Jornalismo Júnior

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48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos | Cerimônia de Premiação celebra as histórias que encontraram lugar no relato jornalístico

Realizada no Teatro de Arena da PUC (TUCARENA), no dia 20 de outubro, premiação consagrou dez obras jornalísticas, fez quatro menções honrosas e homenageou os profissionais Jamil Chade e Paulo Caruso
Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br) e Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)

Na última terça-feira, 20 de outubro, aconteceu o 48° Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, no Teatro de Arena da Pontifícia Universidade Católica (TUCARENA). Foram premiadas dez produções jornalísticas e quatro menções honrosas, nas categorias: arte, fotografia, áudio, multimídia, vídeo, texto e livro-reportagem. A premiação também concedeu o prêmio especial por relevantes serviços prestados ao repórter Jamil Chade e homenageou, in memoriam, o cartunista Paulo Caruso.

A solenidade da premiação foi conduzida por Angelina Nunes, jornalista e conselheira do Instituto Vladimir Herzog, e Aldo Quiroga, apresentador na TV Cultura e professor da PUC. Durante o evento, os apresentadores chamaram atenção para a defesa da democracia nas eleições e para a necessidade de uma imprensa profissional, livre, ética e engajada.

Em um primeiro momento, foram chamados ao palco representantes das instituições apoiadoras para fazerem seus pronunciamentos: Petrobras, Caixa Econômica Federal, Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ouvidoria da Polícia Civil, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (Sjsp), e Lucas Herzog, neto de Vladimir.

Thiago Tanji, presidente do Sjsp, fez o pronunciamento oficial da comissão organizadora, no qual relembrou a origem do prêmio e criticou a grande mídia que prioriza o lucro em detrimento do interesse público.“Este prêmio nasceu da morte de um jornalista, mas celebra a vida, a liberdade e o direito de existir […]. As revelações envolvendo o maior escândalo financeiro da história do país [Caso do Banco Master], jogaram luz sobre a relação de proprietários da grande mídia com banqueiros corruptos. Não podemos pedir transparência ao poder público e permitir opacidade por parte da imprensa”, destacou.

O sindicalista também enfatizou a importância do segundo turno das eleições presidenciais para a manutenção da democracia e da liberdade. Ao final, declarou apoio ao candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Homem pardo com camisa branca e óculos falando ao microfone
“Estaremos diante das urnas, justamente em um 25 de outubro”, observou Tanji – dia em que, há exatos 51 anos, Herzog foi assassinado [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Da correspondência internacional ao humor

O primeiro premiado da noite foi o repórter e escritor, Jamil Chade. Residente em Genebra, na Suíça, Chade construiu uma carreira internacional, com enfoque para a cobertura de guerras e de questões de políticas nacional e internacional. O jornalista também é autor de livros, entre os quais se destacam Política, propina e futebol: Como o “padrão Fifa” ameaça o esporte mais popular do planeta (2015, Objetiva), O caminho de Abraão: Fé, amor e guerra em travessias separadas pelo tempo (2018, Planeta) e Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana (2025, Nós).

A escritora Conceição Evaristo foi responsável por homenagear o repórter. Em seu discurso, a escritora destacou o momento histórico vivido pelo país e as diferentes lutas por liberdade no Brasil, desde a escravização da população afro-brasileira até a ditadura cívico-militar, que assassinou Vladimir.

Homem e mulher se abraçando no palco
Além de prestar uma homenagem ao jornalista, Conceição também foi responsável pela entrega do prêmio [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Chade falou sobre a crise do jornalismo brasileiro. Segundo o correspondente, será necessária muita coragem dos repórteres e das redações para escolher um “lado”: o da democracia, dos direitos humanos e da verdade. Caso contrário, todos serão suprimidos pela desinformação e pela guerra de narrativas em curso nas redes sociais. 

Quando questionado sobre a ausência de uniformidade na cobertura internacional, o jornalista reconheceu que, infelizmente, há uma concentração da atenção midiática em territórios mais relevantes economicamente. Para ele, o caminho para a valorização dos direitos humanos pela mídia consiste em permitir que as vítimas contem suas histórias, sem expô-las, mas dando visibilidade aos crimes cometidos contra elas.

“Se a pessoa que morreu não fala inglês, não está sentada no petróleo ou é politicamente irrelevante, não há notícia. Mas é um ser humano.”

Jamil Chade

O chargista e humorista Paulo Caruso também recebeu o troféu especial por sua dedicação às causas da Democracia, Paz, Justiça e Direitos Humanos. Formado pela Faculdade de Arquitetura,Urbanismo e Design da Universidade de São Paulo (FAUD/USP), Caruso faleceu aos 73 anos, em março de 2023.

