Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

10º Festival piauí de Jornalismo | Pérsio Arida relembra trajetória na militância política durante ditadura militar

Artigo escrito por Pérsio Arida, “Rakudianai”, significa “não é fácil” em japonês e foi tema de uma das discussões do segundo dia de Festival
Segunda mesa do segundo dia do 10° Festival piauí de Jornalismo
Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)

O segundo dia do Festival piauí de Jornalismo aconteceu neste domingo (6), em São Paulo, e contou com a participação de Pérsio Arida, escritor, político e economista brasileiro. Em seu artigo, intitulado de “Rakudianai”, Arida relembra seus dilemas como um jovem paulistano de classe média ao tentar participar do combate à ditadura militar brasileira. Durante o evento, ele compartilhou os bastidores da produção do artigo, falou sobre suas experiências e refletiu sobre suas impressões nas transformações da política brasileira.

Arida foi um dos idealizadores do Plano Real e presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e o Banco Central do Brasil (BC). Em sua juventude, participou de movimentos políticos de oposição à ditadura e chegou a ser torturado e preso. O autor considera que sua participação na militância política foi indireta: seu desejo era ficar de fora da luta armada. “Ao mesmo tempo que eu não queria desistir de uma causa justa e ser considerado covarde, eu também não queria me arriscar muito”, afirmou.

A conversa foi mediada por Fernando de Barros e Silva, da Revista piauí, e por Fernando Gabeira, da GloboNews. Gabeira foi uma figura importante da militância política durante a ditadura militar brasileira e escreveu livros que também abordam suas experiências políticas. Assim como Arida, foi preso político e esteve detido na Organização Bandeirante (Oban), centro clandestino de informações, investigações e tortura criado em São Paulo na década de 1960.

O título Rakudianai foi uma homenagem ao pai de Pérsio Arida, que frequentemente finalizava suas frases com esta palavra [Imagem: Manuela Trafane/Jornalismo Júnior]

Trajetória de seus relatos

Embora os fatos retratados no artigo tenham acontecido entre as décadas de 1960 e 1980, ele foi publicado apenas em 2011. O escritor explicou que, por muito tempo, não soube qual seria o motivo central para publicar seus relatos: “não queria engrandecer e nem denunciar, o foco é nos meus sentimentos ao longo do processo e na reflexão de um país”, declarou. Ele disse ainda que deixa o texto como herança histórica para suas filhas e acredita que são histórias que não podem ser esquecidas.

Quando Arida percebeu que estava sendo procurado pela polícia, o primeiro pensamento de seu pai foi mandá-lo para um espaço que dividia com um amigo, a garçonniere — termo em francês que caracteriza um local particular de homens solteiros ou casados para encontros discretos. A revelação foi um dos motivos para a demora da publicação do artigo, pois a mãe de Arida não se sentia confortável com a divulgação do episódio. O autor morou sozinho na garçonniere por alguns dias, mas foi preso pouco tempo depois.

Ao relembrar o modo que o Brasil lidou com o fim da ditadura, Arida pontuou que foi uma maneira que trouxe muitas incertezas, e fez com que o país “pagasse um valor muito alto”. Disse também que a tentativa de apagar a memória do passado da ditadura militar apenas faz com que os “fantasmas voltem”.

“Parecia que havia uma medusa atrás de mim e que ela me devoraria caso eu olhasse para o passado.”

Pérsio Arida

Durante a conversa, Arida relembrou alguns casos marcantes de sua militância, como no dia em que emprestou seu fusca para um grupo de guerrilha pendurar uma faixa com os dizeres “Luta armada contra a ditadura dos patrões” na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Um dos participantes do grupo era Carlos Araújo, que, em conversas com o escritor, contou sobre sua esposa que havia sido torturada e presa; ele estava falando sobre a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Por mim, assim ficaria para sempre, suspenso no limiar da existência revolucionária. Era uma inserção precária e em dado momento não resisti à pressão para que fizesse algo de prático. Colocar a faixa pareceu-me uma boa solução de compromisso” escreveu Arida em seu artigo. Durante o texto, o escritor reafirmou que não teve atos heróicos no combate à ditadura, mas sempre teve um compromisso claro com o Brasil.

Outro caso memorável para o escritor aconteceu quando abrigou um guerrilheiro na casa de seus pais, a pedido de Araújo. O guerrilheiro em questão era Massafumi Yoshinaga, que, alguns anos depois, ficou conhecido por ter se arrependido da militância e passou a fazer propagandas favoráveis ao regime militar. Uma dessas propagandas aconteceu na Oban, no momento em que Arida estava detido. 

O escritor contou que, ao olhar para ele durante sua palestra, foi reconhecido, porém Yoshinaga não o denunciou. O ex-guerrilheiro cometeu suícidio alguns anos depois.

Passado e futuro

Ao recordar sobre os primeiros anos pós ditadura militar, Arida afirmou: “por muito tempo eu não olhava para trás, só queria esquecer”. O autor contou que, durante sua juventude, as reflexões acerca do período ditatorial eram muito difíceis de serem feitas, mas reforçaram uma certa identidade que foi importante para a concretização de sua trajetória política e pessoal.

Em seu artigo, ele escreveu: “mais de 40 anos se passarem desde os meses de prisão. Mas, ao longo desse tempo, senti pulsar a mesma identidade a cada encontro com os que compartilharam comigo aquelas aventuras de juventude”. Para Arida, uma identidade secreta foi uma herança dos anos sombrios que relatou; ela faculta o reconhecimento e o autorreconhecimento.

Ao lembrar das repercussões de seu livro, o escritor contou que, um mês após a publicação de seu texto, o coronel Ustra — ex-chefe do DOI-Codi, um dos principais órgãos de repressão e tortura durante a ditadura — publicou um artigo de opinião na Folha de S. Paulo, no qual afirmava que Arida não havia sido preso nem torturado e que tudo não passava de um delírio de Pérsio Arida. 

Como resposta, Arida publicou um artigo de opinião no mesmo veículo, em que dizia: “Provar que algo não aconteceu porque não consta do processo no tribunal de exceção, como fez o coronel Ustra, é uma afronta à razão e à história”.

O escritor ainda afirmou que seu texto não citava Ustra e nenhum outro torturador: “o regime tinha muito esforço em acobertar seus líderes e não os responsabilizar pela violência. Se tivesse transparência e registro, você veria que eu tenho razão”.

Pouco antes da conversa chegar ao fim, Barros apontou um período de reclusão do autor, em que o mesmo lia muitos textos e falou sobre a menção do poema “O torso arcaico de Apolo”, escrito por Rainer Maria Rilke, no artigo de Arida. Ele relembrou o final do poema de Rilke: “Força é mudares de vida”. Quando recluso, o autor desejava apagar seu passado, mas, com o passar do tempo, percebeu a importância de sua história para a democracia brasileira. “Mesmo que minha participação seja um tijolo pequeno, ela está lá”, declarou.

[Imagem de capa: Manuela Trafane/Jornalismo Júnior]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima