Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)
Há 20 anos, estreava nos cinemas Casa Monstro (Monster House, 2006), do diretor Gil Kenan. A história de D.J. (Mitchel Musso) e seus amigos Bocão (Sam Lerner) e Jenny (Spencer Locke) é guiada pela missão de interromper a maldição na casa do vizinho mal-humorado, o Sr. Epaminondas (Steve Buscemi). Após ninguém acreditar nos relatos dos adolescentes de que a residência se alimenta de tudo que cai em seu gramado, eles decidem resolver isso sozinhos e entrar na casa para destruir seu “coração”.
Este filme faz parte de uma geração de longas que traumatizaram ou encantaram os mais jovens dos anos 1990 e 2000. Sendo exemplo de um cinema corajoso, feito por grandes diretores dispostos a dialogar o medo como um sentimento que também faz parte da infância, eles criaram um espaço seguro para que crianças possam se divertir e se desafiar nessas experiências assustadoras.
Ao longo dos anos, o mercado cinematográfico mudou muito no apoio que concede a um gênero como esse. Somado a isso, as crianças de antigamente não são as mesmas de hoje, assim como seus pais — o que altera também a forma com que as famílias assistem aos filmes.
1984: um ano não recomendado para…
Nos anos 1980, já era algo comum na TV tornar o terror mais palatável, criando um produto para toda a família. Clássicos como A Família Addams (The Addams Family, 1964-1966) e a versão original de Além da Imaginação (The Twilight Zone, 1959-1964) já mostravam como o medo poderia vir junto do humor ou ser mais psicológico, por exemplo.
No cinema, essa onda multifacetada chegaria com três grandes estreias em 1984: Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984), Gremlins (1984) e Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 1984). Os dois primeiros filmes, principalmente, trariam impactos não só à história do cinema, mas também ao sistema de classificação indicativa americano.
É um pouco difícil comparar o método daquela época e a forma como são organizadas as recomendações de idade hoje no Brasil, já que cada associação estabelece as restrições indicativas conforme seu contexto e as próprias produções existentes no período. A Motion Pictures Association of America (MPAA) estabelecia quatro tipos de classificação indicativa: G (General Audiences), como eram classificados os filmes para crianças; PG (Parental Guidance), eram os voltados para toda a família; R (Restricted), indicava que menores até 17 anos entrariam somente acompanhados; e X, permitia apenas o ingresso de pessoas a partir dos 17 anos.
O método é subsequente do Código Hays que, de 1934 até 1968, ao invés de indicar possíveis conteúdos indesejados para certo público, restringia que fossem incluídos nos filmes. No entanto, o problema com o novo método de classificação era que, conforme surgiram produções destinadas especificamente a um público juvenil ou adolescente, uma lacuna se formou, com obras leves demais para serem R, mas impactantes o suficiente para não serem adequadas para crianças menores.
Após o lançamento do segundo Indiana Jones, em maio de 84 nos Estados Unidos, como um filme PG, Spielberg já havia percebido o choque com os pais e os alertas da crítica. A narrativa da busca de Indy (Harrison Ford) por uma pedra sagrada para uma vila indiana foi considerada pelo próprio diretor como “muito escura, muito subterrânea e muito assustadora”, como afirmou em 1989 ao jornal americano Sun-Sentinel.
Duas semanas depois, no mesmo dia, estrearia Os Caça-Fantasmas, que ficaria em segundo lugar de bilheteria naquele ano e, por sua dose maior de humor, não escandalizou as famílias. Já Gremlins, que também tinha Spielberg como produtor, geraria mais problemas quanto à classificação PG.
Na história, Gizmo, um bichinho fofo e inusitado é dado como presente de Natal ao jovem Billy. No entanto, para que ele permanecesse dessa maneira era necessário cumprir três regras: não deixar que tome luz do sol, não molhá-lo, e não alimentá-lo depois da meia-noite. Caso o contrário, ele se multiplicaria e todos eles se tornariam monstros violentos: os gremlins.
O professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Celbi Pegoraro, afirma que filmes como Gremlins “ocupam um lugar especial na história do audiovisual por serem projetos que investiram muito mais em efeitos práticos para mostrar personagens de forma física, artesanal, com maquiagem e cenários palpáveis”. Segundo ele, isso dava ao público infanto-juvenil uma maior concretude à ameaça que aquelas criaturas representavam. “Nos anos 1980 e 1990 os filmes de fantasia ousavam mais em narrativas sombrias e violentas, o que marcou muitas pessoas, inclusive a mim”.