Foi seu filho, Paulinho Caruso, que representou o pai. Ele relembrou os mais de 30 anos dedicados pelo ilustrador ao programa Roda Viva (TV Cultura), onde desenhava caricaturas dos entrevistados. Além da ética inegociável do pai, que, em 1998, pediu demissão do jornal no qual trabalhava após ser impedido de publicar uma charge criticando um dos anunciantes da empresa. “Meu pai nunca abaixou a cabeça para o capital […]. A piada que ele faria aqui com certeza é: ‘precisamos botar os bolsos para fora’”.

Dois homens brancos com roupa preta no palco
Paulinho disse que, mesmo fraco e repousando bastante por conta da quimioterapia, o pai acordava para fazer o Roda-Viva: “Era impressionante como ele se programava. Aquilo era energia vital para ele” [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

A jornalista Flávia Oliveira, ainda prestou uma homenagem a Zuenir Ventura, que faleceu em 2026. O jornalista era autor de 1968: O ano que não terminou (1988) e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). “Estamos assistindo a uma primavera de estudantes nas ruas por democracia, por direitos. Pensando nele, eu gostaria de desafiar as meninas e meninos, moças e rapazes, mulheres e homens a manterem também amanhã o entusiasmo, a persistência e o afeto. Experimentem como o Zuenir nos ensinou, em quase 100 anos de juventude”.

Imagens que denunciam a violência

Nas categorias Arte e Fotografia, as obras premiadas abordaram diferentes formas de violência e apagamento social. Em Arte, a reportagem visual O inimigo mora em casa, de Thiago Lucas, do Jornal do Commercio (PE), conquistou o prêmio. O chargista não pôde comparecer à cerimônia. A menção honrosa foi concedida a Antonio Junião, pela charge Outro jovem negro assassinado, publicada pela Ponte Jornalismo.

Homem branco de terno com óculos abraçado a homem negro de terno cinza
O fotojornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Wagner Souza e Silva, entregou a menção honrosa à Junião [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Na categoria Fotografia, Tomaz Silva, da Agência Brasil (EBC), venceu com a imagem Viúva se despede do marido morto na operação mais letal do Rio de Janeiro, que retrata uma das vítimas da Operação Contenção, realizada pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha. A ação deixou 122 mortos, entre suspeitos, civis e policiais. Ao comentar a obra, o fotógrafo afirmou que seu papel “não era simplesmente registrar a morte, mas tentar preservar a dignidade e a humanidade de Fernanda”.

A menção honrosa ficou com Eduardo Anizelli, pelo ensaio Aqueles que carregam os mortos, publicado pela Folha de S.Paulo. O fotógrafo disse que não gosta de olhar para as imagens, mas espera que elas sirvam como registro histórico da brutalidade da operação, para que uma ação como essa não se repita.

Audiovisual como ferramenta de denúncia

O projeto vencedor na categoria Áudio foi o episódio Palestina, da abundância à fome, do podcast Prato Cheio, produzido por Julia Dolce e sua equipe do portal O Joio e o Trigo. Por meio dos aspectos culinários, a obra busca traçar como a expansão do conflito entre Israel e o país árabe impactou a alimentação básica dos palestinos e, consequentemente,seus hábitos gastronômicos, principalmente pela apropriação hídrica e de terras feitas pela nação judaica. Em seu discurso, Dolce disse: “Eu dedico esse prêmio às mais de 100 mil oliveiras cortadas por israelenses nos últimos três anos”. 

Na categoria Vídeo, a obra vencedora mostrava um cenário de opressão brasileiro, residencial: Trabalho escravo doméstico: Silêncio e escravidão, produzido por Marieta Cazarré e sua equipe, da série Caminhos da Reportagem da TV Brasil. Entre os envolvidos na obra também estavam no palco Paulo Leite e Ana Graziela Aguiar, além de Araci do Amaral, Roberta dos Santos e Suzana Salomono, mulheres resgatadas e personagens do documentário.

Homens e mulheres abraçados em um palco
Aguiar reforçou: “a Justiça precisa cumprir a indenização dessas mulheres, para que elas recebam ainda em vida” [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

As menções honrosas nas categorias Áudio e Vídeo abordaram a temática do aborto legal no Brasil. Em Áudio, o reconhecimento foi concedido ao podcast da Rádio Novelo, Sala de espera: O aborto legal no Brasil sob uma nova ameaça, produzido por Bia Guimarães e equipe e recebido por Natália Silva. Ela destacou o papel do jornalismo em registrar como o menor dos abalos causados pela tentativa de impedir o acesso ao procedimento pode representar um sinal de um movimento maior, o que ela percebeu durante a produção da obra.

Em Vídeo, a menção honrosa ficou com o documentário 22 semanas, de Ângela Boldrini e equipe, publicado pela Folha de S.Paulo, que rememora o caso da criança do Espírito Santo de dez anos que ficou grávida devido à estupros de um tio e precisou realizar o procedimento em Recife, após o hospital em Vitória se recusar a executar o aborto devido a idade gestacional ter passado de 22 semanas.

