, escrito por Rainer Maria Rilke, no artigo de Arida. Ele relembrou o final do poema de Rilke: “Força é mudares de vida”. Quando recluso, o autor desejava apagar seu passado, mas, com o passar do tempo, percebeu a importância de sua história para a democracia brasileira. “Mesmo que minha participação seja um tijolo pequeno, ela está lá”, declarou.
[Imagem de capa: Manuela Trafane/Jornalismo Júnior]
