Por Loren Tangi (lorentangi@usp.br)
Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 2026), nova adaptação do livro homônimo da autora Jane Austen, estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 29 de outubro, e revisita de forma cativante uma história que continua viva e atual mesmo 215 anos após seu lançamento. O filme estrelado por Daisy Edgar Jones e Esmé Creed-Miles traz uma angulação mais melancólica e sensível de uma narrativa familiar.
A obra segue a história das irmãs Dashwood, que têm suas vidas profundamente influenciadas por uma sociedade patriarcal, reflexo da época em que a obra de Austen foi escrita. Junto de sua mãe e irmã mais nova, a família Dashwood encontra-se desamparada após o falecimento do pai, chefe da família, e toda a herança ser herdada por seu meio-irmão, por leis da época, apenas homens teriam esse direito. Dentro desse contexto conturbado, a trama explora o relacionamento entre as irmãs e a forma, muito distinta, como as personagens observam o mundo e lidam com suas emoções.
O nome Razão e Sensibilidade evoca um retrato exato de Elinor e Marianne. A primeira, a irmã mais velha, que assume desde cedo a responsabilidade de gerir e organizar a família diante da nova situação, sempre guiada por sua razão, e Marianne, a irmã do meio, que sonha com um amor ideal e tem suas ações completamente influenciadas por suas emoções. Apesar de personalidades opostas, o filme desenvolve de forma muito íntima o relacionamento e as histórias individuais das irmãs.
“Nossa diretora e nossas produtoras são todas mulheres. Então, havia uma sensação, uma espécie de união que cultivamos, que era tão linda.”
-Daisy Edgar-Jones em entrevista ao BAFTA
Diante da situação, a família se vê obrigada a se mudar para outra cidade, casa oferecida por Sir John Middleton (Turlough Convery), um primo distante. Porém, essa não se mostrou uma solução para todos os problemas, devido a situação da casa e de suas finanças, a segurança financeira ainda estava dependente do casamento das irmãs.
Elinor deixa em Norland, Edward Ferras, George MacKay, por quem sente “grande estima”. Longe de Edward, apesar de nutrir esperança por uma visita ou uma carta, a personagem não demonstra seus sentimentos de forma clara, priorizando sempre a prudência em suas relações. Por outro lado, Marianne conhece Coronel Brandon e John Willoughby, Herbert Nordrum e Frank Dillane respectivamente, e, ao contrário de sua irmã, vive intensamente e, pode se dizer que, com menos prudência.
“É assustadora a ideia de que a felicidade de alguém dependa inteiramente de outra pessoa.”
-Elinor Dashwood, Razão e Sensibilidade
As cenas de Mrs. Jennings, vivida por Fiona Shaw, e Sir John Middleton, trazem ao filme um alívio cômico. Suas atitudes exageradas e esforços para cuidar da família Dashwood em Devonshire, conseguem tirar risadas sinceras de todo o cinema, um contraste muito válido com a atmosfera melancólica do filme. A irmã mais nova, Margaret Dashwood (Chloë Pirrie), também chama atenção do público por sua sinceridade, com respostas diretas e precisas, mesmo tão jovem.
O romance da obra não deixa a desejar, a atuação de Daisy e George transparecem uma conexão genuína e convincente. Esme Creed também entregou toda a intensidade característica de Marianne em suas relações, que com todas as suas reviravoltas deram ao filme uma intensidade necessária para romper com a monotonia da narrativa, que pode não agradar a todos, mas se mostra necessária e compatível com a história.
A direção de Georgia Oakley, e de arte, feita por Francesca Di Mottola, transmite uma ambientação e cenas menos romantizadas ou idealizadas, quando comparadas com a versão de Ang Lee, Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 1995), que utilizou cores vibrantes e uma luz mais intensa. A estética se aproxima do realismo, com cores mais sóbrias e neutras, além de cenas gravadas de ângulos não convencionais, como o ângulo baixo, que deixam o filme visualmente interessante.Todos esses elementos contribuem para a diferenciação do filme e para a construção da atmosfera narrativa.
A escolha de atores também se destaca. Com o chamado iphone face, – expressão usada para definir elencos que não parecem viver na época da obra devido a sua aparência moderna e padronizada — a escolha do elenco em um filme de época passou a se tornar uma preocupação. Em Razão e Sensibilidade, todo o elenco tem uma aparência natural, que conversa com a obra.
O roteiro consegue desenvolver os personagens de forma profunda, ele lida cuidadosamente não só da relação entre as irmãs, mas para isso, ele desenvolve as personagens individualmente. Marianne não é retratada como uma pessoa simplesmente inconsequente, mas como alguém mais sensível e sonhadora. Elinor não é fria, ela apenas coloca a realidade e a razão acima de sua própria felicidade. Os momentos de tensão e desentendimento ao longo da história, não levam o público a tomar lados ou deixar de gostar de alguma das personagens, eles apenas dão luz a uma relação complexa, mas repleta de afeição, entre pessoas que lidam com a vida de forma diferente. As atrizes Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles não apenas interpretam muito bem e transparecem honestidade nas personagens, como também se encaixam perfeitamente nos papéis de irmãs.
O roteiro também nos leva a crer que Edward Ferras é quase tão altruísta e responsável quanto Elinor, e George MacKay traz o tom exato de um par romântico que saiu diretamente dos livros de Jane Austen. Coronel Brandon (Herbert Nordrum) é um personagem misterioso e mais racional, o oposto de Marianne Dashwood, já John Willoughby (Frank Dillane) é a impulsivo e emocionado, quase como a versão masculina da personagem, mas com uma índole mais questionável. Ambas as atuações se encaixaram perfeitamente com a narrativa, e a de Herbert Nordrum em especial, poderia ganhar mais destaque dentro dos acontecimentos.
Assim, a adaptação também tem pontos que podem não agradar a todos. Com o foco no relacionamento das irmãs, as relações românticas, principalmente de Elinor e Edward, principais pares românticos da trama, parecem não ganhar espaço o suficiente para seu desenvolvimento e para que o público se encante pelo casal.
Mesmo assim, as cenas existentes são bem desenvolvidas, mas não é uma solução para a falta de tempo de tela desses personagens.Com todas as suas nuances, o filme se encaixa na lógica de outras adaptações da autora e promete conquistar esse público, com seus personagens identificáveis, apaixonantes e sua ambientação característica. O relacionamento das irmãs Dashwood é profundo e as personalidades marcantes são elementos com os quais o público pode facilmente se identificar ou ao menos se sensibilizar. A estética do filme é marcante e conversa com a época e com a história da obra. Georgia Oakley apresenta novas nuances da história sem se desviar ou perder a essência da narrativa.
Razão e Sensibilidade já está disponível nos cinemas brasileiros, confira o trailer:
*Imagem de Capa: [Reprodução /TMBD]



