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Apoiado em nostalgia, sangue novo e divas pop, o rock volta a ter força

Embora ainda não ultrapasse outros gêneros, a sonoridade tem marcado presença em diversos pontos do cenário musical
Dupla Oasis se apresentando no palco
Por Yuri Umemaru (yuri.umemaru@usp.br) 

Depois de um período de domínio cultural, o rock saiu do mainstream entre as décadas de 1990 e 2000. As razões para isso, segundo informações do jornalista e cientista de dados Daniel Parris, são diversas e incluem desde a ascensão do hip-hop e do R&B até a fragmentação em subgêneros como indie, nu metal e pop punk. Desde então, o gênero tem sido visto como nichado e com pouco espaço na cultura pop. No entanto, é um cenário que tem apresentado mudanças.

De acordo com uma reportagem do portal Tenho Mais Discos que Amigos! (TMDQA!), o rock foi o gênero musical que mais cresceu em 2025 no cenário global, com um aumento de 6,4% e 260,5 bilhões de reproduções nas plataformas de streaming. Além disso, na Billboard 200, principal parada dos Estados Unidos, álbuns como Skeletá (2025), do Ghost, e Even in Arcadia (2025), do Sleep Token, fizeram história ao alcançarem a primeira posição no ano passado depois de um hiato de cinco anos — quando o AC/DC conseguiu o feito com o disco Power Up (2020).

Junto a esses números, figuras da música pop como Olivia Rodrigo vem apresentando trabalhos com forte influência da sonoridade e estética rock, em uma espécie de revival do gênero. Por isso, o Sala33 procurou entender o que está por trás desse fenômeno multifacetado.

Novas gerações

Para o jornalista Igor Miranda, que escreve sobre música desde 2007, em um momento no qual estamos cada vez mais nostálgicos e em que o público parece estar priorizando música orgânica em vez de digital, essa guinada de retorno ao rock não espanta. “O gênero sempre esteve presente no imaginário pop, ainda que ligeiramente marginalizado em tempos anteriores. Seja pelo crescimento do uso de IA generativa, efeitos dos anos pandêmicos ou simplesmente por uma movimentação cíclica, seria natural o rock voltar a ganhar espaço”.

Essa análise é compartilhada por Valéria Brandini, antropóloga especialista em tendências de mercado, que, em uma entrevista à CNN Brasil, pontua que as gerações mais novas buscam maior autenticidade e encontram no gênero. Ela também cita a mudança na forma de consumir música, apontando que os jovens revisitam o rock em um contexto de redescobrimento da mídia física, como o CD — que registrou um aumento de 16% nas vendas nos Estados Unidos em 2026.

Redes sociais como TikTok também influenciam o cenário. Uma análise da página Substream Magazine aponta que o algoritmo do aplicativo favorece trilhas sonoras emocionalmente intensas ou de alta energia, com o rock se encaixando perfeitamente. Segundo a pesquisa, riffs de guitarra e viradas de bateria se tornam ideais para clipes de 15-30 segundos que buscam engajamento no app, o que beneficia artistas de rock alternativo, emo ou nu metal.

Além dessa possibilidade de entrar em contato com músicas antigas — que, muitas vezes, acabam viralizando —, os usuários da plataforma também utilizam imagens e sons em vídeos para difundir a ideia de que o rock não é algo estritamente ligado à música, mas trata-se também de um elemento de lifestyle. Tiago Lima, fã do gênero, acha que o rock sempre foi sobre isso. “Antigamente, eu até diria que é coisa de poser, mas é inegável que o app apresenta um universo de muitas bandas e músicos diferentes para os mais novos”.

Ghost foi um exemplo de banda impactada pelo TikTok. Por conta do uso em edits, a canção Mary on a Cross, lançada em 2019, se tornou um enorme sucesso, chegando à parada Billboard Hot 100 em 2022 [Imagem: Reprodução/dr_zoidberg/Wikimedia Commons]

Ao mesmo tempo, há uma característica que vem se destacando: ao invés de uma fórmula “convencional”, o rock está se misturando com outras sonoridades. “Nenhuma onda de popularidade do rock foi totalmente ‘pura’. Por exemplo, o grunge, quando surgiu, retomou a estética punk e uma série de conceitos que sequer estão relacionados à música”, afirma Miranda. Ele reitera que é curioso notar como artistas e bandas populares têm elementos externos cada vez mais presentes em suas canções.

