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“Na Trilha dos Orixás”: o que a sabedoria ancestral revela sobre dilemas atuais?

Livro de Ernesto Xavier reúne mitos e reflexões acerca da filosofia do candomblé e aproxima o leitor de debates sobre amor, saúde mental, identidade, violência e ancestralidade
Capa de livro
Por Manuela Neves Miranda

“Na trilha dos orixás: sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo” (Goya, 2026) parte dos ensinamentos dos orixás – descritos pelo autor como “ancestrais divinizados” e “forças da natureza” – para propor reflexões acerca de comportamentos atuais. No decorrer da obra, Ernesto Xavier também apresenta saberes e ritos das espiritualidades afro-brasileiras que foram, por muito tempo, ignorados e desprezados.

O escritor afirma que o conceito de orixá foi trazido ao Brasil durante o período da escravidão por meio de etnias de territórios onde eram falados idiomas de origem iorubá. Segundo Ernesto, a chegada e a permanência da filosofia dos orixás no Brasil são uma prova de que essas divindades nunca abandonam seus filhos. Isso porque, se essas figuras divinas conseguiram resistir aos porões dos navios negreiros e às mazelas do escravismo, ainda que a dignidade dos povos traficados tenha sido arrancada nessa estrutura, é porque representam algo indissociável desses indivíduos.

Ele ressalta que, na África, os cultos aos diferentes orixás não eram reunidos em uma religião central: “o conceito de adorar aos ancestrais divinizados estava espalhado por todo o território nagô-iorubá, mas não havia uma religião que os reunia em um culto único”. De acordo com o livro, alguns orixás serem celebrados em determinadas localidades não significava que também seriam em outras.

Logo na apresentação, o autor declara que escreve a partir de uma perspectiva do candomblé — especialmente de origem nagô-iorubá —, religião de matriz africana voltada ao culto dos orixás como ancestrais divinizados, aos rituais tradicionais e à iniciação religiosa. Ou seja, o conhecimento é aprendido por meio da experiência nos terreiros, dos ritos e da comunidade, não apenas pela teoria. Essa é a visão que orienta a obra.

A umbanda é mencionada como contextualização religiosa. O livro a classifica como uma religião afro-ameríndia formada pelo sincretismo entre diferentes religiões, como espiritismo kardecista, catolicismo e práticas associadas a guias espirituais — caboclos, exus entidades e pretos-velhos —, além de referências a espiritualidades indígenas.

No Brasil, a escravidão dizimou muitos desses cultos originados há milênios. Reuniões eram proibidas, histórias de demônios eram criadas, o cristianismo era imposto e milhões de africanos e de seus descendentes morriam. Para Xavier, acabar com o que dava esperança para os escravizados era um plano político de domínio.

“Ao tentar matar a fé nos orixás dos africanos […], [os colonizadores] procuravam cortar o laço com a terra de onde esses povos vieram, […] com as forças que os mantinham em pé, com o amor que os unia. Assim seria mais fácil dominá-los.”

Orixá é amor, p. 23

Os orixás e o axé

Segundo a publicação, mais do que ancestrais divinizados, os orixás são arquétipos que vivem no interior dos indivíduos. Esses antepassados, ao longo das suas trajetórias, cometeram erros, contradisseram-se e descobriram as suas potências a partir da dor. A filosofia desses guias propõe o culto a eles, não porque eles são superiores às pessoas comuns, mas porque já viveram o que se tenta entender hoje, e porque oferecem caminhos possíveis para processos de evolução pessoal.

Desenho de vários orixás.
As divindades transmitem suas orientações aos humanos por meio do Ori – o orixá interno; a consciência individual, por meio da qual é feito o alinhamento com os outros orixás [Imagem: Reprodução/ori.artes/Instagram]

As narrativas mitológicas, denominadas pelos iorubás de ‘itãs’, são a ferramenta mais utilizada na obra para abordar as características dos orixás e para demonstrar o poder do axé – “força vital que circula em tudo o que existe e que precisa estar em movimento para gerar equilíbrio”, segundo o autor – de cada um deles.

