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Entenda a história do cinema de terror brasileiros

Embora o gênero seja amplamente consumido aqui, ainda não há grande palco para produções nacionais
Por Heloisa Falaschi (heloisafalaschi@usp.br)

No dia 31 de outubro, o Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, é comemorado em diversas partes do mundo. No Brasil, apesar da data corresponder ao Dia do Saci, tradições tipicamente estadunidenses são consumidas, inclusive os filmes de terror. Diante de um grande volume de produções internacionais, há pouco espaço sobra para obras nacionais. Afinal, existem filmes de terror brasileiros?

Primeiramente é importante definir o que são filmes de terror. “Boa parte deles versa sobre os mistérios que envolvem a vida e a morte, os embates entre as forças do bem e do mal, e a interferência de elementos sobrenaturais ou irracionais como fatores determinantes no mundo cotidiano”  define Laura Cápena, jornalista e pesquisadora de cinema ao se basear no pesquisador Lúcio dos Reis Piedade, autor da dissertação de mestrado A cultura do lixo: horror, sexo e exploração no cinema (Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, 2002) que investiga as relações entre cinema e horror.

A primeira aparição de temáticas relacionadas ao terror no cinema nacional foi nos anos trinta. Segundo Carlos Primati, membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), em artigo para a Revista E, essa presença ocorreu “em tom de deboche” na comédia musical O Jovem Tataravô (1936). Inspirado na peça teatral O Tataravô, a trama decorre a partir da compra de uma caixa mágica que faz com que o protagonista traga seu tataravô, Victor, morto aos 26 anos, de volta à vida. Apesar de seu teor cômico por mostrar trazer uma relação familiar inusitada com figura jovem retratada como tataravô, a obra reproduz diferentes preconceitos e estereótipos machistas e xenofóbicos disfarçados de piadas.

Especialistas apontam que a comédia musical dirigida por Luis de Barros, brasileiro a ter indícios que se relacionam ao gênero
de terror [Imagem: Reprodução/IMDB]

Também cita que o primeiro filme brasileiro a se auto enquadrar no gênero foi À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964). Mesmo que títulos anteriores tivessem características do terror para traçar histórias psicologicamente carregadas, a obra de José Mojica Marins por meio de fatores narrativos e visuais, ditava as principais feições do terror brasileiro.

Com a bizarra feição e modo de vida de Zé do Caixão (José Mojica Marins), o filme explora a crueldade humana de modo cru. Ao partir da obsessão em dar continuidade ao seu sangue, o protagonista comete violência sexual que culmina na busca por vingança da vítima. Mesmo com o realismo das ações humanas, o teor fantasioso do filme surge com alusões frequentes ao intitulado mundo dos mortos.

Para além da caracterização de Zé do Caixão, a direção artística e de fotografia do longa criam a atmosfera sombria que acompanha a narrativa da história. Alto contraste entre os tons de preto e branco da película e posicionamentos de câmera incisivos, ativam o desconforto no espectador.

Os planos de câmera definem aspectos como enquadramento e distância entre a câmera e o personagem, eles podem evocar sensações ao espectador a depender
de como são esquematizados
[Imagem: Reprodução/IMDB]

 À meia noite terror foi lançado

Apesar do gênero ser amplamente consumido em território brasileiro — principalmente fora do cinema, em programas de rádio e televisão —, a quantidade de produções fílmicas de terror e horror nacionais quando comparadas com obras de outros gêneros, conforme afirma Cápena.

Em artigo para o Portal Brasileiro de Cinema, a pesquisadora salienta que, a partir da análise de sinopses dos filmes presentes no livro Dicionário de filmes brasileiros de Antônio Leão da Silva Neto, há “mais de uma centena de títulos ligados ao horror que não foram identificados dessa maneira e que tampouco reunidos e examinados sob esta perspectiva”.

“Sua ausência é mais historiográfica do que histórica.”

