Por Luiza Torre (luizatorre@usp.br)
Cerca de 20 anos após o fim da década de 1970, Quase Famosos (Almost Famous, 2000) chegou aos cinemas como um retrato de um período em que o rock vivia seu auge, sendo até hoje aclamado mesmo por aqueles que não viveram a época abordada no filme ou seu lançamento. A obra, que levou o prêmio de melhor roteiro original na 73ª edição do Oscar, se inspirou em aspectos da vida do próprio diretor Cameron Crowe para construir a narrativa do personagem principal.
O protagonista, William Miller (Patrick Fugit), é um garoto de apenas 15 anos apaixonado por música e que, apesar de crescer com uma mãe extremamente rigorosa e protetora, decide seguir uma banda de rock em uma turnê para escrever uma matéria como repórter da Rolling Stone. O filme apresenta personagens extremamente complexos, que simbolizam de maneira precisa o perfil comportamental dos jovens que viveram no cenário do rock durante essa época.
Sexo, festas, drogas, e uma vontade incontrolável de quebrar as regras. Essas são as definições associadas ao rock and roll mais comuns no imaginário popular, e Quase Famosos não decepciona ao representar essa rebeldia. Mas, para além de um estereótipo, o filme também explora a liberdade como estilo de vida e o comportamento de contestar autoridades, ideias presentes em grande parte dos jovens da época. Além disso, a obra valoriza a autenticidade artísticas dos músicos desse gênero ao apresentar a banda fictícia Stillwater, que frequentemente se opunha à comercialização do rock imposta pela indústria.
As groupies:
Além de focar em como eram os músicos desse tempo, o filme traz uma análise diferenciada acerca da figura das groupies. Vistas por muitos como mulheres que acompanhavam os cantores de rock por questões unicamente sexuais, as fãs que seguiam as bandas em suas turnês foram representadas pelo filme com maior profundidade. A personagem Penny Lane (Kate Hudson), que inclusive usufrui desse pseudônimo devido a uma famosa canção dos Beatles, foi inspirada em diversas groupies famosas, como Bebe Buell e Pamela des Barres.
Ambas foram consideradas as maiores musas do cenário do rock durante as décadas de 60 e 70, sendo impossível contar a história das groupies sem citar seus nomes. Bebe começou a modelar ainda quando adolescente, e durante a década de 80 iniciou sua carreira musical. Já Pamela foi integrante da GTO´s (Girls Together Outrageously), uma banda composta apenas por groupies, e, anos depois, lançou o livro I´m With The Band (William Morrow and Company, 1987), em que narra sua história.
Apesar de suas diversas realizações profissionais, o fato de as duas já terem se relacionado com variados músicos famosos da época ajudou na criação do imaginário acerca das groupies, que frequentemente as resume a seus relacionamentos com grandes estrelas e ignora seus demais feitos.
Apesar de ser inspirada nas groupies, Penny não se identifica com o termo. A garota enfatiza diversas vezes durante a narrativa que prefere que se refiram a ela como band-aid, uma palavra que faz trocadilho com a palavra band (banda em inglês) e a marca de curativos.
O principal argumento usado pela fã para explicar o conceito da palavra é que sua paixão era a música, e que não acompanhava as bandas por ter atração pelos músicos, e sim por admirar o trabalho que realizavam.
Mesmo indo contra essa definição, é possível perceber que muitos elementos da personagem se assemelham ao estereótipo comumente atrelados as groupies. Penny era menor de idade, mas mesmo assim fazia uso de substâncias ilícitas e era vista como um símbolo sexual por muitos músicos do meio, em sua maioria já eram adultos.
Um dos principais focos do filme foi o relacionamento de Penny Lane com o guitarrista da Stillwater, Russell Hammond (Billy Crudup). Enquanto Penny tinha se apaixonado pelo músico, Russell era casado com outra mulher, além de ser maior de idade.
A garota tinha desenvolvido um carinho pelo guitarrista, que ia além de um simples amor de fã, e, mesmo assim, Russell não demonstrava ter a mesma consideração por Penny. Essa questão é nítida em diversas cenas da obra, como quando Hammond usa a band-aid como moeda de troca em um jogo de apostas, tratando Penny como um mero objeto sexual.
A contestação de Penny ao atribuir um teor negativo à palavra groupie é um elemento do filme que ajuda a enxergar a problemática do título. Mesmo sendo um estilo de vida glamourizado por muitos e levado como inspiração por jovens garotas da época, existe uma controvérsia por trás dessas mulheres obcecadas por astros do rock. Grande parte dessas meninas começaram a frequentar esses ambientes quando ainda eram menores de idade, sendo expostas a substâncias ilícitas e predadores sexuais desde a infância.
