Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br) e Pedro Mattos (pedromattostr@usp.br)
O Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, é uma celebração tradicionalmente comemorada no dia 31 de outubro. Atualmente, o feriado se tornou um fenômeno global de cultura pop, entretenimento e de forte impacto comercial, com símbolos e tradições que giram em torno de terror e susto.
A aparência é uma das primeiras impressões no processo de encantar e assustar. Com isso, a maquiagem artística e os efeitos práticos são fatores cruciais para o primeiro contato com o público.
O backstage da maquiagem artística, entre técnicas e materiais
O universo da maquiagem artística e dos efeitos práticos — em inglês Special Effects (SFX) — no audiovisual tem como objetivo garantir a imersão total do espectador na narrativa. Esse processo envolve uma fusão entre ciência e maquiagem, química dos materiais e estudo anatômico que começa antes mesmo do ator ou do modelo sentar na cadeira do maquiador. Para que a ilusão funcione perfeitamente na tela, a caracterização precisa estar integrada a todas as fases da filmagem. O trabalho do maquiador artístico responsável só termina quando o produto final chega ao público, já que trata-se de uma produção em equipe dos profissionais da caracterização, com os cinegrafistas e a equipe de edição.
O ponto-chave, que é de comum acordo entre os profissionais da área, é a busca constante pelo realismo, “uma queimadura tem que ser como uma queimadura; ela não precisa ser certinha, retinha, ela precisa ser realmente do jeito que aconteceu”, comenta a maquiadora artística e artista Agata Gama, da Slug Maquiagens. Ainda menciona que uma estratégia para garantir que um corte pareça o mais autêntico possível é a construção em camadas: “Se eu preciso de uma fratura exposta, vou fazer primeiro a carne, para depois fazer o osso, para então, finalizar com a pele. Se precisar de uma gordura, um pus, coisas em cima, eu vou fazer na finalização.”
Em busca do efeito realista, a primeira etapa é analítica e teórica. Ela envolve a observação e pesquisa de componentes da cena que podem afetar a maquiagem, como o ambiente, a iluminação do set, a dinâmica de cena e, sobretudo, a lógica física de como a ferida, queimadura ou prótese a ser construída existiria no mundo real. Para isso, aspectos como cor, textura e tempo de degradação da pele são levados em conta. “Quando você cria uma maquiagem você não pensa somente na contrução dela, mas sim em um todo, de como ela vai ser desenvolvida. Assim me transporto para dentro da cena para poder viver a realidade do momento”, diz o visagista e maquiador artístico brasileiro, três vezes vencedor do Prêmio Avon de Maquiagem em Artes Cênicas, Claudinei Hidalgo.
A escolha dos materiais e o controle da química também são fundamentais para um bom resultado final, considerando tanto a qualidade quanto a segurança do indivíduo maquiado. Os produtos utilizados em maquiagens artísticas e efeitos práticos diferem das produções clássicas do tipo glam, em diversos pontos, como finalidade, fórmula e finalização. O primeiro busca modificar a estrutura facial, criar texturas e simular efeitos tridimensionais, por meio de cosméticos mais densos, pastosos e ultra-pigmentados, como tintas aquacolor ativadas por água, ceras densas, óleos pesados (clown) e látex refinado. Já o segundo, procura uniformizar a pele e realçar traços naturais através de bases fluidas e leves à base de silicone, água ou óleos finos. Hoje em dia, o mercado de maquiagens conta com produtos e marcas especializadas, desenvolvidos para cada um dos estilos: clássico, artístico, profissional e, até mesmo, o no-makeup.
No cotidiano das gravações, sejam elas para filmes, séries ou até mesmo videoclipes, o ritmo de produção dita a escolha das técnicas aplicadas. De acordo com Hidalgo, em longas-metragens e séries de televisão, a maquiagem exige um rigoroso trabalho de continuidade: processos complexos podem levar de quatro a doze horas diárias e demandam um registro fotográfico detalhado de cada etapa para garantir que o personagem permaneça idêntico ao longo de semanas de filmagem. Por outro lado, em eventos ou gravações de clipes, o tempo para desenvolver a maquiagem costuma ser menor, pois o trabalho geralmente acontece em apenas uma diária, assim o planejamento e a escolha das técnicas deve ser diferente.
Boas caracterizações que marcaram
Uma maquiagem bem feita pode moldar a percepção do público e aumentar ainda mais a imersão, seja em uma obra audiovisual ou em uma atração de horror.
Além de assustar a plateia, o bom trabalho inspira outros artistas do ramo. “Quando meu pai trabalhou no Playcenter, ele fez uma caracterização de vidro cenográfico, e eu fiquei muito curiosa para saber como é havia feito aquilo, porque realmente ficou muito realista. Foi uma técnica de quando eu era criança e via todos os bastidores do parque Playcenter de perto. Realmente, me marcou.” conta Agata. A maquiadora se inspirou no trabalho do pai para, mais tarde, aplicar técnicas similares em suas produções e em suas aulas de caracterização.
