Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)
A terceira produção do diretor latino-americano Jorge Thielen Armand, A Morte Não Tem Dono (2026), é a aposta da Venezuela na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Depois de sua estreia mundial na Quinzena dos Cineastas, mostra paralela e independente do Festival de Cannes, o filme chega ao Brasil para exibições na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com a presença do cineasta em sessões especiais.
A trama acompanha Caro, interpretada por Asia Argento. Após anos na Itália, a protagonista recebe a notícia da morte do pai e retorna à Venezuela, seu país de origem, para vender a plantação de cacau e a antiga mansão da família. Como herdeira legal, a personagem chega às suas terras e se depara com um grande conflito: as propriedades estão habitadas por antigos funcionários que já fizeram dali o seu lar e se recusam a sair.
Sonia (Dogreika Tovar) e seu filho Maiko (Yermain Sequera) são os principais moradores da propriedade e não querem deixá-la por se considerarem parte da família. A história, então, se desenrola em um drama político perturbador. Caro, com papéis de posse que, na prática, não têm validade alguma, adota medidas extremas para se livrar dos ex-empregados. Eles, por sua vez, não deixam também de reagir no mesmo tom.
A obra aborda temas como a herança colonial e a história de dominação latino-americana. Aqui há um paralelo claro entre a construção da riqueza da família e a própria história do país. A economia venezuelana, durante cerca de 300 anos, utilizou a exploração de indígenas e africanos escravizados em um ciclo de violência para seu desenvolvimento. Já a família da protagonista enriqueceu às custas do trabalho forçado de imigrantes e nativos em suas plantações quilométricas.
Em meio a um confronto de classes desenvolvido por Armand, a escolha da personagem “europeizada” se torna ainda mais interessante. Caro destoa entre os habitantes da cidade rural e isolada onde seu latifúndio se encontra. Com um chapéu de cowboy, botas pretas de cano alto e um ar soberbo, a intenção semiótica aqui é clara: remeter a personagem a um senhor colonial.
Em dado momento da trama, quando Caro tenta prestar queixa da “invasão de estranhos em sua propriedade”, a policial a quem faz a denúncia ironiza o visual e atitude da proprietária: “Você parece uma colonizadora com essas roupas, só falta o chicote!”.
A personagem tem uma construção bem pensada. A partir de contatos acalorados com os ex-funcionários e revelações comprometedoras sobre seu pai, Sonia e seu filho, traços abomináveis da protagonista começam a aparecer progressivamente. Há uma dificuldade dolorosa de reconhecer os direitos e a existência daqueles que permaneceram naquele lugar. Para ela, a terra pede por um dono que não pode ser a dos ocupantes que lá estiveram durante sua ausência. Os ex-funcionários são intrusos e, em sua visão, não merecem respeito ou posse. Já ela pode fazer o que bem entender com o latifúndio. Ele é (ou precisa) ser seu, seja qual for a circunstância.
Há cenas na narrativa que são mais diretas na representação do ciclo de violência que ronda a mansão. A vinda da herdeira foi repentina e, de uma hora para a outra, Maiko é expulso de seu cômodo para que este fosse cedido à estadia da mulher. Em sua primeira noite na casa, Caro pega o menino em seu quarto e sente ódio da criança por entender a atitude como uma afronta. A personagem, então, pressiona o rosto do garoto sobre a cama e, em um acesso de fúria mesclado à sua própria eurocentricidade, chega a corrigir a pronúncia do nome dele: “Não é Maiko, é Michael”.
A fotografia e a ambientação do filme são seus pontos altos. Os enquadramentos da floresta, marcados por tons azulados e esverdeados, conferem às imagens um aspecto naturalista, enquanto os planos da mansão familiar evocam a herança colonial que atravessa a narrativa. A partir dessas características, a obra se aproxima do subgênero “gótico tropical”, definido pelo diretor, durante um debate no Festival Tauron Nowe Horyzonty, como uma estética em que “a sensibilidade gótica de uma mansão em ruínas se transpõe para o calor e o suor dos trópicos”.
A Morte Não Tem Dono parece consolidar seu tom naturalista por meio de composições visuais que retomam constantemente três dos quatro elementos fundamentais da natureza. A água corrente, o fogo das lareiras crepitantes e a terra aparecem de diferentes formas ao longo da narrativa, seja em planos próximos do solo, seja nas cenas em que Caro surge coberta por matéria orgânica.
Além disso, um personagem sem nome, interpretado por Arturo Rodriguez, funciona como um fantasma histórico. Enquanto Caro mal reconhece a existência dos antigos funcionários da casa, essa figura parece lembrá-la de que a mansão foi erguida sobre o sangue daqueles que vieram antes, evocando as almas atormentadas dos indígenas e dos africanos escravizados que trabalharam nas minas e plantações de cacau venezuelanas séculos atrás.
O problema é que toda a força das imagens não encontra o mesmo fôlego no roteiro. O ritmo lento até ajuda a construir uma atmosfera de mistério, mas a história perde força no final, quando deixa sem resposta questões que ela própria levantou.
Os primeiros 30 minutos são cheios de vida e personalidade. Além de abordar temas interessantes e relevantes, o longa mistura faroeste, thriller e horror de um jeito que desperta a curiosidade e faz o espectador querer descobrir até onde aquela história pode chegar. Há planos marcantes que alimentam essa expectativa. No desfecho, no entanto, parecem trechos soltos, sem uma conexão clara com o restante da obra.
Essa fragilidade também aparece na maneira como a história é contada quase exclusivamente pelo olhar de Caro. Ao concentrar tanta atenção na herdeira, o roteiro deixa de lado Sonia, a antiga funcionária que agora ocupa a propriedade. Por mais que tenha os argumentos mais legítimos e as nuances mais interessantes nessa disputa por terra e herança, a personagem acaba reduzida a um papel pouco desenvolvido. Quando as duas mulheres se afastam no terço final, o longa perde a oportunidade de construir seus conflitos frente a frente. Com isso, deixa em segundo plano uma personagem que poderia dar muito mais força política e dramática à disputa de classes que a própria trama se propõe a discutir.
No fim, A Morte Não Tem Dono é um filme de enorme força visual, mas que acaba desperdiçando parte de seu potencial político ao confundir ambiguidade com falta de resolução. O “gótico tropical” de Jorge Thielen Armand rende imagens marcantes, da floresta às ruínas da mansão, e faz com que cada espaço pareça carregar as marcas de um passado violento. É uma pena que o roteiro não consiga acompanhar tamanha força.
O que começa como uma promessa instigante, cheia de frescor e possibilidades, termina sem dar aos conflitos o peso que mereciam. Ao apostar tanto no simbolismo e pouco no desenvolvimento da história, o longa deixa aquele gosto amargo de algo que poderia ter sido muito mais.
A Morte Não Tem Dono foi exibido na 50º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/Lucky Number