Laura Cápena em artigo para o Portal Brasileiro de Cinema

A pesquisadora destaca a ideia do crítico de cinema  Jean-Claude Bernardet ao citar que a falta historiográfica se deve à ideologia dominada por uma elite de intelectuais — como críticos de cinema e historiadores. A busca por uma “tradição cinematográfica genuinamente brasileira” e pela consolidação de uma cultura do cinema nacional trouxe o desprezo ao terror por parte dessa classe que classificava o cinema de gênero como inferior.

 Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) é uma das obras mais importantes do Cinema Novo Brasileiro, fruto do modernismo que buscava retratar a identidade do país nas telonas
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Apesar de filmes anteriores contarem com aspectos do horror, o primeiro cineasta a lançar publicamente um filme do gênero terror foi José Mojica Marins. À Meia-Noite Levarei Sua Alma foi dirigido, roteirizado e protagonizado por Mojica e contava a história de um agente funerário com aparência excêntrica. O clássico foi responsável por estrear Josefel Zanatas (José Mojica Marins), popularmente conhecido como Zé do Caixão.

O Terrir, gênero cinematográfico criado por Ivan Cardoso, diretor das obras O Segredo da Múmia (1982) e As Sete Vampiras (1986), também foi precursor de temáticas horripilantes no cinema brasileiro. Nosferato no Brasil (1971) foi o primeiro filme do gênero que tem teor paródico de películas de terror estadunidenses misturada com as chanchadas brasileiras. Por mais que apresente papel importante em relação a presença de histórias ligadas ao terror nas telonas, as obras exploravam o gênero de modo, majoritariamente, satírico.

Pelas lentes de uma Super 8, filmadora de baixo custo, cenas que provocavam risos e suspense traçam a narrativa de um ser sobrenatural em em território brasileiro [Imagem: Reprodução/Youtube/@rodrigomadeira

A Boca do Lixo como espaço de nascimento do terror

Para além do Terrir, o cinema de terror brasileiro tem ligação próxima às pornochanchadas. Parte das produções de Mojica e outros cineastas ligados ao terror eram produzidas na Boca de Lixo, polo de realização de filmes de baixo orçamento em São Paulo. Localizado no bairro da Luz, o local possuía produtoras responsáveis por filmes que contribuíram para o cinema popular, como O Bandido da Luz Vermelha (1968), A Mulher de Todos (1969) e diferentes obras do próprio Mojica.

A série Magnífica 70 (2015) apresenta parte dos bastidores no local que tem seu início datado nos anos 1920, com a instalação de empresas distribuidoras nas proximidades da região
da Luz por ser perto de ferrovias
[Imagem: Reprodução/IMDb]

No final dos anos 1960 que “a região começou a se afirmar como importante centro produtor”, conforme destaca Arthur Autran, produtor cinematográfico. No artigo “A Boca: centro do cinema voltado para o público popular” para o Portal Brasileiro de Cinema, ele aponta que isso ocorreu pelos estímulos de “medidas do governo ditatorial implantadas através do Instituto Nacional de Cinema (INC), criado em 1966”.

“Se é possível falar em uma época ‘de ouro’ do cinema de horror nacional, ela se concentra entre 1963 e 1983”

Laura Cápena em reportagem da Revista Pesquisa FAPESP

Películas como Trilogia do Terror (1968), que reuniu grandes nomes do cinema da época, foram lançadas nesse contexto. A obra, dirigida por José Mojica Marins, Ozualdo Candeias e Luís Sérgio Person, foi produzida com o objetivo de formar três episódios da série de televisão Além, muito além do além (1967), como afirma Reinaldo Cardenuto, Professor Adjunto do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF), em artigo para o Portal Brasileiro de Cinema. A série foi um dos primeiros programas da Rede Bandeirantes e de José Mojica Marins. Consistia em diferentes histórias de terror contadas por Zé do Caixão em cada epsódio.

O professor alega que Candeias e Person exploraram a “a intelectualização de temas originalmente voltados para o consumo popular”. Já Mojica trabalhou outros recursos e trouxe à tona “elementos comerciais próximos aos que o consagraram na pele de Zé do Caixão em longas-metragens como À meia-noite levarei sua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967)”.

