Jornalismo Júnior

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Semana do Jornalismo 2026 | Jornalismo Cultural: Crítica, Cobertura e Novos Formatos

Durante evento, a Jornalismo Júnior promove palestra educativa sobre jornalismo cultural e conta com nomes influentes do cinema, da música, literatura e dança
Na imagem, os convidados da mesa de jornalismo cultural da Semana de Jornalismo 2026
Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br)

Na segunda-feira (21), aconteceu a segunda mesa da Semana do Jornalismo. A palestra voltada para cultura contou com a presença dos jornalistas Roberto Sadovski, Dora Guerra e Iara Biderman. Entre os temas abordados estavam as diferentes formas de produzir jornalismo cultural, a percepção do público e a forma como as dimensões políticas impactam na escrita.

Dora Guerra é jornalista e crítica musical. Atualmente, trabalha como repórter da Pop & Arte no G1 e cria conteúdo sobre música nas redes sociais. Ao seu lado, estava Iara Biderman, escritora e crítica de literatura e dança. Trabalhou pela Folha de S. Paulo e hoje se dedica como editora da Quatro Cinco Um. Fechando a mesa, Roberto Sadovski completa o trio convidado. Especialista em cinema, esteve no comando da Set Magazine por mais de 10 anos e trabalha atualmente como colunista do UOL

Cultura e as diferentes formas de registrá-la 

No início da palestra, os entrevistados debateram as diferenças entre a escrita do jornalismo cultural e a de outras áreas jornalísticas. Todos defenderam que o processo não se diferencia das produções de temas mais sensíveis. 

Apesar de tratar de assuntos,  muitas vezes voltados ao entretenimento, o processo de pesquisa, entrevista e revisão é padrão. Iara acrescenta e enfatiza que a concisão é o elemento central da escrita, e é o que realmente se precisa aprender. 

Na imagem, Iara
Iara em seu primeiro livro de contos, “Tantra e a Arte de Cortar Cebolas”, venceu o Prêmio Biblioteca Nacional [Imagem: Nina Bozic/Jornalismo Júnior]

Dora traz suas experiências no G1 e comenta que a linguagem escrita é diferente da utilizada nos conteúdos para as redes sociais. Por trabalhar na área midiática, a jornalista diz que a necessidade de condensar as principais informações em um vídeo rápido é muito difícil. Pontos importantes são deixados de lado e a linguagem empregada no conteúdo precisa atender ao papel de contextualizar e de analisar sem perder o alcance. 

Iara traz suas experiências em redações de revistas e a ideia equivocada de que, por serem publicadas semanalmente, há mais tempo para escrever do que em jornais. A escritora discorda da opinião ao afirmar que o trabalho sempre busca notícias que estão em alta e que essa realidade pede um processo de escrita acelerado. 

Roberto relembra que a forma de escrita que mais se afasta do padrão jornalístico é a crítica. “O texto tem que ter um ritmo. A forma como você monta suas frases e aloca seus parágrafos precisa de ritmo”, afirma. 

Na imagem, a mesa mediadora do debate sobre jornalismo cultural
Ao final da palestra, os convidados responderam perguntas do público [Imagem: Nina Bozic/Jornalismo Júnior]

Nesse gênero, é preciso dar sua opinião, e assim, o texto caminha pelas experiências pessoais. Para que uma crítica ainda seja vista com credibilidade, é preciso ter um trabalho de pesquisa completo, e conhecer a produção e quem a produz, pois assim sua crítica será baseada em fatos concretos e análise crítica.

Recepção e dificuldades na interação com o público 

Com o aumento da velocidade de disseminação de informações,tornou-se necessário produzir bons conteúdos em pouco espaço de tempo. Para Iara, é  possível transmitir o máximo de informação em poucos caracteres, mas também é preciso se aprofundar no tema e fornecer o contexto primeiro. 

A principal dificuldade apontada pela escritora é o fato de que cada vez menos pessoas param para ler. Esse desinteresse é apontado como o principal fator para o surgimento de fake news e clickbaits. Quando o foco passa a ser a audiência do público para consumir as matérias, o jornalista opta pelo uso de recursos sensacionalistas para chamar mais atenção.

Dora Guerra cita que o público está menos disposto a interpretar os textos. Ser compreendido de maneira certa pela maioria das pessoas é um dos principais desafios da profissão. Este trabalho fica ainda mais difícil quando enfrenta distorções feitas pelos leitores, que buscam criticar as informações dadas.

Os convidados afirmam que as críticas sempre existiram, mas a internet foi responsável por dar mais espaço. Dora aponta que o papel jornalístico é manter a honestidade e integridade das opiniões, sem considerar a influência de terceiros. 

Outra dificuldade explorada pelos convidados foi a de manter a ética jornalística diante de conflitos de interesse. Estar no mercado cultural envolve, muitas vezes, conviver diretamente com as pessoas nas quais se analisa o trabalho. Dora explica que o G1 tem um cuidado minucioso com a escala de entrevista e críticas. 

Na imagem, Dora Guerra, repórter do G1
Ao final da palestra, os convidados responderam perguntas do público [Imagem: Nina Bozic/Jornalismo Júnior]

O jornalista tem a liberdade de escrever, sem receio de ter que entrevistar o criticado logo após. Ainda assim, a jornalista afirma que falar sobre música desperta um lado pessoal para quem escuta. Omitir sua opinião por medo de perder contatos não é uma escolha, afirma Dora. 

Os palestrantes também deram dicas aos estudantes de jornalismo sobre como aprimorar a escrita e ter cada vez mais confiança. Os tópicos mais levantados nessa questão foram a construção de repertório, a exploração de diferentes nichos e não consumir apenas aquilo que agrada. 

Também é essencial que o crítico de um tema específico conheça outros aspectos da cultura, pois as artes se interligam em determinados momentos. O poder da crítica foi exaltado como uma forma de direcionar o olhar de quem está lendo. Assim, o papel do crítico exerce uma função mais analítica do que de opinião.

“Você tem o poder da palavra, então diga aquilo que ela realmente é e significa.”
Iara Biderman

Política na cultura nacional

Na mudança de tom das perguntas, a mediação foi para um caminho mais político e abordou como isso afeta o processo de escrita dos jornalistas. 

Roberto cita que a cultura fica instável quando a política passa por crises. Se o governo em vigor não valoriza as produções artísticas e não destina investimentos para essa área, a cultura brasileira passa a ser inacessível. Mesmo que essas manifestações permaneçam em tempos adversos, faltará público para prestigiar e dar vida às obras.

“Não tem como dissociar porque tudo é política” 
Roberto Sadovski

Na imagem, Sadovski, crítico de cinema
Sadovski entrevistou grandes nomes do cinema, como Tom Holland, Anthony Hopkins e Keanu Reeves ao longo da carreira [Imagem: Nina Bozic/Jornalismo Júnior]

O jornalista também pontua que o cinema sofre com essa falta de visibilidade governamental. O crítico afirma que quando não se olha para a própria cultura e não se reconhece valor na história cinematográfica brasileira, o investimento para a produção desse tipo de filmografia cai. 

“Nem sempre vamos ser indicados ao Oscar, mas é preciso continuar construindo (o cinema brasileiro)”, afirma. A cultura é uma das formas de mostrar as marcas históricas de uma sociedade. Quando se abre a mão da consciência política, também se abre mão da cultura. 

[Imagem da capa: Nina Bozic/Jornalismo Júnior]

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