Tendo causado parte do problema, ele entregaria também a solução. Assim, Spielberg sugeriu à MPAA a criação do nível PG-13, que indicava expressamente a observação dos pais para a entrada de pré-adolescentes menores de 13 anos. Assim, alterou o sistema de modo a comportar as novas facetas que o cinema apresentava.
A crítica de cinema especialista em terror e doutora em Comunicação Audiovisual, Beatriz Saldanha, destaca que os anos 80 em Hollywood “foi um momento de muita experimentação, inventividade e competitividade (por bilheteria, prêmios, reconhecimento da indústria), o que rendeu excelentes filmes de fantasia e aventura”.
Tim Burton: o novo expressionista
Nesse período fértil do cinema, surge um diretor que traria às telas o gótico para a família, inspirando-se no expressionismo alemão dos anos 1920. Tim Burton começou a carreira como animador, estagiando na Disney. Seu primeiro curta foi Vincent (1982), que já revelava muito dos seus gostos.
A obra é sobre Vincent Malloy, um garoto que sonha em ser o lendário ator de terror, conhecido por sua voz marcante, Vincent Price. Mas, avisado pela mãe que isso não seria possível, ele lamenta por sua vida citando Edgar Allan Poe. Além do exagero e do drama, os homenageados foram figuras importantes na infância do cineasta.
Na sua primeira tentativa live-action, fez um média-metragem, Frankenweenie (1984), que inspiraria a animação de 2012, sobre um garoto que tenta ressuscitar o cachorrinho morto, tal qual Frankenstein. O professor Pegoraro constata que “a assinatura do Tim Burton está justamente na combinação entre o sombrio e o sensível. Ele trabalha com elementos do terror, do gótico, do fantástico e do grotesco, mas raramente de uma maneira puramente assustadora. O universo dele costuma transformar aquilo que seria estranho, monstruoso ou marginal em algo afetivo e até poético”.
Na filmografia de Burton, existe uma presença constante da morte, da dor, do luto, abordada por todos os possíveis aspectos e gêneros, mesclando terror e fantasia, a comédia e o drama. Isso faz com que esses temas difíceis de tratar ganhem novas perspectivas.
Seu primeiro longa parece, no entanto, fugir à regra um pouco. As Grandes Aventuras de Pee-Wee (Pee-Wee’s Big Adventure, 1985) surgiu para Tim Burton como uma oportunidade oferecida por Paul Rubens, criador do personagem que leva o nome da obra, após ter assistido seus curtas e gostado do estilo cartunesco. O filme conta a história da maior aventura de Pee-Wee, um homem com personalidade de criança, que sai em uma jornada pelos Estados Unidos após ter sua amada bicicleta vermelha roubada por um vizinho invejoso.
Apesar de parecer distante dos temas comumente abordados por Burton, nos diferentes trechos da caótica viagem, o diretor conseguiu acrescentar terror, fantasia e até stop motion. Em entrevista a empresa de distribiição Criterion, o diretor disse que se sentiu muito confortável fazendo o filme na época. Segundo ele, pelos roteiristas terem essa vertente do improviso, ele se lembrou muito do ambiente de trabalho de uma animação. O resultado foi um sucesso e a Warner não largou da mão dele, oferecendo-lhe o roteiro de Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988).
Adam (Alec Baldwin) e Barbara (Geena Davis) são um casal amoroso que vive em uma bela casa de campo nos Estados Unidos. Após um trágico acidente de carro, ambos morrem e se tornam fantasmas, presos a casa agora habitada por uma família que quer mudá-la completamente. Para assombrá-los e expulsá-los, chamam um espírito excêntrico, o Beetlejuice (Michael Keaton). No entanto, o fantasma se mostra cada vez mais perigoso.
Nas mãos de outro diretor, essa sinopse poderia ser um terror assustador, mas Burton captura os elementos mórbidos e transforma-os em uma grande comédia que revolucionaria a carreira do ator Michael Keaton. O filme também marca a primeira parceria com Winona Ryder, atriz que interpreta a filha gótica do novo casal. Destaca-se também a atriz Catherine O’Hara no papel da mãe. Os três voltariam para a sequência feita em 2024, Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice (Beetlejuice, Beetlejuice, 2024), assinada também por Burton.
Foi para a produção original que o diretor conheceu Bo Welch, o designer de produção que o ajudaria a definir sua tão conhecida estética. Muito firme principalmente no uso de efeitos práticos e stop-motion para criar as diferentes criaturas do mundo dos mortos, Burton cria um universo exagerado e praticamente tátil que compõe a trama. Tal assinatura marcante o levaria a Gotham por duas vezes, novamente junto da Warner.
