Por Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)
Nesta terça-feira (27), Mauricio de Sousa completou 91 anos. O criador da Turma da Mônica teve seus noventa anos comemorados no decorrer deste ano, com homenagens de sua própria empresa, de fãs e de figuras e instituições renomadas. Entre as principais celebrações, estavam diversos eventos e obras distribuídos pela cidade de São Paulo, organizados pela própria Prefeitura.
Em novembro de 2025, a obra de Mauricio foi oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial de São Paulo, e as celebrações também marcaram esse feito. O título foi justificado pelo legado do quadrinista ultrapassar a criação literária e atingir a sociedade brasileira, reconhecida nacionalmente como parte da infância e da educação do país.
Todos os protagonistas das principais tirinhas existem há mais de 60 anos, e, ainda assim, suas histórias permanecem relevantes para o público atual. A Jornalismo Júnior conversou sobre a obra de Mauricio com profissionais envolvidos no meio dos quadrinhos para entender o impacto dos quadrinhos e o porquê de sua popularidade.
Uma potência nacional
O título Turma da Mônica foi apontado como o terceiro “livro mais marcante”, considerado o mais citado por leitores brasileiros na 6ª edição da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2024. Mauricio de Sousa também ficou em terceiro lugar como autor mais conhecido no país, atrás apenas de Machado de Assis e Monteiro Lobato.
Entre os entrevistados, é consenso que a Turma da Mônica ganha muito de sua força por ser reconhecida nacionalmente, como parte da sociedade e cotidiano brasileiros.
Waldomiro Vergueiro, professor titular e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), explica que a Turma da Mônica passou a conquistar o meio HQs brasileiro a partir dos anos 70. A personagem Mônica, criada em 1963 e inspirada na filha de Mauricio, ganhou a própria revista em quadrinhos em 1970 pela editora Abril. A revistinha, que teve tiragem inicial de 200 mil exemplares mensais, logo cresceu e ganhou popularidade.
Produções estadunidenses, como as revistas do Tio Patinhas e do Mickey, criadas pela Disney, dominavam o mercado brasileiro de quadrinhos infantis antes da Turma da Mônica. Em um curto período, Mauricio reverteu este cenário e passou a ser o preferido das crianças do país. Para Vergueiro, este é um importante marco: “sempre se dizia que a produção estrangeira impedia o surgimento de autores nacionais. O Mauricio quebrou esse estigma e se tornou o maior produtor de quadrinhos no país”.
A Gibiteca Henfil, do Centro Cultural de São Paulo, tem uma cópia autografada da primeira edição do gibi da Mônica, junto a várias coleções históricas [Imagem: Nina M Bozic/ Acervo Pessoal]
Lilian Lorante Araújo, coordenadora da Gibiteca Henfil, reforça que o autor tem um forte legado, mas que não abriu portas sozinho: “temos também o Ziraldo, o Henfil, e grandes nomes surgindo agora. Acho que Mauricio foi um dos que abriram esse caminho”.
Para Helô D´Angelo, cartunista autora do quadrinho Pipa – Voo (2026), a dimensão da Turma da Mônica possibilita que o meio das HQs seja reconhecido na sociedade brasileira. Segundo ela, o carinho pela Turma da Mônica permite que as pessoas entendam e recepcionem os quadrinhos com mais facilidade. Assim, a fama de Mauricio também impulsiona outros quadrinistas brasileiros.
“Se alguém me pergunta o que eu faço, eu digo que faço quadrinhos, como o Mauricio de Sousa. E assim as pessoas já sabem o que é e têm carinho por isso”
Helô D’Angelo
Vergueiro ainda explica que a conquista do mercado ocorreu principalmente pelo tino empresarial de Mauricio. Para o professor, a capacidade de negociação do cartunista popularizou sua obra: “ele sempre abriu os personagens para produtos e propagandas e, por isso, eles se tornaram conhecidos rapidamente”.
O especialista diz que os cenários da Turma da Mônica são populares pois costumam seguir uma “visão média da sociedade, no sentido de atingir todos os públicos”. Ele critica essa produção como muito “pasteurizada”, especialmente nas primeiras tirinhas, com temas generalistas para atingir a todos. “Era quase uma visão paradisíaca da infância brasileira. Mas, no meio, eventualmente surgiam algumas histórias que tocavam em pontos sensíveis da sociedade. É o caso de Os Azuis, por exemplo”, explica.