O livro conta que os orixás foram criados por Olodumare, o deus supremo, para que a vida dos seres humanos tivesse sentido. Os orixás regem todas as energias que circulam a vida e, por isso, estão ligados aos indivíduos até o dia de suas mortes. Segundo a cosmovisão do candomblé, depois de morrer, as pessoas vão para o Orum – o plano invisível onde residem as divindades – para encontrar os orixás e Olodumare. 

Outro conceito destacado é o de orixá de cabeça. Basicamente, ele é entendido como a divindade que mais acompanhará e orientará determinada pessoa ao longo de sua trajetória e que rege o axé que ela mais precisará.

Foto de um jogo de búzios.
A identificação do orixá de cabeça é feita por meio do jogo de búzios. Essa determinação, contudo, não significa que o indivíduo só terá contato com essa divindade, haja vista que diferentes energias — vindas de diferentes deuses — poderão ser requisitadas de acordo com as necessidades de cada um [Imagem: Toluaye/Wikimedia Commons]

As faces das iabás

As orixás femininas recebem o nome de iabás. Os itãs protagonizados por Oiá, Iemanjá, Oxum, Nanã e Obá têm destaque em “Na Trilha dos Orixás” e demonstram como a tradição iorubá atribui força, protagonismo e cuidado às mulheres, que são as principais lideranças nos terreiros. Estrategistas natas, têm várias de suas vitórias em guerras descritas na obra.

O livro traz mitos que abordam diferentes formas de relacionamento, maternidade e liberdade feminina e estabelece uma semelhança com dificuldades enfrentadas pelas mulheres na contemporaneidade, como depressão pós-parto, violência doméstica e a permanência em relações que as anulam.

Oiá (ou Iansã) representa a mulher que vai à luta, que assume a liderança naquilo que se propõe a fazer. Ela foi a primeira mulher a comer bolas de fogo e, por isso, a principal oferenda ligada a ela é o acarajé – em iorubá: àkárá: bola de fogo; ije: comer –, que leva o axé para quem o ingerir. Para as mulheres que o produzem, o axé é devolvido por meio da liberdade e do dinheiro gerado, que garante o sustento das famílias dessas líderes.

Foto de acarajés com flores.
O acarajé foi responsável pela alforria de milhares de escravas de ganho no Brasil. Segundo o livro, elas saíam para vender o alimento e, após pagarem a quantia estipulada aos senhores pelas vendas, juntavam o dinheiro que sobrava para comprar a própria alforria e a de sua família [Imagem: Toluaye/Wikimedia Commons]

A maternidade surge de maneira menos idealizada do que costuma aparecer na sociedade. É resgatada a história de Nanã, a criadora da lama que moldou o homem, a qual, por ter engravidado, foi abandonada pelo marido Oxalá, que rapidamente se apaixonou por Iemanjá. Ao perceber que o filho nasceu doente e que não teria rede de apoio, ela rejeitou o bebê, Omolu, que foi abraçado e criado pela madrasta. O itã permite uma reflexão acerca do papel das mães adotivas, além de abrir espaço para um questionamento: Nanã, a iabá que ajudou a criar a humanidade, deixou seu papel de mãe quando abandonou seu filho recém-nascido?

Foto de várias mulheres e homens olhando para a câmera.
Um dos itãs conta a história de quando Iemanjá precisou fugir para se salvar do marido, que bebeu, a violentou e a perseguiu. Durante sua fuga, a iabá recorre aos ensinamentos de sua mãe, Olocum — senhora dos oceanos profundos —, e vai encontrá-la no mar [Imagem: Tatiana Azeviche/Wikimedia Commons]

Iemanjá, que, segundo o itã, foi quem cuidou da cabeça de Oxalá quando este adoeceu, é considerada guardiã da saúde mental e da clareza do pensar no capítulo “Ori e o bem-viver: caminhos para a saúde da mente e do espírito”. Xavier afirma que “quem conhece a própria cabeça, quem cuida do seu Ori, tem governo sobre a própria existência”. 

“Vivemos voltados para fora e esquecemos que dentro da cabeça mora o sagrado.”

