Por Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)
Sete anos após seu último lançamento, o estúdio LAIKA – que se consolidou na indústria com suas animações stop-motion e caiu nas graças do público em 2009 com Coraline e o Mundo Secreto (Coraline) – retorna com O Bosque Selvagem (Wildwood, 2026), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29). O filme é uma adaptação do romance homônimo de Colin Meloy e é dirigido por Travis Knight, conhecido pelo aclamado Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016).
O Bosque Selvagem conta a história de Prue (Peyton Elizabeth Lee), uma jovem que vê o sequestro de seu irmão mais novo por um bando de corvos. As aves levam o pequeno para a “floresta impassável” – uma mata sombria que rodeia a cidade e que os adultos sempre alertam para evitar. Ela decide, então, embarcar em uma jornada para resgatá-lo, na companhia de seu colega Curtis (Jacob Tremblay). Ao adentrar o bosque, os dois descobrem que há muito a ser explorado, mas que também existem diversos perigos escondidos.
A cena de abertura traz um tom intrigante e sombrio, que dita o ar mais maduro já característico das animações do estúdio. Na sequência, um menino – que nos primeiros segundos já se revela ser, na verdade, uma espécie de humanoide – arranca seu coração-engrenagem e se joga da sacada, na frente de sua mãe. Com isso, a curiosidade do público é aguçada e preparada para uma sub-trama que vai ser desenvolvida posteriormente, mostrando que o longa tem muito a oferecer para além do que aparece nos trailers.
A narrativa se destaca por momentos como esse. Os acontecimentos não são entregues ao público de uma vez, nem de forma linear, e isso torna a estrutura mais complexa. A utilização de flashbacks ajuda a guiar o ritmo e a explicar os desdobramentos importantes, trazendo diversos plot-twists no decorrer do longa.
Esse é um dos fatores que enfatizam O Bosque Selvagem como uma animação sem foco estrito no público infantil. O toque de humor também embala o rumo da história, com cenas que arrancam risadas genuínas do público em meio a tensão, sem prejudicar o ritmo, e que mostram como o filme pode ser interessante para todas as idades.
O primor do longa é, sem dúvidas, o visual. O público fica imerso na beleza das cenas e, por mais difícil que seja acreditar que tudo aquilo foi feito à mão, é perfeitamente compreensível o fato da produção ter durado tanto tempo: afinal, foram sete anos de trabalho com os bonecos e o cenário físico. Por isso, vale muito a pena assistir o filme em uma tela à altura: a do cinema.
A versão brasileira de Prue fica por conta da atriz Giulia Benite – conhecida por interpretar a Mônica em Turma da Mônica: Laços (2019) – que faz, aqui, sua estreia na dublagem. Ela se destaca no papel e mostra que leva jeito para a coisa, trazendo a personagem à vida com muita emoção. O desempenho dos dubladores faz jus à magnitude do filme e torna a versão em português muito agradável.
A jornada de Prue e Curtis, dentro da “floresta impassável”, torna-se um grande épico de aventura quando eles se deparam com o que existe dentro do bosque: seres humanos que convivem com animais falantes. A sociedade é dividida em diferentes núcleos: os anciões, os místicos e o principado aviário – um clã de aves falantes –, que se juntam para enfrentar uma ameaça em comum. O grande momento da obra é uma sequência ousada e impressionante de batalha intensa e sangrenta, digna de um blockbuster.
Outro destaque da produção é a construção do fantástico. As relações entre os diversos personagens, a maneira como esse universo quase alternativo funciona e os elementos mágicos são explorados de uma forma muito interessante.
Um ponto que deixa a desejar é o desenvolvimento pessoal da protagonista. A obra foca bastante na magnitude do universo, na magia, na aventura e na variedade de personagens, deixando de explorar Prue de forma mais profunda. Pouco se sabe sobre ela além da vontade de salvar o irmão.
Por outro lado, a Governadora Viúva Alexandra (Carey Mulligan), vilã da história, tem sua personalidade e seu passado muito bem explorados, com motivações convincentes que a tornam uma personagem muito interessante. Algumas cenas que a envolvem possuem um tom mais sombrio e violento, com alusões à magia negra e feitiços associados a temas delicados.
Na onda crescente de conservadorismo, é fácil imaginar que, ao cair nas graças do público, o longa seja criticado por suas cenas que mencionam – e mostram – esses rituais e sacrifícios mágicos, especialmente pelo contexto delas dentro do filme. Apesar disso, todos esses momentos conversam muito bem entre si e são fundamentais para a construção da vilã – afinal, em um bosque mágico onde os animais falam e as pessoas conversam com as plantas, parece mais do que plausível que a antagonista se aposse da magia.
A obra faz história: é o filme de animação em stop-motion mais longo já feito, com duas horas e doze minutos de duração que exploram temas importantes como o luto e a união de diversos grupos por um bem comum. A lição de moral que deixa ao público diz muito sobre perseverança para lutar por aquilo que acreditamos e por aqueles que amamos.
O Bosque Selvagem é um épico recheado de magia e aventura que tem tudo para se tornar um clássico para a próxima geração, deixando uma marca tão emblemática quanto Coraline e o Mundo Secreto, que marcou (e aterrorizou) toda uma leva de crianças nos anos 2010. Tem, ainda, grande potencial para se juntar à lista de filmes do LAIKA a receber uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme de Animação – e para ser o primeiro do estúdio a levar, de fato, a estatueta.
O Bosque Selvagem já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/TMDb




