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A pressão por trás do desempenho: como a cobrança por resultados pode afetar a saúde mental de jovens atletas

Pesquisa aponta que aponta que 41% dos atletas de alto rendimento no país enfrentam algum tipo de transtorno psicológico

Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) cobrança

O debate a respeito da saúde mental no esporte de alto rendimento ganhou espaço ao longo dos anos, com cada vez mais atletas se abrindo para compartilhar suas experiências e desafios. No entanto, para muitos, o tema permanece um tabu. Em um ambiente marcado pela cobrança constante por resultados, falar sobre as dificuldades enfrentadas ainda pode ser visto como sinal de fraqueza.

Por trás do alto rendimento

No esporte profissional, o atleta é avaliado a todo momento pelo seu desempenho. No entanto, a despeito das duras críticas e comentários que recebe constantemente — que, muitas vezes, ultrapassam o universo esportivo —, a cobrança por resultados também pode afetar sua saúde mental.

Uma pesquisa realizada em 2024 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em parceria com o Comitê Olímpico do Brasil (COB), aponta que 41% dos atletas de alto rendimento no país enfrentam algum tipo de transtorno psicológico. Entre os problemas mais comuns estão insônia, depressão, ansiedade e uso de álcool.

Apesar de ter sido um tabu por muito tempo, nos últimos anos alguns atletas passaram a compartilhar suas vivências e dificuldades, o que ampliou a discussão sobre o tema. Em 2014, o nadador estadunidense Michael Phelps, maior medalhista olímpico da história, foi preso por dirigir embriagado, precisou cumprir liberdade condicional e se internou por 45 dias em uma clínica de reabilitação. Posteriormente, o atleta revelou que enfrentava um quadro severo de depressão e que já chegou a questionar o desejo de continuar vivo.

Em 2021, a tenista japonesa Naomi Osaka não participou dos torneios de Roland Garros e Wimbledon para se dedicar à saúde mental e revelou que luta contra a depressão desde os 21 anos. Nas Olimpíadas de Tóquio, também em 2021, a ginasta estadunidense Simone Biles desistiu de disputar a final individual geral de ginástica artística, principal categoria da modalidade, ao alegar que precisava cuidar de sua saúde mental.

Após um período de afastamento para cuidar de sua saúde mental, Simone Biles conquistou três medalhas de ouro e uma de prata nas Olimpíadas de Paris de 2024 [Imagem: Reprodução/X/@juridicogoat]

Referências em suas modalidades, esses três atletas estão longe de serem casos isolados. A pressão por resultados e a exposição pública, ainda mais intensa com as redes sociais, podem impactar o desempenho e agravar quadros de sofrimento psíquico. 

Em entrevista ao Arquibancada, a psicóloga Soraia Regina afirma que a exposição nas redes sociais acrescenta uma camada de cobrança aos atletas, que passam a lidar também com a pressão fora do ambiente esportivo. O espaço aberto promovido por esses aplicativos possibilita que as pessoas possam criticar o atleta a qualquer momento, invadindo sua privacidade e momentos de descanso. O ex-jogador André Felipe, mais conhecido como André Balada, comentou sobre o assunto, em entrevista ao ge em 2024: “Parece que a rede social traz ódio. Todos os jogadores precisam se blindar disso. Você acaba achando que a avaliação da internet é real e esquece do seu próprio valor, da sua luta, do seu trabalho”.

Esse cenário fica ainda mais complicado quando este atleta é jovem e ainda busca aprender a lidar com esse tipo de cobrança: “Se a gente pensar que é um jovem que vai ter uma pressão já muito grande pelo ambiente competitivo, ele vai ter um peso maior ainda com a exposição às redes”, afirma Soraia.

No entanto, a psicóloga ressaltou que apesar da idade ser um fator importante, as características individuais e sociais de cada atleta tendem a ser mais relevantes nesse contexto: “Mesmo se é um atleta jovem, mas que tem uma boa rede de apoio, uma família acolhedora e amigos que o incentivam, ele vai poder lidar melhor com essa pressão”.

Entre a cobrança e a falta de apoio

Um levantamento realizado em junho de 2024 revela que seis dos vinte clubes da Série A do Campeonato Brasileiro não contavam com departamento de psicologia. A falta de acompanhamento profissional deixa os atletas expostos a problemas como ansiedade, alterações no sono, irritabilidade e fadiga mental, que podem prejudicar seu desempenho em campo.

A questão econômica é outro fator importante nesse cenário. Clubes com escassez de recursos financeiros e menor infraestrutura muitas vezes não contam com departamento de psicologia, o que deixa os atletas sem uma rede de apoio.

Soraia relata que a busca por ajuda ainda é vista por muitos como demonstração de fragilidade, e o medo desse preconceito pode fazer com que atletas escondam problemas de saúde mental até que a situação se agrave. Por isso, ela reforça a necessidade do suporte psicológico oferecido pelos clubes: “O ambiente dos times deveria ser de acolhimento. Ter esse suporte, tanto individual quanto em grupo, é muito importante”.

