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As faces da mulher na literatura de terror 

O feminino e sua associação com a violência e objetificação no gênero do terror abrem discussão sobre misoginia
Elementos que remetem ao Halloween, como o Ghostface, do filme Pânico, e bruxas saindo de livros.
Por Gabriela Moraes Silva (gabrielamoraessilva@usp.br) e Lara Oliveira (la.oliveira@usp.br)

Nos últimos meses, o lançamento da série Dias Perfeitos (2025), adaptação da obra homônima de Raphael Montes, levantou uma discussão sobre o recurso da violência no gênero do terror. Além do livro e da série, obras como  O Conta da Aia (1935), de Margaret Atwood, também usam como enfoque a violência contra a mulher. 

Para o doutor em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa, Oscar Nestarez, a temática não é uma tendência recente. “Já na Bíblia a gente tem a personagem feminina [Eva] apresentada como um perigo ao poder hegemônico [masculino]. Nessa perspectiva, personagens femininos sofrem todo tipo de violência ao longo da literatura”, afirmou. 

Ele ressalta que, além dessa temática na literatura em geral ocorrer desde sempre, principalmente em  períodos em que a mulher é considerada um ser humano menos importante, muitas vezes elas nem aparecem na história. “Ao longo dos séculos 17 e 18, nas sagas de cavalaria, nós mal tínhamos figuração de mulheres, porque elas não importavam”, revelou. 

Especificamente na literatura de terror, o especialista explica que não enxerga tanto a recorrência dessa temática em seus primórdios. Ele cita as obras de Edgar Allan Poe, precursor da literatura de terror, e explica que a figuração das mulheres em suas histórias possui uma percepção romântica e não um caráter de violência. Porém, ressalta a presença das bruxas: “Essas histórias encenam o perigo que essas mulheres, bruxas e feiticeiras, representavam para o poder instituído. São sempre histórias muito perturbadoras”.

No gênero terror, o cinema explora mais a violência contra mulher do que na literatura, embora existam alguns casos para o especialista. “No cinema a gente tem uma maior exposição do corpo da mulher e um tratamento da mulher como sexo mais fraco e mais fácil de matar”, explica. 

O estudo Representações do feminino em filmes de terror: uma paralelo de bruxas entre séculos  afirma que a representação do feminino no terror está sempre associado aos papéis de gênero [Imagem:Pavel Danilyuk/ Pexels]

O filme Doce Vingança (I Spit On Your Grave, 2011) conta a história de uma mulher que sofreu abuso sexual e se vinga de seus abusadores. Há diversas críticas ao longa pelo exagero de cenas de violência sexual e os internautas até acusam a obra de ser ‘fetichista’. Nestarez explica que esse filme pertence ao subgênero Rape and Revenge (Estupro e Vingança, em tradução livre) e conta que o filme que inaugurou esse tipo de gênero foi a obra sueca Thriller – Um Filme Cruel (Thriller – A Cruel Picture, 1973). 

Ele ressalta que muitos desses filmes são dirigidos por homens. “Toda essa história é narrada pelo olhar masculino e isso traz uma fetichização. Muitas vezes, a câmera é posicionada de uma forma que, mesmo quando a mulher está se vingando, ela é objetificada”, afirma. 

Entretanto, essa objetificação da figura feminina não se restringe à ficção. Pelo contrário, retrata a forma como a sociedade historicamente misógina foi ensinada a se comportar perante às mulheres. Nestarez corrobora essa visão ao pontuar: “Nós vivemos em uma sociedade que se vê espelhada nessas histórias”. 

Ele explica que transportar a violência contra a mulher para os livros e para as telas responde aos desejos de muitas pessoas. Segundo o entrevistado, não necessariamente ao anseio de cometer alguma agressão, mas em muitos casos, há um prazer em ver episódios que alimentam o ódio ao gênero feminino. 

O conto Venha ver o pôr do sol (1958), de Lygia Fagundes Telles, é um terror psicológico que acompanha uma armadilha feita por Ricardo para deixar sua ex-namorada, Raquel, à mercê da morte em um cemitério. Ela é retratada como um objeto frágil e passível de posse, sintomas do machismo presente nas falas dele. No caminho até a fatalidade — ou ao menos à sua tentativa —, a personagem sofre diversas micro violências físicas e psicológicas por parte do ex-companheiro, como quando ele pega em sua cintura e insinua que ela estaria com o novo namorado apenas por dinheiro.  

O especialista caracteriza a obra como uma literatura de denúncia mais explícita dentro do terror. Nesse caso, a intenção é incomodar o leitor propositalmente, causando uma reflexão sobre a temática a partir do caráter absurdo dos acontecimentos. A maneira apática como Ricardo descreve a morte, sobretudo de figuras femininas, é um exemplo disso no conto de Lygia. 

Venha ver o pôr do sol se junta a outros sete contos da autora nesta edição da editora Ática, de 1988 [Imagem: Reprodução/ Instagram/ @estranholeitor]

Ele também aponta que a narrativa de Raquel “mostra a que tipo de violência a mulher está sujeita simplesmente porque o homem que ela frustrou, para o qual ela disse não, não aceita.” A dificuldade em aceitar o fim do relacionamento é um motivo frequentemente associado às agressões sofridas por mulheres no Brasil, que resultam, em muitos casos, em feminicídios. 

Obras como essa contribuem para a discussão sobre violência contra mulher de forma crítica, denunciando os distúrbios presentes na sociedade. Por outro lado, outras produções artísticas dão destaque ao sofrimento da figura feminina, mas por meio de uma abordagem que perpetua, intencionalmente ou não, a misoginia na literatura e nas telas. Sobre isso, Nestarez pontua:

“Mesmo quando uma obra é misógina, quando uma obra traz a violência contra a mulher pelo puro prazer estético, ela pode ser lida em uma chave de denúncia.”

Oscar Nestarez

Quando a temática da violência contra a mulher está presente em uma obra apenas para chocar o leitor — o que o entrevistado descreve como explorar o tema “de forma gratuita”—, põe-se em risco as consequências sociais da produção e seu impacto na audiência. Apresentar a opressão à mulher de modo estereotipado ou exagerado pode fortalecer o desejo dos indivíduos de reproduzir os comportamentos na realidade. 

O impacto desse subgênero sobre o leitor ou espectador, sobretudo por seu vínculo com o terror, tende a ser um tópico sensível. O tom narrativo e o nível de explicitude adotados pelos autores são determinantes para que a abordagem provoque reflexões no público, sem se limitar ao choque causado pela delicadeza do tema. 

Nestarez expõe, no entanto, que durante o processo de escrita, não há muita preocupação com a sensibilidade dos conteúdos abordados. Os filtros costumam ser feitos pelas editoras, nas chamadas leituras “críticas” ou “sensíveis”. “Eu sempre defendo a liberdade absoluta na hora da criação”, acrescenta.  

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