O cenário do rock no Brasil:
Ricardo Alexandre é um premiado jornalista, crítico musical brasileiro e autor do livro Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar: 50 causos e memórias do rock brasileiro (Arquipélago Editorial, 2013), obra que se espelhou em diversos aspectos do filme. Em entrevista à Jornalismo Júnior, Ricardo fala sobre Quase Famosos ser, até hoje, um dos maiores filmes já feitos a respeito da cultura do rock e seu legado.
O jornalista começa a entrevista contextualizando o cenário dos Estados Unidos durante a virada dos anos 1960 para os anos 1970. O período ficou marcado na história do país por representar um momento de muita agitação política, protestos e uma rejeição por parte da população acerca das atitudes tomadas pela nação durante a Guerra do Vietnã.
Ricardo explica que durante esse tempo acontece uma desideologização do rock. A ressaca do movimento hippie somada com um clima de desesperança, cinismo e hedonismo foram aspectos determinantes na construção da mentalidade dessa geração. “Estamos aqui para fazer o máximo de dinheiro e transar com o máximo de mulheres, vender o máximo de discos e lotar o máximo de estádios”, exemplifica o entrevistado, como esse sendo exatamente o espírito presente na banda Stillwater.
“O fim do sonho era a nova ideologia”
-Ricardo Alexandre
“Já no Brasil, isso tudo não fazia o menor sentido”, aponta. Enquanto os Estados Unidos passavam por um momento de mudanças de paradigmas, o Brasil enfrentava a repressão e a censura impostas pela ditadura militar. Além disso, a indústria musical nacional não se igualava a internacional no quesito da demanda, sendo limitada tanto pelo mercado quanto por um simulacro dessa atitude e postura adotada pelos artistas estrangeiros.
A própria Rolling Stone se instaurou no país de maneira inusitada. A revista começou em 1971 como uma tentativa de adaptar o Brasil ao modelo norte-americano. O problema é que, pouco tempo depois, os responsáveis pela versão brasileira deixaram de pagar os Royalties, e por isso perderam o direito de usar oficialmente a marca.
Com isso, a revista passou a ser vendida em bancas com a palavra “pirata” embaixo do título, assumindo a condição irregular de comercialização. Essa fase durou até o início de 1973, uma vez que a primeira Rolling Stone do Brasil não conseguiu se manter devido a problemas financeiros e ao contexto político da época. Enquanto no filme a Rolling Stone norte-americana é retratada como rígida e industrial, sendo capaz de determinar o rumo das bandas com base na opinião da sua linha editorial, no Brasil, a revista foi rebelde desde sua origem e representou um afronte às autoridades.
O processo criativo:
Cameron Crowe se tornou o colaborador mais jovem da Rolling Stone com apenas 15 anos, sendo esse o aspecto de sua vida escolhido para dar início à história jornalística do personagem Will. O processo de transformar suas memórias em um filme teve grande influência de Billy Wilder, grande diretor e amigo de Crowe, que incentivou o jornalista a levar sua história para as telas dos cinemas.
A criação da Stillwater representou uma fusão da essência das bandas com quem Cameron trabalhou, e William Miller foi desenvolvido como forma de documentar seu passado sem parecer pretensioso, sempre prezando por um retrato realista e honesto da época vivida.
Os personagens, além de complexos, reproduziram a personalidade forte e cativante dos jovens da época sem deixar de fora a parte desagradável. Crowe conseguiu trazer para a obra figuras instigantes, que apesar de seus defeitos e atitudes vistas como socialmente imorais (como traição e uso de drogas), conquistam o público com um carisma único.
Os limites jornalísticos:
Ao longo do filme, o jovem jornalista enfrentou diversos desafios dentro de sua profissão. A proximidade que Miller desenvolveu com os membros da banda, principalmente com Russell, impactou diretamente a execução de sua matéria sobre a turnê dos músicos.
Afinal, limites que os repórteres devem estabelecer entre a amizade com os entrevistados e o profissionalismo é algo difícil de balancear nesse cenário. O fato de as bandas estarem sempre envolvidas em escândalos fez com que uma aversão contra a mídia se desenvolvesse por parte dos rockeiros, o que significava que só seriam coniventes com a presença de um jornalista acompanhando seus passos se confiassem no profissional.
Inicialmente, a banda teve seus receios com o garoto, atribuindo-lhe o apelido de “o inimigo”, que perpetuou durante toda a narrativa. Russell, entretanto, gostou de William e incentivou que ele acompanhasse a turnê, com a promessa de que iria conceder uma entrevista ao jornalista. Aos poucos, o jornalista foi desenvolvendo um laço com o restante da banda, ao provar que era um verdadeiro fã de música, para além de uma representação da mídia.
