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Michael Phelps, dez anos após a aposentadoria: entre recordes, legado e transformação do esporte

Uma década depois de deixar as competições, o nadador ainda influencia debates muito além das piscinas

Por Ana Rita Hernandes da Costa (anaritahernandes@usp.br), Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br) e Mayara Felisardo (mayarafelisardo@usp.brphelps

Maior medalhista da história dos Jogos Olímpicos — foram 28 medalhas em quatro edições —, Michael Phelps transformou a natação dentro e fora d’água. O atleta acumulou recordes ao longo da carreira, com números impressionantes e um novo estilo de treino e disciplina. Mesmo após deixar as competições, o norte-americano ainda encontra formas de permanecer ligado ao esporte e de usar sua trajetória para discutir questões que vão muito além de medalhas e recordes. 

Com uma combinação de excelência técnica, dedicação e um método de treinamento que influenciou gerações de atletas, Phelps redefiniu os limites da modalidade. Dez anos após a aposentadoria, seu legado permanece vivo não apenas pelos recordes, mas também pela defesa da saúde mental e pelo impacto que ainda exerce sobre o esporte.

De Baltimore para as piscinas

Michael Phelps entrou para o mundo da natação desde cedo. Nascido em Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos, sua família já era formada por nadadores: suas duas irmãs mais velhas, Hilary e Whitney. Ao assistir e acompanhar os treinos ao lado da mãe, Phelps se apaixonou pelo esporte e se juntou ao North Baltimore Aquatic Club aos sete anos de idade.

Treinado e orientado por Bob Bowman, o atleta ganhou destaque dentro do clube pelo seu talento e velocidade nas piscinas. Após ser diagnosticado com déficit de atenção e hiperatividade, Phelps utilizou a natação para canalizar sua energia, o que impulsionou sua evolução. Com apenas dez anos de idade, ele estabeleceu um recorde nacional na prova de 100m borboleta para sua faixa etária — estilo de nado que virou sua marca registrada.

O nome do garoto de Baltimore continuou a ganhar espaço no mundo da natação e chamou atenção do comitê olímpico dos EUA. Aos 15 anos, Phelps foi convocado para integrar a equipe norte-americana para os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, e se tornou o nadador mais jovem a representar o país em uma disputa olímpica desde Los Angeles 1932. Apesar de sua idade, os resultados do atleta não decepcionaram: conquistou a quinta posição nos 200m borboleta.

Bowman seguiu como treinador de Phelps até o final de sua carreira profissional, em agosto de 2016 [Imagem: Reprodução/Instagram/@mamaphelpsh20]

Nos anos seguintes, Phelps colecionou vitórias e medalhas pelo mundo. No Campeonato Nacional de Primavera dos EUA de 2001, aos 15 anos, ele se tornou o mais jovem recordista mundial da natação masculina ao registrar o tempo de 1min54s92 nos 200m borboleta. No mesmo ano, conquistou seu primeiro título internacional no Campeonato Mundial em Fukuoka, no Japão.

No Campeonato Pan-Pacífico de 2002, o atleta ganhou cinco medalhas, dentre as quais três eram de ouro. Em seu retorno ao Campeonato Nacional de Primavera dos EUA, em 2003, Phelps tornou-se o primeiro nadador a conquistar títulos em três estilos diferentes em uma única competição nacional. Nesse mesmo ano, durante o Campeonato Mundial em Barcelona, ​​na Espanha, ele conquistou quatro medalhas de ouro, duas de prata e quebrou cinco recordes mundiais individuais — um feito inédito. 

Phelps também conquistou cinco títulos no Campeonato Nacional de Verão dos EUA, o maior número já obtido por um nadador em uma única competição. Com apenas 18 anos, o atleta já colecionava diversos recordes mundiais e nacionais, o que impulsionou ainda mais a sua carreira.

Em sua segunda aparição nos Jogos Olímpicos, em Atenas 2004, o nadador se consolidou como um grande nome do esporte. Phelps conquistou sua primeira medalha de ouro olímpica nos 400 metros medley individual e definiu o novo recorde mundial com um tempo de 4min08s26. Ele conseguiu mais quatro ouros durante o torneio: nos 200 metros borboleta — também com recorde mundial —, nos 200 metros medley individual, nos 100 metros borboleta e nos revezamentos 4×200 metros livre e 4×100 metros medley. Além disso, ganhou bronze no revezamento 4×100 metros livre e nos 200 metros livre.