Hidalgo cita o filme A Baleia (The Whale, 2022), vencedor do prêmio Oscar na categoria de melhor maquiagem em 2023, com a caracterização do ator Brendan Fraser em um homem com obesidade:, “Você consegue entender que aquele trabalho de maquiagem traz para o ator todo o peso do personagem e personalidade. Você se prende ao filme o tempo todo sabendo que tudo é maquiagem, mas chega a ser tão real que você duvida”.
Um caso recente na cultura pop é a caracterização do vilão Vecna, da série Stranger Things (ano de inicio – ano de fim), na qual o ator Jamie Campbell Bower passava de seis a sete horas na cadeira de maquiagem. Foi criada pelo artista Barrie Gower, conhecido por outros trabalhos marcantes no mundo das séries, como na caracterização do antagonista da série Game of Thrones (ano de início – ano de fim), o Rei da Noite.
O desastre dos erros na caracterização
Existem casos de maquiagens artísticas em que o resultado não foi positivo. Quando isso acontece, o erro é evidenciado nas gravações e pode quebrar instantaneamente a credibilidade da narrativa. Mesmo em grandes produções com orçamentos milionários, decisões de design, limitações de materiais ou falhas na leitura de luz do set podem as transformar em alvos de comentários negativos e depreciativos para os espectadores.
Mas também há situações em que o resultado aparenta ser de ótima qualidade, porém os bastidores envolvem problemas relacionados à segurança dos artistas. O filme “O Mágico de Oz” de 1939, é um exemplo disso. Gravado antes da regulamentação rigorosa sobre o uso de produtos químicos no meio audiovisual, a busca por realismo estético custou a saúde de vários membros do elenco.
O ator originalmente escalado para interpretar o personagem do “Homem de Lata”, Buddy Ebsen precisava cobrir o corpo inteiro com uma pasta feita de pó de alumínio durante o processo de caracterização para o papel. Porém, o pigmento metálico se acumulou em seus pulmões, bloqueando sua respiração e, apenas nove dias após o início das filmagens, ele teve um colapso e foi internado às pressas em estado crítico na UTI. O trauma pulmonar foi tão grave que o ator precisou ser substituído por Jack Haley, e a produção trocou a fórmula pura por uma mistura de tinta com creme de banha, que provocou uma severa infecção ocular em Haley.
Outra afetada pela química dos produtos foi Margaret Hamilton, a Bruxa Má do Oeste, pois para alcançar a tonalidade verde viva sob as câmeras de Technicolor, a equipe utilizou uma tinta à base de cobre. Ela era tão agressiva que exigia uma limpeza profunda com solventes fortes ao fim de cada diária, corroendo a pele da atriz. A situação atingiu o ápice quando uma falha no mecanismo de um alçapão com fogo provocou queimaduras de segundo e terceiro graus no rosto e nas mãos de Hamilton; a presença da tinta à base de cobre em sua pele aberta reagiu com o calor, causando uma intoxicação grave que a afastou das gravações por semanas.
Bert Lahr, que deu vida ao Leão Covarde foi mais uma das vítimas da equipe de caracterização do filme. Sua fantasia era feita de pele e couro de leão de verdade e pesava aproximadamente 40 quilos, a maquiagem facial pesada, era feita com próteses rústicas de cola e látex aplicadas no queixo e no nariz, o que impedia a transpiração e a movimentação natural do rosto. Sua retirada exigia horas para ser removida com solventes agressivos que irritavam a pele. Além disso, a estrutura do focinho era tão rígida que Lahr não conseguia ingerir alimentos sólidos durante as diárias, comendo apenas por meio de canudos durante longos meses de filmagem.
Comparação com CGI e atualidade
Assim como outras tecnologias, a maquiagem artística e prostética segue evoluindo, mesmo que trabalhos mais antigos continuem impressionantes e convincentes.
Um exemplo é o trabalho no longa-metragem ‘A Hora do Pesadelo’ (A Nightmare on Elm Street, 1984), cujos efeitos práticos prevalecem relevantes, seja na caracterização do ator Robert Englund como o vilão Freddy Krueger, ou nas cenas dos pesadelos das vítimas, comparadas até mesmo com suas versões na releitura moderna do filme, lançada em 2010 e de mesmo nome. A comparação se dá graças ao uso de imagens geradas por computador, mais conhecidas como CGI (Computer-Generated Imagery), na nova versão, muito criticada por parecer mais artificial e menos assustadora do que o longa original, que usava iluminação, ângulos e maquiagem na produção.
Ao ser questionado sobre a comparação entre efeitos práticos e CGI, Claudinei Hidalgo constatou que “as maquiagens e próteses passam mais credibilidade e se encaixam de maneira mais perfeita na cena e na iluminação. Mesmo quando você sabe que se trata de uma maquiagem, se torna muito mais realista do que uma computação gráfica e faz com que o telespectador continue imerso na cena, trazendo mais realismo aos sentimentos.”
Neste contexto, inspirado por outras obras do subgênero do horror corporal, o longa A Substância (The Substance, 2024), se destacou pelo uso majoritário de próteses e maquiagem na caracterização. As atrizes Demi Moore e Margaret Qualley, passavam por um processo de aproximadamente 8 horas diárias de produção com a equipe liderada pelo artista Pierre-Olivier Persin, o que rendeu uma estatueta do Oscar de 2025, na categoria de melhor maquiagem.





