Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)*
Depois de meses de campanha — que envolveu um dos maiores escândalos da história do Supremo Tribunal Federal (STF), reviravoltas nas pesquisas e narrativas religiosas — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu vice Geraldo Alckmin (PSB) venceram a disputa à Presidência do Brasil contra o oponente Flávio Bolsonaro (PL) e seu vice Alfredo Gaspar (PL) neste domingo (25).
Com 51,77 % dos votos válidos, o petista conseguiu 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio. Foi também uma das votações mais acirradas da história do Brasil, com cerca de diferença de votos. É também a primeira vez na história brasileira em que o candidato vencedor do primeiro turno não mantém o favoritismo na segunda etapa.
Brasil continua dividido pelo muro da polarização
Lula foi eleito para seu quarto mandato, algo nunca feito antes, mas a vitória não significa um acordo do Brasil com o petista. Ela vem em um momento de extrema polarização no país, em que os dois principais candidatos são altamente rejeitados por grande parte da população. Ambos, Flávio e Lula, protagonizaram uma disputa única — um presidente três vezes eleito e muito rejeitado, contra o filho de seu antigo oponente, agora preso por tentar um golpe de Estado.
Pesquisas iniciais, realizadas nos primeiros momentos do período eleitoral, apontavam a possibilidade desse cenário. O levantamento inicial Datafolha, em 21 de agosto, indicava 47% dos votos para Lula e 43% para Flávio, na disputa de segundo turno. Outras pesquisas, como a Quaest, apontavam vitória do presidente Lula em diversos estados, com uma pequena margem de diferença para o oponente bolsonarista.
Mas os números mudaram ao longo dos meses. Durante o final de agosto e o início de setembro, devido aos escândalos envolvendo o Caso Master e à popularidade repentina de Augusto Cury (Avante), os números de intenção de voto de ambos os candidatos oscilaram, e, em algumas pesquisas, Flávio chegou a ultrapassar Lula, em números totais — sem a margem de erro.
As últimas pesquisas, realizadas no final de setembro, mostraram um cenário de empate técnico no segundo turno, com Lula à frente por poucos pontos, ou até décimos, sem considerar a margem de erro de dois pontos percentuais.
Polêmicas religiosas e crise no STF
Durante os meses de campanha e nos antecedentes, o Caso Master e as ligações de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, a quem o senador teria pedido dinheiro para a produção do filme biográfico de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), abalaram o cenário político brasileiro. Depois, foram divulgadas relações do banqueiro com ministros do STF, incluindo Alexandre de Moraes.
Às vésperas do pleito, em setembro, houve notícias ligando Flávio a um projeto de desvinculação de Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil, sem provas concretas e evidências que comprovem o fato. Segundo pesquisas feitas após a comoção, Lula cresceu dentre os eleitores católicos, enquanto o seu oponente manteve-se forte entre os evangélicos.
Inicialmente, Lula não iria disputar a reeleição
Em 2022, quando estava em campanha eleitoral para seu 3º mandato, o atual presidente afirmou, em entrevista à Rádio Metrópole, da Bahia, que “quando chegar em 31 de dezembro de 2026, que a gente for entregar esse mandato para outra pessoa, esse país estará bem”. Lula falou indiretamente sobre a possibilidade de uma futura disputa à reeleição.
O petista afirmou que só tinha quatro anos para realizar todas as políticas que pretendia à época. Ele ainda disse que, em quatro anos, a eleição seria disputada “por gente nova” e que teria quatro anos de sua vida para cuidar do povo brasileiro e entregar o Brasil “tinindo”.
Ainda no segundo mês de mandato, em fevereiro de 2023, Lula refez seu discurso e disse que não descartaria uma possível reeleição. Em entrevista ao UOL, o presidente afirmou que era necessário “construir novos candidatos para 2026”, citando Rui Costa (PT), ex-Ministro da Casa Civil); Wellington Dias (PT), Ministro de Estado do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome); e Flávio Dino (PSB) Ministro do Supremo Tribunal Federal como “gente da maior qualidade” para um futuro cargo de presidência.
A vitória de Lula ocorre quatro anos após a eleição mais acirrada da história brasileira até então, quando ele venceu o pai de Flávio, Jair Messias Bolsonaro, que buscava a reeleição. Jair foi o primeiro presidente a não conseguir se reeleger desde que a possibilidade de disputar um segundo mandato consecutivo foi instituída, em 1997. Com a vitória, Lula mantém-se como o segundo brasileiro que ocupou o cargo da presidência por mais tempo, atrás somente de Getúlio Vargas, e o maior governante eleito de forma democrática.
[Imagem de capa:Ricardo Stuckert/PR]
Esta reportagem foi produzida pela repórter João Paulo Mansur sob a supervisão da diretora de redação Gabriela César.