Multimídia e diferentes rachaduras de um mesmo Brasil

Diferentemente das outras categorias, Multimídia, que premia reportagens especiais, premiou três obras , sem menções honrosas. Os primeiros vencedores a descerem ao palco representavam a obra Moinho de gente: A expulsão da última favela de São Paulo. A matéria aborda a desocupação da favela do Moinho em São Paulo, que ocorreu entre abril de 2025 e setembro de 2026, além de uma perspectiva diferente sobre a prisão de Alessandra Moja, uma líder comunitária local acusada de associação ao tráfico. A família, que estava no palco, e a defesa alegam inocência. Caio Castor, produtor da obra, pediu aos colegas jornalistas: “Investiguem a história de Alessandra, existem provas e questões que precisam ser esclarecidas”.

Faixa com o dizer "Alê Livre Moinho"
Com a faixa do movimento “Alê livre, Moinho vivo”, desceram ao palco parte da equipe de reportagem, membros do Comitê em Defesa do Moinho e as antigas moradoras da comunidade, Hellen do Rocio e Cíntia Bonfim [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Outra produção premiada foi Um Brasil que desmorona, de Jade Abreu e Breno Esaki, do Metrópoles. A partir da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que liga os estados do Maranhão e Tocantins, a reportagem aborda como essa falha estrutural recorrente no país afeta de tantas maneiras a população que depende ou convive ao redor dessas pontes. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Abreu contou que, inicialmente, o fio-condutor da matéria seriam os dados de infraestrutura e logística, mas que, após fazer a primeira entrevista com uma mãe que perdeu a filha, decidiu mudar o enfoque. “Eu entendi a dimensão do que era o que a gente estava falando. Isso para mim foi muito forte, foi aí que eu construí meu lead. Ela falou que a família dela “desinteirou” com a quebra da ponte. A ponte era inteira. Ela que “desinteirou” com a ponte “desinteira”. Era um Brasil que desmorona por isso.”

Mulher branca de cabelos escuros falando ao microfone
“Eu sei que falam que a gente tem que manter a impessoalidade, eu entendo tudo isso. Mas, se eu disser para vocês que durante a entrevista eu não chorei, eu ia estar mentindo” completou à Jornalismo Júnior [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Tão relevante quanto esta, é a matéria especial Ouro, escavadeiras e fuzis: Como facções e milícias dominam garimpos clandestinos na Terra Indígena Sararé, de Juliana Mori e equipe, pelo InfoAmazonia e Amazon Underworld. A obra trata do avanço do Comando Vermelho e de policiais milicianos no garimpo ilegal em áreas indígenas no Mato Grosso. Pedro Abud, que também recebeu o prêmio, agradeceu às fontes por aceitarem colocarem suas vidas em risco para darem seus depoimentos e reforçou: “As terras indígenas e as unidades de conservação do nosso país são os últimos redutos de natureza intacta, as últimas barreiras contra a destruição”.

Histórias para palavras

Na categoria de texto, também houveram dois vencedores. A primeira a descer ao palco foi Mariana Rosetti pela matéria Parto ou sentença?, da Revista AzMina, que tratava de casos de violência obstétrica na cidade de Marabá, Pará. À Jornalismo Júnior, Rosetti contou sobre o papel do jornalismo na história dessas mulheres: “Acho que dificilmente um caso como esse acontece e o primeiro lugar que essas pessoas vão recorrer é à imprensa. Então, muitas das vezes a gente acaba sendo a última esperança para tentar solucionar, reparar ou de alguma forma manter viva a memória daquela pessoa, não reduzir aquele relato à violência.”

Três mulheres abraçadas segurando um prêmio no palco
Sobre a dificuldade de conduzir e editar a entrevista, ela completa com a importância da empatia: “tentamos escolher aspas muito estratégicas para compor a matéria sem revitimizar essas famílias, mas também sem diminuir a dor que elas estavam sentindo diante daquela barbaridade.” [Imagem: Mayara Abdouni/Jornalismo Júnior]

Pela Repórter Brasil, Daniel Camargos venceu o prêmio com a matéria A foto esquecida do trabalhador amarrado em uma carvoaria do Maranhão e o elo com a Toyota. Também em conversa com a Jornalismo Júnior, ele relatou a importância da aproximação com as entidades relacionadas aos trabalhadores: “Para não chegar dando um susto, de supetão. Então eu fiz um estudo de conversar com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e com algumas pessoas que pudessem explicar para gente aquela realidade, como que a gente chega ali de uma forma mais suave. Então, em qualquer lugar que eu vou, é pedir licença para entrar.”

Encerrando a noite, desceu ao palco Ana Paula Araújo, vencedora na categoria Livro Reportagem pela obra Agressão, sobre violência doméstica no Brasil. “Esse prêmio reconhece a violência contra a mulher como uma questão de direitos humanos, como algo que tem que ser um combate de toda a sociedade”. Ela destacou ainda o orgulho que estava sentido da profissão, ao ver “um desfile de trabalhos incríveis.”

[Imagem de capa: Mayara abdouni/Jornalismo Júnior]

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