Por Jornalismo Júnior
A poucos dias do segundo turno, o país se aproxima de uma escolha decisiva, e o cenário que se apresenta exige que a imprensa vá além do registro dos fatos. O primeiro turno não revelou apenas a potência eleitoral de um projeto eleitoral da extrema direita: expôs também uma ferida aberta em nossa democracia — cerca de 33,4 milhões de eleitores abstiveram-se do direito ao voto. Se mais de um quinto do eleitorado se silencia, abre-se espaço para que o debate público seja comandado por quem faz da política instrumento para suprimir direitos.
Como estudantes de jornalismo de uma universidade pública e como uma redação formada majoritariamente por grupos minorizados, não podemos nos esconder atrás da pretensa neutralidade. O jornalismo é um dos pilares do fundamental direito à informação. É justamente ele que está sob ataque.
Não é retórica. A violência contra comunicadores é um método consolidado de intimidação: entre 2019 e 2022, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) registrou 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no país. Só em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) contabilizou 557 alertas de violação, dos quais 41,6% envolveram ao menos um membro da família Bolsonaro — entre eles o próprio Flávio. Os índices recuaram nos últimos dois anos, mas a Fenaj ainda contabiliza um caso de violência contra jornalistas no Brasil a cada dois dias e meio.
Essa hostilidade ganha contornos institucionais quando o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, defende “mudar a Constituição” para “redemocratizar esse país”. A frase soa como um prenúncio de um desmonte da Constituição Cidadã de 1988 e da submissão das instituições nacionais às vontades de um grupo político.
Esse projeto de poder tem alvos claros e declarados. No Congresso e nas redes sociais, acumulam-se ofensas e propostas que atacam a dignidade de grupos minoritários. Contra as mulheres, a violência discursiva se traduz em frases como “o feminismo hoje é inútil”, na afirmação absurda de que “nenhuma mulher morre por ser mulher” e no ataque frontal à legislação de proteção, com o argumento de que “esse pedaço de papel, que é a Lei Maria da Penha, não é o que vai defender as mulheres”. Essa retórica acompanha o avanço de mais de 80 projetos de lei no Congresso, que pretendem impor um retrocesso de quase um século nos direitos sexuais e reprodutivos. Entre eles está o PL 1.904/2024, que altera o Código Penal Brasileiro para equiparar o aborto realizado após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio simples, inclusive em casos de gravidez decorrente de estupro.
A mesma lógica da exclusão opera no ataque à comunidade LGBTQIA + e no combate ao racismo estrutural. Quando representantes eleitos sobem a tribunas públicas para propagar que “homossexualidade é pecado” e questionar “que mérito existe em você ser homossexual para ter orgulho disso?”, o efeito é alimentar o ódio. Da mesma forma, a defesa de uma meritocracia abstrata em um país marcado por desigualdades concretas –- resumida no ataque às cotas raciais como um “legado muito nocivo para as futuras gerações” — ameaça as poucas políticas de inclusão e democratização do ensino superior.
A truculência verbal se converte em violência física. Vivenciamos isso dentro de casa, na Cidade Universitária da USP, em março, quando a presença provocativa dos então vereadores, agora deputados eleitos por São Paulo, Lucas Pavanatto (PL) e Eduarda Campopiano (PL) resultou em agressões corporais cometidas por seus seguranças privados contra estudantes e diretores do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP. A tentativa de intimidar o corpo estudantil com agressões e spray de pimenta na porta do restaurante universitário mostrou que a extrema direita vê na universidade pública um território a ser subjugado à força.
Diante do risco iminente do enfraquecimento das instituições democráticas e do avanço da extrema direita, o ato de votar no próximo dia 25 de outubro deixa de ser uma formalidade eleitoral. Votar é um gesto de autodefesa e de soberania nacional.
A Jornalismo Júnior defende a universidade pública, o jornalismo independente, a ética profissional e o direito à vida de cada cidadão. Neste segundo turno, convocamos a comunidade acadêmica e a sociedade civil a exercerem o voto de forma consciente e firme. A Jornalismo Júnior vota e posiciona-se inegociavelmente pela democracia.