Phelps continuou a dominar as piscinas no Campeonato Mundial de 2007, em Melbourne, Austrália. Com sete medalhas de ouro e cinco novos recordes mundiais estabelecidos, ele igualou a marca de maior número de vitórias em uma grande competição internacional, que pertencia a Mark Spitz,  nadador estadunidense considerado o melhor do mundo, até então.

Ao chegar aos Jogos Olímpicos de Beijing, em 2008, Phelps estava no auge de sua carreira e buscava quebrar o recorde de Spitz, que havia conquistado sete ouros em uma só edição em Munique 1972. O desejo se tornou realidade quando ele subiu ao lugar mais alto do pódio em todas as provas de que participou. O atleta terminou o torneio com oito medalhas de ouro e mais sete marcas mundiais com seu nome.

O primeiro e o último ouro de Phelps nos Jogos Olímpicos foram conquistados no mesmo dia, em 14 de agosto [Imagem: Reprodução/Instagram/@m_phelps00]

Quatro anos depois, em Londres 2012, Phelps adicionou mais quatro ouros e duas pratas à sua coleção. Com a conquista da 19° medalha, ele se tornou o maior medalhista da história dos Jogos Olímpicos e superou o recorde da ex-ginasta soviética Larisa Latynina

Apesar de sua performance e de ter apenas 27 anos, o nadador anunciou que iria se aposentar durante os Jogos Olímpicos de Londres, mas a decisão não durou muito. Em outubro de 2014, Phelps foi preso por dirigir alcoolizado e enfrentou desafios com a depressão. Após 45 dias em uma clínica de reabilitação e uma suspensão de seis meses pela USA Swimming, ele decidiu voltar às piscinas.

Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, Phelps foi o porta-bandeira dos Estados Unidos em homenagem à sua quinta participação no torneio — um recorde para um nadador estadunidense. Em sua última competição, o nadador finalizou seu legado na natação com mais cinco ouros e uma prata.

No fim de sua carreira profissional, Michael Phelps colecionou um número inimaginável de conquistas e condecorações. Com 28 medalhas olímpicas, 34 medalhas em campeonatos mundiais e 39 recordes batidos durante seu tempo nas piscinas, o atleta se consolidou como o maior da história da natação.

Motivações por trás da aposentadoria

Em 2012, ao anunciar que iria se aposentar pela primeira vez, Phelps explicou que tomou a decisão pois não acreditava que fazia sentido continuar na natação após tantas conquistas. A quebra do recorde de Larissa Latynina consolidou a escolha. Além disso, a rotina exaustiva de treinos e competições que ele seguiu por quase duas décadas causaram esgotamento físico e mental ao atleta.

Porém, os anos seguintes foram desafiadores para ele. Phelps comentou que, após os Jogos Olímpicos de 2012, ele lutou contra a depressão e desenvolveu vício em bebidas e jogos. Depois de sua prisão e o período em uma clínica de reabilitação, o atleta enxergou na natação a melhor forma de lidar com as dificuldades.

Phelps nadava 13 quilômetros por dia, seis ou sete vezes por semana, mesmo aos domingos e em seu aniversário [Imagem: Reprodução/Instagram/@m_phelps00]

A decisão de se aposentar oficialmente em 2016 seguiu algumas das motivações anteriores: cansaço físico e mental e o desejo de sair do esporte no topo. Phelps também realizou a escolha para poder passar tempo com a esposa Nicole e os filhos, além de priorizar sua saúde mental e bem-estar. Apesar de ter se afastado das piscinas, o legado e a presença dele continuaram vivos.

O primeiro e único: o legado de Phelps

Mesmo distante do espaço que o apresentou para o mundo, Michael Phelps continua sendo uma referência para a natação e para o esporte olímpicos. Seja pela rotina de treinamentos quase obsessiva ou pela mentalidade competitiva, o norte-americano é considerado por muitos um dos maiores atletas deste século.  Seu impacto foi além das medalhas: Phelps transformou a modalidade e ajudou a ampliar sua visibilidade em escala global. Sua icônica virada submersa, decisiva para a conquista do ouro no revezamento 4×100 metros medley em Pequim 2008, tornou-se uma das imagens mais emblemáticas da história olímpica.