As pessoas que assistem a sequência de filmes do Batman com o ator Michael Keaton, hoje em dia, podem considerá-la caricata e cartunesca demais perto da trilogia realizada posteriormente pelo cineasta Christopher Nolan com Christian Bale, ou da mais recente adaptação com Robert Pattinson, do diretor Matt Reeves (Batman, 2022). Porém, em uma geração acostumada com a versão da série de TV dos anos 1960 com Adam West, colorida ao extremo, em que o herói dançava em festas e com um Coringa de bigode, a escolha de Tim Burton como diretor era a ousadia possível para trazer pela primeira vez um homem-morcego sombrio para as telas de cinema, mas que mantivesse o aspecto quadrinesco e da fantasia.
Em Batman (1989), Bruce Wayne é traumatizado pela perda dos pais na infância. Dilemas como esse, envolvendo a relação dos personagens com os pais, também são recorrentes na carreira de Burton: seja o abandono sofrido por Pinguim na sequência Batman: O Retorno (Batman: Returns, 1992), as brigas entre Willy Wonka e o pai dentista que o proibia de comer chocolates em A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005) ou o filho que relembra as história do pai à beira da morte em um de seus longas mais emocionantes, Peixe Grande e Suas Maravilhosas Histórias (Big Fish, 2003).
A estética do diretor seguiu trazendo ainda mais influências do cinema expressionista alemão, que foi feito principalmente após a 1ª Guerra Mundial. Eram obras que abordavam o pessimismo daquele tempo, muitas vezes por meio de fábulas, monstros ou distopias. Tudo sempre muito exagerado, distorcido. O professor Pegoraro destaca que “no estilo visual, a marca é muito reconhecível com cenários expressionistas, formas e contrastes fortes, atmosfera gótica, humor macabro, personagens pálidos ou caricaturais”.
Gotham City surge principalmente de Metrópolis (Metropolis, 1927) do diretor Fritz Lang. Na obra alemã, em uma grande cidade do século XXI, governada por um empresário, a dinâmica da história é construída através da opressão da burguesia sobre a classe operária, que ocorre figurativamente e fisicamente. Os grandes e arquitetônicos prédios, com letreiros de neon, sufocam as casas dos trabalhadores e as fábricas, que ficam no subsolo, são cheias de engrenagens enormes e tubos que liberam fumaça.
A cidade do morcego preserva esse estilo claustrofóbico, que mistura uma grande cidade do futuro com aspectos dos anos 1930. Burton coloca ainda o Coringa (Jack Nicholson) como uma oposição à estética cinza e escura, trazendo muito do contraste de cores de Beetlejuice. A maquiagem pálida dos vilões da sequência, Pinguim e Mulher-Gato — principalmente como Selina Kyle antes de se tornar a antagonista — também é um trejeito do expressionismo alemão.
Outro clássico do diretor que traz características do movimento é Edward: Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990). No longa, o personagem-título, feito por Johnny Depp em seu primeiro trabalho com Burton, é um jovem que possui lâminas no lugar das mãos e vive sozinho em um castelo até ser encontrado por uma corretora que o leva para a própria casa na cidade. Ali, ele começa a viver em uma sociedade que ora o ama, ora o rejeita. A filha da vendedora, que se encanta com Edward, é Kim (Winona Ryder), marcando o retorno da atriz neste que é um dos papéis mais importantes da sua carreira.
Por histórias criativas como essa, Saldanha destaca a importância dos roteiristas que acompanharam Tim Burton. “Além do seu próprio talento, ele trabalhou com roteiristas muito capacitados, como Caroline Thompson [em Edward] e Larry Wilson [em Beetlejuice]”.
O romance volta em sua filmografia na animação em stop-motion A Noiva Cadáver (Corpse Bride, 2005), em que Victor (Johnny Depp), nervoso, foge do altar no dia de seu casamento, indo parar em uma floresta. Ensaiando os votos, ele coloca a aliança em um galho, que se revela ser o dedo da morta Emily (Helena Bonham Carter), sua agora nova noiva.
A bela animação ganha muito, em especial, pela trilha sonora, criada por Danny Elfman, compositor que representa a mais longeva parceria em toda a história do diretor. Quase toda sua produção é musicada pelo veterano compositor.
O piano, os sinos e o coral fazem parte primária da atmosfera mágica, assustadora e misteriosa que embala seus filmes. Incluindo The Piano Duet, em A Noiva Cadáver, Alice’s Theme em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010), Ice Dance em Edward e o clássico tema do Batman.