Ori e o bem-viver, p. 106 

Lições de amor

O autor lembra que o amor entre os orixás é feito de encontros e desencontros, assim como acontece com os humanos. O mito de Xangô e Obá é um exemplo de conflito amoroso narrado no livro. Obá, desesperada para conquistar o amor absoluto do marido, acredita na mentira de Oxum, a segunda esposa, de que Xangô apreciava uma sopa preparada com um pedaço da orelha feminina. A mulher corta a parte do próprio corpo, cozinha a sopa e serve ao marido. Xangô fica enojado com a atitude de Obá e, então, ela percebe que foi enganada por sua rival.

É proposta uma reflexão acerca do amor incondicional, que é capaz de destruir uma parte de si para caber no que se pensa ser o desejo do outro. Obá é senhora das águas revoltas e uma guerreira imbatível, mas, ao tentar ser perfeita para Xangô, perdeu parte da sua identidade.

“O amor, quando é verdadeiro, não exige que ninguém se diminua. Ele se constrói no encontro entre potências, não no sacrifício de uma delas.”

Entre rios, ventos e paixões, p. 75

Se a história de Obá discute o risco de se anular pelo outro, a paixão vivida entre Oxum e Oxóssi – o orixá caçador – conduz a uma reflexão sobre separações. Acostumada a ser admirada pelos homens, Oxum se encanta justamente pelo caçador taciturno que parece não notar a beleza da mulher. Para chamar sua atenção, disfarça-se de caçadora e o conquista pelo suposto conhecimento da mata. Eles seguem juntos mesmo após o disfarce de Oxum ser revelado, mas as diferenças entre os dois tornam a convivência um martírio.

Mesmo após o fim da relação, os dois preservam uma dinâmica de respeito mútuo. Aqui, o mito é contado para mostrar que o rompimento de laços pode ocorrer sem destruir, necessariamente, a dignidade de quem amou.

As formas de ser masculino

As histórias dos oborós — os orixás masculinos — questionam a ideia de que há apenas uma maneira de ser homem. Por meio dos itãs, a obra descreve masculinidades atravessadas por diferentes comportamentos e olhares para a vida. Coragem, força, sensibilidade e arrependimento, por exemplo, aparecem como características que coexistem no masculino. 

“Erra quem acha que devemos ser fortes sempre e que a violência e o destempero são características de todos os oborós, como se a energia masculina significasse brutalidade, crueldade e dureza.”

Masculinidades e seus padrões em xeque, p. 44

O mito de Ogum ensina a importância do equilíbrio entre força e paciência. Rei e maior guerreiro de Irê – cidade localizada no sudoeste da Nigéria -, Ogum retorna à sua cidade após passar sete anos em guerra. Faminto e exausto, esperava ser recebido com festa, mas tudo o que havia era silêncio. Ninguém olhava para ele. Pensando que tinham esquecido do seu rei, interpretou a cena como ingratidão e, tomado pelo orgulho e pela ira, revoltou-se e matou parte dos seus súditos. Somente depois descobre, pelo seu filho, que o silêncio era um rito anual de homenagem ao próprio Ogum.

O rei percebeu como errou e, envergonhado, fincou sua espada na terra, que o engoliu e o encaminhou ao Orum, onde ele virou orixá. A narrativa demonstra que os indivíduos, quando trabalham a capacidade de escuta e compreensão, podem evoluir e abandonar comportamentos antes normalizados. De acordo com Xavier: “O orixá Ogum nasceu quando ele teve consciência de que a ira o fez tomar a pior decisão de sua vida”.

Exu demonstra que a masculinidade também está associada à criatividade, à transformação e à capacidade de lidar com o imprevisível. Sua figura desafia o padrão de objetividade e controle esperado dos homens pela sociedade. Na tradição iorubá, Exu surge antes do tempo, antes da razão; ele aparece quando o universo era apenas caos e, por isso, seu comportamento não obedece às noções sociais de bem e mal. O autor o descreve como aquele que coloca os humanos diante de escolhas. Por isso, o orixá é invocado antes de rituais e decisões importantes. A reverência a esse símbolo de transformação e fartura está presente na oração: “Quem tem riqueza reserva para Exu a sua parte. Quem tem felicidade reserva para Exu a sua parte”, citada na obra.