“Minha história com a Turma da Mônica é afetiva”
Para Lilian, a memória da população dos quadrinhos de Mauricio é afetiva, por estar ligada à infância. Ela conta que sente essa relação em sua vida pessoal: “quando eu apresento as histórias para o meu filho, vem um resgate afetivo da minha própria infância”. A diretora da Gibiteca percebe o carinho na interação com seu público: “vejo pais e avôs trazerem os filhos para ler. É uma construção entre gerações”. Ela relata que muitos dos leitores ávidos da Turma da Mônica são adultos, que encontram memórias da infância em coleções antigas.
Helô tem a própria lembrança, que conta com carinho: “minha mãe trabalhava muito e tinha pouco tempo para ficar comigo. Mas, mesmo assim, ela lia as revistinhas e me explicava as histórias. Então, tenho essa memória muito afetiva”.
Segundo Vergueiro, ao conquistarem o mercado do país e serem produzidos localmente, os quadrinhos de Mauricio geram a valorização de ideais brasileiros. Helô complementa que a turminha cria proximidade com o público e seu cotidiano por ter elementos genuinamente nacionais. “As piadas são brasileiras, os personagens são brasileiros. E isso se relaciona com nosso imaginário”, diz.
“São quadrinhos que falam da nossa realidade, que trazem o dia a dia das crianças”
Waldomiro Vergueiro
Para Helô, o afeto das pessoas pelas HQs de Mauricio também vem da linguagem simples das tirinhas, assim como o uso delas na educação. A cartunista diz que aprendeu a ler e a desenhar com os gibis da Turma da Mônica, e sente que a alfabetização com eles é uma experiência comum na infância brasileira. Lilian também conta que seu primeiro contato com a literatura foi através das revistinhas de Mauricio: “gosto de dizer que minha primeira biblioteca foi a banca, quando eu lia gibis enquanto meu pai comprava jornais”.
Neste ano, a Secretaria Municipal da Educação de São Paulo adotou 72,4 mil assinaturas de Histórias de Quadrinhos para escolas de Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens Adultos. Entre os títulos adquiridos, estava Pipa – Voo, juntamente a outros títulos do selo Graphic MSP — série de quadrinhos de histórias de volume único da Mauricio de Sousa Produções (MSP). Helô pôde visitar as escolas e adora a experiência: “É um livro sobre autoestima, e é excelente ver esse tipo de discussão feita por crianças e adolescentes, especialmente nas periferias. Tem sido maravilhoso”.
“O quadrinho permite a leitura tanto de uma pessoa letrada quanto de uma criança ou alguém não alfabetizado, por trazer uma construção entre texto e imagem”
Lilian Lorante Araújo
Além da leitura, a turminha também ensina em outras áreas. Neste ano, uma parceria entre Sicredi, Sicoob e Banco Central distribuiu livros infantis para a educação financeira em 4 mil escolas do país. A ação utilizou a Turma da Mônica em parte dos materiais, com histórias em que personagens lidam com o dinheiro em situações do cotidiano infantil.
Além das tirinhas
Entre as celebrações dos 90 anos de Mauricio no decorrer deste ano, estava a Graphic Novel MSP Mauricio: 90 (2026), que contou com histórias dos personagens do cartunista, feitas por 90 artistas diferentes, incluindo Helô. Para Vergueiro, o projeto Graphic Novel MSP é um dos principais exemplos de inovações aos seus quadrinhos realizadas pelo estúdio.
O professor explica que a visão corporativa aguçada de Mauricio leva a empresa a sempre acompanhar as tendências e exigências do público, se mantendo atual. A incorporação de avanços tecnológicos nas tirinhas e as inovações de personagens e formatos de histórias, por exemplo, são atualizações que mantêm a força da Turma da Mônica.