Durante a carreira, Phelps estabeleceu 39 recordes mundiais: 29 em provas individuais e dez em revezamentos, a maior marca já alcançada por um nadador [Imagem: Reprodução/Instagram/Wikimedia Commons

Em entrevista para o Arquibancada, o técnico e comentarista de natação Alexandre Pussieldi defendeu que parte desse legado também foi construído pela personalidade do nadador. “Existia no Michael Phelps um espírito competitivo muito forte. Era quase uma aura em volta dele, quase folclórica, como se tivesse nascido para vencer. Essa obstinação pela vitória, aliada à disciplina, criou uma personalidade única”, afirma.

Segundo Pussieldi, essa imagem alimentou uma série de histórias sobre a preparação do estadunidense. Muitas delas, comenta, foram repetidas tantas vezes que ajudaram a construir a ideia de um atleta quase sobre-humano. Independentemente dos números exatos, é inegável que Phelps manteve uma rotina de treinamento extremamente intensa. No auge da carreira, chegou a nadar cerca de oitenta quilômetros por semana, volume que contribuiu para desenvolver uma técnica considerada referência até hoje.

Michael Phelps, dos Estados Unidos, ganha sua vigésima medalha de ouro olímpica, nos 200m nado borboleta, nos Jogos Rio 2016 [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons/ Fernando Frazão] 

Especialista no nado borboleta — um dos estilos mais complexos da modalidade —, Phelps também revolucionou a forma de disputar provas ao explorar como poucos as pernadas submersas. Em análise publicada pelo Swim Channel, John Muller, fisioterapeuta de atletas olímpicos, explica que nadadores capazes de permanecer mais tempo debaixo d’água conseguem retornar à superfície com maior velocidade.

“Ao dar pernadas por mais tempo, Phelps alcançou velocidades maiores submerso e também quando voltou à tona”, Muller comenta. Para o profissional , esse método foi umas marcas deixadas pelo nadador como referência: “Suas pernadas submersas são um tremendo recurso, e só agora vemos especialistas dos cem metros irem um pouco além debaixo d’água”.

A superioridade técnica do estadunidense também aparecia em sua versatilidade. Em uma mesma competição, Phelps registrava as melhores parciais em diferentes estilos e chegou a ter o melhor tempo no nado livre mesmo ao competir contra especialistas da prova. 

Para Pussieldi, essa capacidade dificilmente será repetida. “Nunca mais na história da natação mundial teremos um nadador com oito medalhas de ouro”, afirma. Segundo ele, isso se deve à tendência de especialização que domina a modalidade atualmente. Enquanto Phelps competia em diferentes estilos e distâncias, hoje os atletas costumam concentrar seus esforços em provas específicas. “Os finalistas dos cem metros livre já não são os mesmos dos cem metros borboleta”, exemplifica. 

Michael Phelps no pódio dos duzentos metros medley dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, ao lado do estadunidense Ryan Lochte e do húngaro László Cseh, medalhistas de bronze e prata, respectivamente [Imagem/Reprodução Wikimedia Commons]

A prova longe das piscinas

Considerado também um exemplo a ser seguido fora do esporte, Phelps exprime algo em sua personalidade que não serve de inspiração apenas para atletas: persistência. Ao falar abertamente sobre a depressão e outros desafios enfrentados ao longo da carreira, o ex-nadador ajudou a romper o estigma em torno da saúde mental no esporte de alto rendimento e abriu espaço para que os companheiros de profissão compartilhassem suas próprias experiências.

Para Alexandre Pussieldi, essa é uma das principais contribuições deixadas ppelo norte-americano. “O legado de Michael Phelps não são apenas as conquistas, mas a capacidade de dar a volta por cima”, afirma.

Após anunciar sua primeira aposentadoria, em 2012, o atleta viveu um dos períodos mais difíceis de sua vida, quando sofreu com vícios em álcool e  jogos de azar. Em 2014, após ser preso por dirigir alcoolizado, Phelps enfrentou um quadro de depressão e decidiu se internar em uma clínica de reabilitação.