Os missionários cristãos que estiveram em território iorubá desfiguraram completamente o real significado de Exu. Familiarizado com o caos, com a liberdade e com o prazer, esse orixá foi associado ao demônio e foi perseguido pelo imaginário cristão. Por esse motivo, Xavier afirma que Exu é o mais injustiçado dos orixás. De acordo com o autor, “Exu voltou e todos compreenderam que, para existir estabilidade, era necessário o caos.”

A obra define os três irmãos, Ogum, Exu e Oxóssi, como as forças primordiais da travessia humana. Eles são aqueles que regerão os caminhos. Exu cria encruzilhadas e provoca o questionamento; Ogum organiza o caos, define métodos e supera barreiras; Oxóssi, por outro lado, desperta a intuição, o silêncio atento, e nos ensina o peso das decisões – a imagem da flecha que, uma vez lançada, não retorna, simboliza a responsabilidade pelo caminho escolhido. 

Ilustração de Oxalufã.
Oxalá aparece em duas fases: Oxalufã, o ancião sábio, e Oxaguiã, o jovem guerreiro. Tal dualidade ensina que a masculinidade se expressa de formas diferentes em vida e que o tempo de amadurecimento deve ser respeitado. “O fruto amadurece na estação certa, e toda antecipação resulta na colheita de imaturidade”, diz Xavier [Imagem: Reprodução/ori.artes/Instagram]

Oxalá amplia a discussão ao trazer a dimensão da reparação dos erros e do equilíbrio. Um dos mais importantes orixás para os povos iorubás, recebeu de Olodumare a tarefa de criar o mundo, mas perdeu essa oportunidade por não fazer as oferendas devidas a Exu. Arrependido, pediu uma nova chance ao deus supremo, que lhe concedeu a tarefa de criar a humanidade. Foi Oxalá quem deu forma aos humanos com a lama oferecida por Nanã. Sua trajetória ensina que o arrependimento não reduz a dignidade de um homem; pelo contrário, pode ser símbolo de amadurecimento.

O livro também traz o itã que origina o Ritual das Águas de Oxalá, cerimônia respeitada na tradição do candomblé. Nele, Oxalá foi preso e ferido injustamente, até ser reconhecido e liberto por Xangô, que o purificou com água fresca. A cena desloca a masculinidade de um espaço de ausência de vulnerabilidade para o da dignidade que é restaurada: um poderoso orixá pode ser injustiçado e pode receber cuidado e reparação de outro homem. Oxalá é representado pela cor branca.

A morte é transição

Na cosmogonia – especulação acerca da origem do universo – iorubá, o tempo é espiral. Tudo retorna, mas de maneiras distintas. A morte, portanto, não é vista como fim, é apenas uma etapa da trajetória infinita que se traça na existência. Ao morrer, o corpo volta para a terra e a consciência para o Orum, até que assuma um novo corpo no mundo dos vivos. Segundo o livro, “Quem teme a morte teme apenas a transformação, esquecendo-se de que a vida é feita de permanentes passagens.”

Foto de pratos de comida com vasos de planta no chão.
“Axexê” é o nome do ritual fúnebre do Candomblé, que ocorre após o sepultamento do indivíduo como uma despedida. Nele, as pessoas dançam, comem e rezam em celebração ao renascimento que virá [Imagem: Toluaye/Wikimedia Commons]

Ao escrever sobre o tempo e a morte, Xavier reforça a quantidade de vezes que os prazos, os contratos e as contas determinam o tempo de cada um. Ele propõe uma reflexão acerca do adiamento dos sonhos feito em prol de uma vida cronometrada e organizada:

Podemos até entregar relatórios no prazo, mas quantas vezes já adiamos os mais alentados projetos de vida? Não é raro que administremos faturas melhor do que administramos sonhos.

O tempo é orixá, p. 121

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