Mesmo depois de ter estabelecido uma boa relação com Russell, o guitarrista ainda era uma figura com quem William tinha dificuldade de lidar. Em diversos momentos, o filme deixa evidente o pouco cuidado que o músico tinha com a reportagem que estava sendo feita pelo garoto, como quando adia a entrevista durante toda a turnê. Apesar das nítidas diferenças entre ambos, a dinâmica dos personagens é algo curioso de assistir, o que torna a narrativa ainda mais cativante.
Apesar de ter conquistado essa confiança, William enfrentava um impasse com a revista, que exigia uma captação neutra do repórter e que fosse isenta de qualquer aspecto externo que pudesse influenciar na transparência de sua experiência.
Lester Bangs, interpretado na obra por Philip Seymour, foi um jornalista e crítico musical que atuou como mentor no início da carreira de Cameron Crowe. No filme, Lester frequentemente alerta Will sobre o perfil da Rolling Stone, e avisa o garoto sobre a possibilidade de a revista alterar completamente o que ele fosse escrever, mas que isso não deveria impactar em seu processo criativo.
Para Ricardo Alexandre, esse fenômeno está diretamente relacionado com a estrutura de trabalho do jornalista. O autor explica que poucas pessoas trabalhando no mercado faz com que muitas vezes um mesmo funcionário se desdobre em funções muitas vezes conflitantes.
“Faz sentido o repórter escrever críticas de música? Ele depende de contatos e de ser bem recebido por artistas, e a maioria das redações nunca se daria o luxo de ter críticos e reporteres”, pontua o jornalista. Além disso, os valores éticos também são uma questão para ser levada em conta, considerando que muitos profissionais optam por não passar por cima de pedidos feitos pelos entrevistados que colaboraram com seu trabalho.
O legado
Por mais que a época tenha sido marcada por polêmicas e controvérsias, como o relacionamento entre Jimmy Page (guitarrista do Led Zeppelin) e uma menor de idade, ou o alto uso de cocaína pelos membros da Black Sabbath durante a produção do disco Vol. 4, muito do espírito rebelde da geração que viveu o rock dos anos 1960 e 1970 prevalece até hoje.
O próprio Quase Famosos honra esse legado de maneira singular, com personagens que não têm medo de se impor e que sabem viver o rock para além de um estilo musical, encarando-o como uma expressão de suas vivências e de seu tempo.
Os membros da Stillwater frequentemente discutiam entre si, por motivos que incluíam ego, divergências de opiniões e competição. Cada integrante lidava de forma singular com a fama e com as pressões da indústria, e apesar das brigas e ambições de cada um, a banda conseguia extrair o melhor de cada músico, o que foi crucial no desenvolvimento da identidade única do grupo.
Com defeitos típicos de rockeiros da época, os personagens representam fielmente o cenário daquele tempo. Ao criar figuras que são a personificação de um período repleto de misoginia e romantização do uso de drogas, Crowe consegue exaltar as qualidades da década sem suavizar as problemáticas.
Para além dos problemas, o que fica é a lembrança de uma geração que não hesitava em se expressar e em questionar as normas. Os personagens honram o legado de jovens que valorizavam a arte, a rebeldia e a busca por autonomia. Stillwater faz justiça àqueles que enxergavam o poder do rock como uma subcultura capaz de fazer a diferença.
Penny Lane é lembrada por seu estilo, sendo sempre associada aos óculos redondos que a personagem usa na capa e ao seu casaco de pele que se tornou uma marca de sua identidade visual. A trilha sonora é também segue sendo celebrada, com músicas que parecem teletransportar o espectador para a época em que foram lançadas.
Esse é o caso da canção Tiny Dancer “1971”, de Elton John, cuja popularidade foi impulsionada por sua presença marcante no filme. A banda Stillwater faz justiça ao lema do filme, “seja legal”, representando tudo de caótico que o mundo do rock romantiza, apesar das problemáticas, e William se torna um jornalista completo, achando o equilíbrio entre seu lado profissional e amante do gênero musical.
Mesmo funcionando como uma herança que valoriza certos aspectos desse período de forma que até o homenageia, a obra não abre mão de ter uma visão realista, não deixando de fora comportamentos que eram moralmente questionáveis, porém comuns. Ao mesmo tempo que celebra a liberdade, Quase Famosos expõe as desilusões do rock que eram visíveis somente nos bastidores.
*Imagem de Capa: Reprodução/TMDB