Em participação na WISH Qatar 2018, Phelps afirmou: “Ao compartilhar minha trajetória com a saúde mental, quero que outras pessoas saibam que não estão sozinhas. Não há problema em não estar bem[Imagem/Reprodução/Instagram: @m_phelps00]

Anos depois, o próprio nadador falou publicamente sobre aquele momento. “Eu realmente estava em um lugar escuro. Não queria mais estar vivo”, disse em entrevista à revista Sports Illustrated. Segundo Pussieldi, pessoas próximas ao atleta já tinham conhecimento da situação, mas o diagnóstico não era de domínio público. Nos Estados Unidos, informações médicas são protegidas pela Health Insurance Portability and Accountability Act (HIPAA), legislação que restringe a divulgação de dados de saúde sem o consentimento do paciente.

O retorno às piscinas marcou também uma mudança na forma como Phelps passou a cuidar de si. Ao conquistar os melhores tempos nos cem e duzentos metros borboleta durante o Campeonato Americano em 2015, o nadador atribuiu o desempenho ao processo de recuperação. “Essa performance aconteceu porque eu trabalhei, me recuperei, dormi e me cuidei muito mais do que eu já havia feito”, afirmou.

Ao compartilhar sua experiência, Phelps contribuiu para mudar a forma como a saúde mental passou a ser discutida no esporte de alto rendimento. A imagem do atleta invencível deu lugar à de alguém que reconheceu sua vulnerabilidade e mostrou que buscar ajuda também faz parte da trajetória de um campeão.

“Não consigo esconder: para mim ele é o maior atleta de todos os tempos, de todos os esportes”

Alexandre Pussieldi

Michael Phelps: o campeão além das medalhas 

A carreira do nadador fora das piscinas começou antes mesmo dele se aposentar. Ele criou a Michael Phelps Foundation em 2008, inicialmente voltada a ensinar hábitos saudáveis e segurança na água para crianças. Por mais de uma década, esse foi o rosto público da fundação: incentivar crianças a entrar na piscina, não necessariamente falar sobre o que elas poderiam enfrentar fora dela.

O próprio Michael tinha medo de água quando começou a nadar, aos sete anos [Imagem/Reprodução Wikimedia Commons]

Isso mudou com o passar dos anos, já que o próprio atleta passou a expor uma parte da carreira que havia mantido em segredo durante seu tempo de atuação. Phelps revelou ter enfrentado depressão e ansiedade ainda quando estava em atividade, temas esses de saúde mental que só tratou de forma mais aberta e abrangente em entrevistas depois de aposentado. 

Segundo o próprio nadador, o quadro começou já nos Jogos de Atenas, em 2004, quando relatou que esse momento foi o primeiro de grandes crises e que o mesmo percebeu que as grandes vitórias (conquista de seis medalhas de ouro e duas de bronze) não o tirariam desse estado de sofrimento emocional, especialmente causado pela pressão do esporte, com rotinas e resultados.

Essa mudança de postura teve efeito direto sobre a fundação que carrega seu nome. Em 2020, a entidade deixou de ser apenas um projeto de segurança aquática e ampliou oficialmente sua missão para incluir o apoio ao bem-estar mental e à resiliência emocional de crianças. 

A instituição passou a receber reconhecimento de organizações como a Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA), agência norte-americana de saúde pública que tem como objetivo auxiliar o acesso a tratamentos e serviços de apoio para reduzir o impacto de transtornos mentais e do uso de substâncias, e o Boys & Girls Clubs of America (BGCA), organização que oferece espaços seguros, apoio escolar e atividades extracurriculares para crianças e jovens no período após a aula. 

Parte desse trabalho também ganhou forma fora da fundação. O nadador atuou como produtor executivo do documentário da HBO O Peso do Ouro (The Weight of Gold, 2020), que reúne relatos de outros atletas olímpicos, como o esquiador Bode Miller, a patinadora Sasha Cohen e o saltador David Boudia para expor os desafios de saúde mental que atletas olímpicos costumam enfrentar. Através desse longa, foi possível apontar que os limites psicológicos também são testados e levados ao seu máximo nas competições mundiais. 

Em 2019, o reconhecimento por esse trabalho ultrapassou o universo esportivo e Michael recebeu o Prêmio Morton E. Ruderman de Inclusão por se dispor a compartilhar sua história sobre depressão e ajudar a dar visibilidade ao tema da saúde mental, já que, para além dos projetos que fundou e financiou, o atleta participou de palestras sobre esses obstáculos psicológicos. Na ocasião, o próprio Phelps disse não esperar que o assunto ganhasse a proporção que ganhou, e descreveu como um sonho acompanhar o crescimento da discussão sobre saúde mental no esporte.