“Essa é a razão do grande sucesso dele: ele não parou no tempo, ele continuou a evoluir e a evoluir seus personagens”
Waldomiro Vergueiro
A criação das Graphic Novels, quadrinhos com apenas uma história criados por vários cartunistas, foi idealizada por Sidney Gusman, ex-editor-chefe da MSP Estúdios. O projeto se iniciou com o livro MSP 50 (2009), que seguia um formato similar à Mauricio 90, com histórias de 50 artistas com os personagens do cartunista. Depois dele, vieram a Mauricio +50 (2010) e Mauricio Novos 50 (2011), até surgir a primeira edição com uma história própria, Astronauta – Magnetar (2012).
O formato atrai um novo público, abordando perspectivas e temas mais sensíveis do que tirinhas comuns. Entre os destaques das Graphics, está Jeremias – Pele (2019), vencedora do prêmio Jabuti de Melhor HQ em 2019. O livro, escrito por Rafael Calça e desenhado por Jefferson Costa, trata do racismo sofrido pelo personagem na infância, e a jornada de superação e busca por reconhecimento dele.
Outro marco é a série Turma da Mônica – Laços (2013), Turma da Mônica – Lições (2015) e Turma da Mônica – Lembranças (2017). As duas primeiras edições da trilogia se tornaram filmes live action, de mesmo nome, em 2019 e 2021. As obras estrearam as produções audiovisuais do universo de Mauricio, que foi seguido por títulos como o filme Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa (2024) e a série Turma da Mônica – Origens (2024).
Vergueiro explica que a criação audiovisual a partir dos quadrinhos é uma importante renovação da Turma da Mônica. Para o professor, as produções além da leitura criam um “sistema de consumo”: “são mídias que se apoiam, e ampliam o público da marca”.
A popularidade dos filmes também atrai uma nova atenção aos quadrinhos. Para Helô, as produções não só fortalecem o cinema nacional, mas também estimulam que produtoras procurem quadrinhos como fontes de história.
“Existe um casamento excelente entre quadrinhos e o cinema”
Helô D’Angelo
Outro exemplo de renovação do público dos quadrinhos é a criação da Turma da Mônica Jovem (2008-agora). O projeto foi criado em 2008 e segue um estilo mangá, formato de quadrinhos tradicionalmente japonês. Na época de lançamento, a MSP esclareceu que buscava acompanhar o crescimento e a adolescência de seus leitores, juntamente ao crescimento da popularidade desse estilo de revistas na época.
A nova turminha
Outro ponto abordado sobre a produção da MSP é a criação de novos personagens conforme demandas e discussões sociais. Para todos os entrevistados, a atenção às mudanças da sociedade é um motivo claro para a permanência da força da Turma da Mônica.
Para Helô, o mérito da manutenção da atualidade das tirinhas está na equipe que as produz. A cartunista explica que, ao admitir criadores de identidades diversas em sua produção, a Mauricio de Sousa Produções cria espaço para a inclusão também nos quadrinhos.
O lançamento da personagem Milena, a primeira protagonista feminina preta de grande destaque, foi um marco importante para a representatividade na Turma da Mônica. Em 2019, juntamente à sua família, ela foi introduzida como parte do grupo principal de crianças, e vem conquistando popularidade desde então. A personagem ganhou o próprio gibi em maio deste ano, sendo a primeira a ter uma própria publicação em quase 40 anos.
Lilian também cita o caso de André, personagem com Transtorno do Espectro Autista (TEA) criado em 2001 pelo Instituto Mauricio de Sousa (IMS) em parceria com a Universidade de Harvard.
No programa Altas Horas (Rede Globo, 2000-atualmente), Mauricio revelou que André foi inspirado em um garoto autista que se identificava com Chico Bento, que visitou seu estúdio ainda criança. O cartunista conta que o garoto o reencontrou mais velho, com desenhos que o impressionaram. Ao contar a história, o autor se emocionou e disse que assim percebeu a importância de tratar do autismo em seus quadrinhos.
A diretora da gibiteca ficou emotiva ao lembrar do relato: “se ver representada de uma forma positiva impacta muito na vida de uma criança. É aí que pensamos o quanto o quadrinho, que muitas pessoas tratam como uma leitura ´boba´, pode mudar a vida de uma pessoa”.
*Imagem de capa: Linkedin/Mauricio de Sousa/ Divulgação