Henry Sellick: o mestre do stop motion
Já tendo assinado o contrato para fazer Batman: O Retorno, a Disney chama Tim Burton para dirigir uma animação original em stop motion baseada em um poema que tinha escrito na época em que estagiava lá. Por já estar ocupado, o diretor indicou um amigo dos tempos do estúdio do Mickey, Henry Selick, que começou sua filmografia com uma série de curtas experimentais como Tube Tales (1975), Phases (1977), Seepage (1982) e Slow Bob in the Lower Dimensions (1991), um especial da MTV e a sua primeira obra com uso maior de stop-motion, que pautaria seus próximos trabalhos.
Desde criança, Selick foi um grande admirador desse estilo. Um dos primeiros filmes que assistiu no cinema foi Simbad e a Princesa (The 7th Voyage of Sinbad, 1958), que conta com várias criaturas em stop-motion, como ciclope, aves, dragões e esqueletos, interagindo com personagens interpretados por atores reais. A técnica que permitia essa inovação foi desenvolvida pelo pioneiro cineasta Ray Harryhausen, que a chamou de Dynamation, e consistia, a grosso modo, em gravar os atores sozinhos na cena para depois filmar os personagens animados com o take original projetado ao fundo.
O convite da Disney era para dirigir O Estranho Mundo de Jack, um desafio em todos os termos, que Selick aceitou com muito prazer. Na história, Jack Skellington, o Rei das Abóboras na cidade do Halloween, se cansa de comemorar a mesma festividade todos os anos e sai em busca de novos horizontes, até que encontra o Natal e pensa ter encontrado seu verdadeiro propósito, decidindo se tornar o Papai Noel.
A proposta original do longa era que fosse uma opereta, ou seja, tivesse muitas músicas, mais do que um filme da Disney comum, com os diálogos intercalados. Dessa forma, Danny Elfman compôs as músicas de acordo com esboços da trama feitos por Tim Burton, e Selick já pôde começar a direção.
A equipe do diretor contava com cerca de 15 animadores e cada minuto do filme durava aproximadamente uma semana para ser concluído. Para facilitar o processo e aumentar a naturalidade da animação, cada personagem possuia vários exemplares de cabeça com expressões diferentes: Jack, por exemplo, tinha 300 rostos. O set era composto por mais de 230 cenários, cheios de passagens secretas para que os profissionais pudessem manipular os bonecos sem causar estragos e precisar que cenas fossem totalmente refeitas.
Após três anos, com a obra quase pronta, a Disney mostrava receio com o fato da obra talvez não ser apropriada para crianças, então lançou o filme por meio de uma produtora subsidiária, a Touchstone Pictures. Em uma entrevista à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em comemoração aos 30 anos da produção, Selick disse que “não há nada realmente muito assustador no filme, alguns personagens podem parecer grotescos, mas com exceção do Bicho Papão, todos são de bom coração”. Isso explica porque o filme recebeu, nos EUA, uma classificação PG.
Seguindo na Disney, Selick fez mais uma história sobre encontrar seu lugar com James e o Pêssego Gigante (James and the Giant Peach, 1996). No longa, o menino-título se torna órfão e passa a ser criado com desdém pelas tias. Após receber uma espécie de sementes mágicas de um velho misterioso, o garoto vê surgir no seu quintal um pêssego enorme. Um dia, ele entra dentro do fruto, que está cheio de insetos assustadores.
Logo, porém, James percebe que, na verdade, eles são amigáveis, muito mais gentis que suas tias. Ele e os novos amigos saem, então, em uma viagem para Nova York — um plano que o garoto tinha com os pais, antes deles falecerem.
É interessante o trabalho que Selick faz pois, até James entrar no pêssego, o filme é em live-action, mas quando ele adentra a fruta e a mágica aparece, o longa se torna uma animação em stop-motion. A ideia dessa jornada de transição entre mundos está presente em toda a cinematografia do diretor.
Segundo ele, em entrevista ao CineFix, isso provém muito de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939), um filme que gostava muito quando criança. Nele, Dorothy (Judy Garland) também sai de uma realidade em preto e branco para o mundo colorido de Oz. A inspiração seria especialmente importante no seu maior clássico que, bem mais assustador, também trata sobre uma menina que aparentemente encontra um mundo muito mais fantástico e bonito que o seu, mas acaba descobrindo que nem tudo é o que parece: Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009).
