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Semana do Jornalismo 2026 | “Qualquer tema leva à política”, diz Gisele Lobato

Mesa de Jornalismo Político marca noite do penúltimo dia do evento com discussões acerca do Caso Master, Lava-Jato e bastidores de Brasília
Na imagem, Gisele Lobato, Dimitrius Dantas e Laura Cristofoletti na Semana de Jornalismo 2026
Por João Paulo Masur (joaopaulomansur@usp.br)

O quarto dia da Semana do Jornalismo de 2026 trouxe a vencedora do Prêmio Gabo, Gisele Lobato, e o ganhador do Prêmio IREE de Jornalismo, Dimitrius Dantas, para uma palestra  sobre o tema “Jornalismo Político: Cobertura, Poder e Interesse Público”, no auditório Freitas Nobre, no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). A conversa, mediada pela repórter Laura Cristofoletti, fez  parte da programação da Semana que contou com cinco dias de mesas-redondas  e que chegou ao fim nesta sexta-feira (25).

Gisele Lobato é jornalista formada pela ECA-USP e tem anos de experiência na cobertura de direitos humanos, meio ambiente, política e redes de desinformação. Ela é editora de investigações no The Intercept Brasil, tendo atuado também na Repórter Brasil, no jornal Agora São Paulo e como colaboradora na Revista Piauí, na Folha de S. Paulo e no The Guardian.

Dimitrius Dantas é repórter do jornal O Globo desde 2016 e também é formado pela ECA-USP. Atuou na cobertura da Operação Lava Jato, das eleições presidenciais de 2018 e na pandemia da Covid-19. Acompanhou de perto o Palácio do Planalto em 2021 durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Recentemente, tem feito uma cobertura ampla do Caso Master e de denúncias de corrupção.

Todos os caminhos levam à política

A mediadora iniciou perguntando sobre o começo da carreira de ambos e questionou  se o interesse pela política iniciou-se logo na graduação. Dimitrius afirma que sempre gostou de política, antes mesmo de entrar no curso de jornalismo, e apreciava as matérias de humanas na época da escola. Ele também disse que as propagandas eleitorais no horário gratuito chamavam a sua atenção na infância, as quais, segundo ele, “eram mais extensas, mais democráticas e com mais espaço para partidos pequenos de esquerda”, como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) e o Partido da Causa Operária (PCO).

Gisele, por sua vez, disse que não pensava em cobrir política, mas tinha um olhar especial para questões sociais, direitos e temas internacionais. Ela destaca o fato da dependência da política em outras áreas do jornalismo, como a parte ambiental, em que é necessário ter um pouco de conhecimento de legislação e políticas públicas. A entrevistada acrescenta que todos os temas, no fundo, são temas políticos, algo comentado também por Roberto Sadovski na mesa de Jornalismo Cultural, na segunda-feira (21).

Na imagem, Gisele Lobato na Semana de Jornalismo 2026
A repórter estudou fora do país e se aprofundou em estudos africanos e em história, destacando que isso ajudou na profundidade de suas pesquisas [Imagem: Melissa Siqueira/Jornalismo Júnior]

Os bastidores da cobertura na cena 

Durante a mesa, Dimitrius falou sobre sua experiência cobrindo a política brasileira direto de Brasília. Ele contou que era setorista — jornalista que acompanha um tópico por um longo período — em 2018, cobria a campanha de Marina Silva (Rede), que iniciou forte nas pesquisas para intenção de votos naquele ano. 

Ele relata ainda que, enquanto estava fazendo uma entrevista com Marina, soube da notícia de que Jair Bolsonaro havia sido esfaqueado. Segundo ele, no meio da conversa, a assessora da ambientalista disse: “Acabou a eleição”, em reação ao ocorrido.

O jornalista também classificou o pleito como  “fora do padrão”: “foi a primeira vez que um candidato abertamente de direita ganhou nas urnas”. Em comparação com 2022, ele complementou dizendo que a última eleição foi a “mais acirrada, tensa, decidida nos mínimos detalhes, em que cada fala de um dos dois candidatos poderia decidir o futuro do país”.

A mediadora também perguntou aos convidados qual a principal dificuldade que os repórteres encontram em aproximar a política de Brasília do povo, visto que, segundo ela, uma queixa desse público que não se mostra interessado é que as decisões da capital não afetam o cotidiano delas. Gisele respondeu que o papel do jornalismo é preencher essa lacuna, “essa distância existente entre a capital e a população”, mostrando como aquilo interfere no cotidiano.

Na imagem, Gisele Lobato e Dimitrius Dantas
A jornalista afirma que existe uma rapidez, um foco na manchete e falta de aprofundamento em alguns casos [Imagem: Melissa Siqueira/Jornalismo Júnior]

Jornalismo: uma profissão de riscos

Durante a conversa, Gisele afirmou que existe um ataque coordenado contra a imprensa, com o objetivo de descredibilizá-la. “A extrema direita ataca jornalistas, mas gosta de se autointitular jornalistas”, disse. Ela continuou, reconhecendo que existe um “mau jornalismo”, mas que os ataques vêm de pessoas que querem reivindicar esse posto.

Sobre segurança, Dimitrius diz que o período entre 2018 e 2022 foi especialmente complicado.  Colegas de profissão estavam preocupados e colocavam outros nomes nas redes por medo de ataques. “Era praticamente semanal”, afirmou,  em relação à quantidade de vezes nas quais o presidente Jair Bolsonaro atacou a imprensa. Gisele finalizou o tópico dizendo que isso se transformou em uma nova realidade e que agora é algo incorporado na rotina desde então.

Mais adiante, a convidada voltou a citar a extrema direita, agora na perspectiva de apuração e exposição. Ela diz que os jornalistas têm que sair da bolha digital e cita um exemplo de sua própria vida. 

O que deve ou não deve ser dito na cobertura política

Na seção final da mesa, quando as perguntas foram abertas ao público, os entrevistados responderam à uma pergunta do estudante de jornalismo Guilherme Hofer, que questionou sobre a mudança da forma como a imprensa cobre escândalos — antes a Lava Jato, hoje o Master — e a precaução para não criar uma narrativa do bem x mal.

Gisele iniciou a resposta, afirmando que o jornalismo pouco aprendeu com o ocorrido na Lava Jato, em que as capas de jornais estampavam fotos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Sérgio Moro. Dimitrius completou, após ser questionado por outra estudante, dizendo que os veículos divulgam dados muito pessoais do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que, muitas vezes, não são necessários para o conhecimento público.

A Semana de Jornalismo é uma iniciativa da Jornalismo Júnior que se estendeu de segunda-feira (21) a esta sexta-feira (25). O evento abordou diversos temas como, Jornalismo Cultural, Investigativo e Ambiental, produção de Documentários e novas formas de contar uma notícia . Para saber mais sobre o que ocorreu em cada mesa, acesse as matérias publicadas na editoria Sala de Imprensa deste site.

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