No início deste ano, o jogador Philippe Coutinho rescindiu seu contrato com o Vasco da Gama após episódios de pressão e vaias da torcida. O meio-campista afirmou que estava muito cansado mentalmente e precisava priorizar sua saúde mental.

“Ser julgado por inúmeras pessoas por algo que não faz parte do meu caráter é difícil demais. A verdade é que estou muito cansado mentalmente”, afirmou o jogador, ao anunciar sua rescisão [Imagem: Reprodução/X/@DataFutebol]

Outro jogador que enfrentou problemas relacionados à saúde mental foi Yuri Alberto. Com apenas 22 anos, entre o final de 2023 e o início de 2024, o atacante estava em má fase e convivia constantemente com as críticas da torcida e a pressão por melhores atuações. A situação piorou quando, na partida contra o São Bernardo,  válida pelo Paulistão de 2024, Mano Menezes, então treinador do Corinthians, o chamou de “burro”, ofensa que foi captada pela transmissão. 

Yuri comentou posteriormente sobre o episódio e como lidou com as críticas: “Foi muito difícil. Depois do ocorrido contra o São Bernardo, fui procurar ajuda [profissional de um psicólogo]. Esse trabalho tem sido muito importante e todo jogador tem que ter isso”.

Após buscar acompanhamento, Yuri melhorou seu desempenho gradualmente e terminou a temporada de 2024 como artilheiro do Brasileirão [Imagem: Reprodução/X/@juridicogoat]

Os impactos da lesão na saúde mental

Um estudo realizado por pesquisadores da King Saud University e publicado na revista científica JBJS Reviews identificou uma relação entre lesões esportivas e problemas de saúde mental. Jogadores e ex-jogadores de futebol com histórico de lesões graves apresentaram indicadores significativamente piores de saúde mental do que atletas que sofreram apenas lesões leves ou não tiveram lesões.

O período imediatamente posterior à lesão é especialmente delicado. Segundo o levantamento, ansiedade, frustração, depressão e alterações negativas de humor podem se intensificar durante a recuperação. O estresse também aparece associado ao risco de lesão, o que reforça a importância do acompanhamento psicológico nos centros esportivos.

Outra pesquisa, publicada em 2025 na Revista Contemporânea, ajuda a dimensionar essa pressão entre jovens atletas. A pesquisa ouviu 18 jogadores de handebol, dos quais 15 tinham menos de 20 anos. A ansiedade aparecia principalmente antes de partidas importantes: 16 atletas relataram sofrer de forma mais intensa nesses momentos, enquanto 17 disseram lidar com cobranças internas e externas relacionadas ao medo de errar.

A pesquisa também apontou que metade dos jogadores não conhecia nenhuma técnica para controlar a ansiedade antes das partidas. Entre os que conheciam alguma estratégia, técnicas de respiração foram as únicas citadas — embora muitos ainda não a tivessem colocado em prática. Os resultados mostram que a ansiedade e a autocobrança fazem parte da rotina de muitos jovens atletas, mas nem sempre eles têm recursos para lidar com essas pressões.

A cobrança começa na base

No Brasil, para muitas famílias, especialmente as de menor renda, o esporte — sobretudo o futebol — representa uma possibilidade de ascensão social. Desde jovens, as crianças começam a brincar com a bola, e ao perceberem que seus filhos possuem talento, muitos pais enxergam no esporte uma  forma de mudar a situação da família e passam a investir nisso, na expectativa de que haja retorno no futuro.

Nas categorias de base, a busca pelo futebol profissional começa ainda na infância, mas apenas uma pequena parcela dos atletas consegue chegar ao alto rendimento [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O livro-reportagem No campo das emoções: a saúde mental no futebol infantojuvenil, produzido por Vinicius Pereira Vilas Boas como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo na PUC-SP, aponta que a pressão por resultados começa cedo, ainda nas categorias de base, quando técnicos e dirigentes passam a tratar adolescentes como adultos e a exigir rendimento imediato, títulos e desempenho. “A consequência costuma ser invisível, mas profunda: insegurança, ansiedade e crises emocionais”, afirma.

As categorias de base no Brasil são um processo extremamente seletivo, no qual poucos chegam ao futebol profissional. Muitos atletas abandonam os estudos e até as próprias casas, passam a viver em alojamentos e têm uma rotina praticamente restrita ao clube.

Nesse cenário, os jovens convivem com outros atletas que também disputam as mesmas vagas e oportunidades. Isso cria um ambiente de comparação permanente, que pode gerar sentimento de inadequação aos que não conseguem acompanhar. Assim, o jovem não sofre apenas pela cobrança dos pais, técnicos ou torcedores, ele também está inserido em um ambiente no qual seus colegas são, ao mesmo tempo, companheiros e concorrentes.

Quando o futebol é a única perspectiva, a cobrança, tanto interna quanto externa, fica ainda maior. Muitos dos que ficam pelo caminho não têm apoio psicológico ou preparação para lidar com a frustração de não seguir na profissão. Nesse contexto, não alcançar o futebol profissional pode representar não apenas o fim de uma carreira esportiva, mas também a decepção de um projeto de vida construído durante anos.

*Imagens utilizadas na capa: Carine06/Wikimedia Commons e Azilko/Wikimedia Commons

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