Baseado no livro do autor britânico Neil Gaiman, e dessa vez com o estúdio Laika, Selick conta a história de uma garota que se muda para uma casa velha, em um bairro cinza e com vizinhos estranhos. Seus pais parecem não se importar com nada disso acontecendo ao redor dela. Até que ela encontra uma porta em seu quarto, que a leva a seu outro mundo.
Sua outra mãe é alegre e cozinha deliciosas sobremesas; seu outro pai é engraçado, canta e toca para ela, além de cultivar um belo jardim de flores que formam do céu o rosto da menina. Uma única estranheza, no entanto: todos possuem botões no lugar dos olhos. Mas, para continuar ali, ela terá que costurá-los também. É aí que a verdade começa a aparecer.
Em Coraline, Selick estabelece um diálogo direto com a criança, que vive medos e dilemas que são completos e reais. Nunca tentando criar uma trama menor ou boba só porque é destinada ao público mais novo. Em seus filmes, a jornada faz com que seus personagens se reencontrem onde pensavam não haver mais lugar para eles, como Coraline com sua família ou Jack com sua cidade, e também que se redescubram, como James com seu pêssego gigante.
Como o terror infantil aparece hoje em dia e como a criança lida com ele
Beatriz Saldanha enxerga o contexto atual do gênero com positividade e considera que ele não perdeu espaço entre o público infantil. “Acho que talvez não tenhamos tido grandes filmes sendo lançados, o que dá a impressão de que a produção diminuiu”.
Também explica que a expansão do streaming gera uma gama de conteúdos cada vez mais nichados e menos fenômenos globais. “Outra coisa a se pensar é que, com a diluição do audiovisual no cinema, na televisão, no streaming e na internet, nós temos hoje em dia uma variedade muito maior de produtos audiovisuais voltados às crianças, e cada vez mais específicos em termos de faixa etária, então isso pode acabar se diluindo”, afirma.
O professor Pegoraro concorda que o medo e o terror não desapareceram dos filmes para crianças e que existe atualmente uma produção infantil mais segmentada. No entanto, segundo ele, essa especificação é um retrato de “um mercado mais cuidadoso, onde o medo continua existindo, mas surge mais filtrado pela comédia, pela animação, pela fantasia ou por uma estética fofa do horror”, diferente do medo trabalhado nos anos 1980 e 1990, que lidava com “crianças em perigo, monstros, mortes sugeridas, vilões muito assustadores e uma confiança maior de que o público infantil poderia lidar com esse tipo de experiência.”
As interpretações são confirmadas por uma série de exemplos. A franquia Família Addams é um caso recente interessante. A série da Netflix Wandinha (Wednesday, 2022-), com episódios dirigidos por Burton e estrelada por Jenna Ortega, tem sido um sucesso de audiência voltada para o público adolescente, com elementos mais fiéis ao gênero de terror. Já a Illumination, estúdio dos Minions, lançou dois filmes animados da gótica família direcionado às crianças: A Família Addams (The Addams Family, 2019) e A Família Addams 2: Pé na Estrada (The Addams Family 2, 2021).
Gil Kenan, o diretor de Casa Monstro, roteirizou a volta da franquia Caça-Fantasmas para os cinemas com Mais Além (Ghostbusters: Afterlife, 2021) e Apocalipse de Gelo (Ghostbusters: Frozen Empire, 2024). Tendo crescido com Gremlins, o cineasta defende que as crianças de hoje em dia tenham uma “relação visceral” com o terror.
“Eu ainda recebo mensagens, anos depois, de pessoas contando como o filme representou uma experiência de terror central para elas como crianças. Eu vou ser honesto, eu fico orgulhoso com isso. Porque amávamos sentir isso quando éramos crianças”, disse Kenan, sobre Casa Monstro, em entrevista ao portal Polygon.
Sobre as diferentes vivências das crianças em um filme de terror, Saldanha contextualiza: “Já vi crianças que têm medo até de entrar num cinema para ver uma animação comum, outras que adoram filmes como Coraline e se divertem bastante, outras que também adoram o filme apesar de sentirem muito medo dele”.
Ela acrescenta que, com a orientação dos pais, filmes destinados a faixa etária das crianças, como Casa Monstro, Coraline e Estranho Mundo de Jack, podem acrescentar ao processo de amadurecimento dos pequenos. “O horror é um gênero complexo e paradoxal por natureza e, quando bem intermediado pelos responsáveis, pode ser não apenas uma excelente fonte de entretenimento, mas também de reflexão. São filmes que falam sobre família, relações humanas, luto, vida após a morte”.