Mais do que complementar sua trajetória, essa atuação fortaleceu a imagem de Phelps como uma das figuras mais relevantes da história da natação. Se as 28 medalhas olímpicas e os inúmeros recordes explicam por que ele é considerado um dos maiores atletas de todos os tempos, sua disposição em usar a própria visibilidade para promover mudanças sociais consolidou um legado que vai além do desempenho esportivo. Ao mostrar que a excelência também passa pelo cuidado com a saúde mental, Michael Phelps deixou uma marca que continua a influenciar atletas e o esporte uma década após sua despedida das competições. 

Para Alexandre Pussieldi, a exposição pública das questões mentais de Phelps também esbarrava em uma barreira legal pouco discutida fora dos Estados Unidos: “Tem uma lei nos Estados Unidos chamada HIPAA (Health Insurance Portability and Accountability Act), que proíbe discussões sobre qualquer questão ligada à saúde da pessoa. E, por conta disso, nunca se falou do que o Michael Phelps tinha. E agora ele mesmo está falando”. 

O posicionamento de Phelps teve impacto dentro e fora do esporte. Em um ambiente historicamente marcado pela pressão por resultados e pela ideia de invulnerabilidade dos atletas, ele contribuiu para ampliar o debate sobre saúde mental e incentivou federações, equipes e profissionais a tratarem o tema como parte essencial do rendimento esportivo e da qualidade de vida. Sua influência também ajudou a aproximar o público de uma discussão que, até então, raramente ocupava espaço no universo olímpico. 

“Michael Phelps ajudou muito a questão da saúde mental. Trouxe para o público, tirou e quebrou o tabu. As pessoas agora podem falar mais tranquilamente”

Alexandre Pussieldi

Essa frente, hoje, é inseparável da figura pública de Phelps. Ele próprio disse preferir a chance de salvar uma vida a ganhar uma nova medalha de ouro, uma frase que resume a virada de chave: o mesmo atleta que redefiniu o que era possível dentro da piscina passou a redefinir, fora dela, o que se esperava de um campeão depois que as luzes se apagam. Não por acaso, boa parte do que hoje se aponta como legado de Phelps está nessa disposição de expor uma vulnerabilidade que o esporte de alto rendimento historicamente escondia. Uma década após a aposentadoria, segue como exemplo não apenas pelo que conquistou nas piscinas, mas também pelo espaço que ajudou a abrir para que atletas falassem sobre saúde mental sem que isso fosse visto como sinal de fraqueza. 

Uma década ainda em movimento 

A aposentadoria definitiva, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, não significou um afastamento do esporte. Michael Phelps passou a ocupar um novo e ainda relevante papel dentro do esporte, tornou-se embaixador da modalidade. Com presença constante em grandes competições internacionais, o ex-nadador participou de transmissões televisivas, eventos promovidos pela USA Swimming e ações voltadas ao desenvolvimento de novos atletas, mantendo-se como uma das principais vozes da natação mundial.

Sua influência também passou a ser percebida na formação de uma nova geração de competidores. Embora ainda nenhum atleta tenha reproduzido a combinação de longevidade, versatilidade, domínio e número que marcaram sua carreira, nomes como o do francês Léon Marchand frequentemente são comparados ao do norte-americano. O próprio jovem optou por treinar sob o comando de Bob Bowman, técnico que conduziu toda a trajetória de Phelps, evidenciando como a metodologia desenvolvida ao longo de décadas continua a ser uma das principais referências do esporte.

Léon Marchand com Bob Bowman, após vencer os 400m medley no Mundial do Japão que só havia sido conquistado por Phelps antes [Imagem: Reprodução Instagram/@leon.marchand31] 

Para Alex Pussieldi, a influência e a luz que o ex-nadador trouxe consigo permanece evidente mesmo após sua despedida das competições: “Michael Phelps trouxe a natação para outro patamar. Ele furou a bolha. Houve um impacto enorme na mídia, nos patrocinadores e na forma como o público passou a enxergar a modalidade”, afirma. 

Segundo o especialista, a presença de Phelps foi decisiva para ampliar a audiência da natação não só nos Jogos Olímpicos, mas em outras competições, e transformar provas da modalidade em eventos de grande repercussão, inclusive fora do público habitual do esporte.

*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@usaswimming

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