O erotismo e a violência

A violência bruta era comum em filmes de terror desse contexto, principalmente nas obras de Mojica. Isso se dá pela influência do Grand Guignol — gênero dramatúrgico — , dedicado aos horrores da carne e do espírito e evocava violência extrema de maneira explícita e realista, apesar do caráter ficcional das narrativas encenadas, como segundo Lúcio Reis Filho e Laura Loguercio Cánepa no artigo  “O horror como performance da morte: José Mojica Marins e a tradição do Grand Guignol” publicado na revista Galáxia.

“Sem dúvida o teatro de horrores francês do Grand Guignol se mostra como um dos pilares mais importantes para a constituição do horror cinematográfico desde o começo do século XX

Laura Cápena e Lúcio Reis Filho em artigo para revista Galáxia

Cápena e Reis Filho ainda afirmam que houve “explosão do gênero ao longo dos anos 1970 através de dezenas filmes eróticos com elementos de horror — dentro de um ciclo mais amplo de cinema erótico conhecido como ‘pornochanchada’”. E apontam a presença central de Mojica, que obteve “sucesso internacional conquistado por sua obra em coleções distribuídas em vídeo nos EUA e Europa nos anos 1990”.

A Encarnação do Demônio (2008) marca a volta
e a despedida de Zé do Caixão
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Eles apontam que parte desse sucesso se deu a propensão na época de filmes explícitos de terror também chamados de torture porn. Ainda assim é importante ressaltar as problemáticas de evocar temas desse tipo, principalmente pelas atrizes submetidas a cenas de violência sexual explícita e outras formas traumáticas de torutura.

Trajetória para a relevância atual

Desde o final dos anos 70 o gênero terror vem sendo, ao poucos, tirado da linha de marginalização. Entretanto, como Lúcio Reis Filho alega no artigo “A cultura do lixo : horror, sexo e exploração no cinema”, somente nos anos 1990 o gênero se estabaleceu.

A trashmania, alta na demanda pública de filmes com pequenos orçamentos e baixa qualidade técnica, foi uma das responsáveis pela guinada nos filmes de terror — frame do filme Plano 9 do Espaço Sideral (Plan 9 from Outer Space, 1959) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Ele deu destaque à 6° Mostra Banco Nacional de Cinema como ponto culminante para a relevância das produções. “Apresentou ao público brasileiro o cinema de Ed Wood, deu novo fôlego e abriu as portas do mercado norte-americano ao trabalho de José Mojica Marins (“Coffin Joe”)  e, principalmente, serviu para mostrar que havia um Iugar ao sol para esse tipo de produto, insinuando que esses filmes estranhos e bizarros representavam tanto os anseios do público, como eram frutos de uma cultura popular”, concluiu.

Por mais que Mojica tenha sido uma grande figura e influência de terror brasileiro. Outras formas estilísticas, temáticas e narrativas, que se afastam das produções do cineasta e percorrem novos caminhos, foram exploradas.

Desde obras que trazem o terror a partir de aspectos psicológicos, até filmes que o abordam por meio de figuras sobrenaturais contribuem para a variedade atual do cinema brasileiro
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Ao longo dos anos 2000 e 2010, produções brasileiras que traziam à tona abordagens mais diversas foram lançadas. Filmes como As Boas Maneiras (2017), Morto Não Fala (2018) Mormaço (2019) e O Lobo Atrás da Porta (2013) abordam diferentes assuntos, desde problematização de problemas sociais, até mesmo a utilização de figuras místicas como ponto central da história.

O terror continua a ser explorado no Brasil com novidades promissoras como Enterre seus mortos (2024), estrelado por Selton Mello — que contou com exibição especial na ExpoCine 2025 — e A Própria Carne (2025) que foi anunciado na PerifaCon 2025 e esteou no dia 30 de outubro do mesmo ano.

A Própria Carne se passa durante a Guerra do Paraguai [Imagem: Reprodução/Youtube/@apropriacarne]

*Imagem capa: [Frame do filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver/Reprodução/IMDb]

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