“Sleep Token carrega R&B e eletrônico em sua essência, enquanto Bring Me the Horizon é basicamente uma banda de hyperpop. Como a geração atual cresceu ouvindo música por algoritmo e não via curadoria, o conceito de “gênero musical” soa defasado para ela. Não se separa mais música em prateleiras específicas.”

Igor Miranda

Nomes fortes do pop abraçam o rock

Olivia Rodrigo é um dos nomes mais lembrados ao se falar da ascensão do rock atualmente. Em 2021, ela lançou seu primeiro álbum, Sour. Apesar de tido como um disco de pop comercial, faixas como good 4 u chamaram atenção pelo destaque às guitarras e por evocar a sonoridade pop punk dos anos 2000. Na época, não faltaram comparações com Avril Lavigne e Paramore — banda que chegou a receber créditos de composição da artista posteriormente.

Seu segundo disco, GUTS (2023), seguiu a mesma linha, e explorou o rock com maior evidência — principalmente na turnê, quando ela chegou a dividir o palco com David Byrne, membro fundador dos Talking Heads, e Robert Smith, do The Cure. Porém, foi em seu lançamento mais recente, you seem pretty sad for a girl so in love (2026), que os críticos consideram que Rodrigo assumiu de vez o estilo. Inspirado por new wave e pós-punk e com participação de Robert Smith nos vocais de uma música, a sonoridade foi um ponto destacado pelas reviews e pelos fãs.

Em sua coluna no Estadão, a jornalista Carol Prado chegou a afirmar que “Olivia Rodrigo é The Cure para as novas gerações” [Imagem: Reprodução/Raph_PH/Wikimedia Commons]

Além dela, nomes como Lady Gaga e Chappell Roan são outros casos evidentes. Em um especial para a Apple Music chamado de MAYHEM Requiem, lançado em maio de 2026, Gaga fez novas versões das músicas de seu último álbum, com arranjos e texturas mais pesadas em uma mistura de pop, eletrônica, grunge e rock industrial. Um destaque da nova roupagem foi a faixa Killah, que até incorpora elementos de Closer, clássica canção do Nine Inch Nails.

Já Chappell chamou atenção por fazer cover de Barracuda, da banda de hard rock Heart, em suas performances. Em 2025, durante um show em Nova York, a guitarrista do grupo, Nancy Wilson, foi chamada ao palco e tocou com a artista — que chegou a declarar em entrevista à BBC Radio que a música é sua favorita. Em acontecimentos do tipo, na avaliação de Igor Miranda, “todo mundo sai ganhando”, visto que ambos são “expostos a públicos distintos e validações distintas”.

“É claro que é uma versão mais pop mesmo comparada ao pós-punk, que já seria uma representação do rock com maior apelo popular. Mas, pra mim, ela faz isso de uma forma que realmente parece uma influência genuína ao invés de uma escolha estratégica.”

Tiago Lima a respeito da sonoridade de Olivia Rodrigo

Apesar desses detalhes, na visão de Sylvia Süssekind, apresentadora do Toca UOL, o rock ainda sofre com o gatekeeping. O termo faz referência ao ato que alguns admiradores mais antigos ou puristas fazem de tentar invalidar novos públicos e bandas — o que costuma ocorrer com Olivia Rodrigo, sempre classificada como “pop demais”. Esse cenário convive paralelamente com o reconhecimento da expansão das referências do gênero pelos críticos, como Rob Sheffield, editor colaborador da revista Rolling Stone, que afirma que “as rainhas do pop são os novos deuses do rock”.

Bons números, mas limitado

O crescimento nas plataformas de streaming, citado no início da matéria, não foi um movimento isolado. Em 2025, um levantamento da Pollstar mostrou que o rock também esteve presente na lista de maiores turnês do ano com o retorno do Oasis, que ocupou o segundo lugar com mais de dois milhões de ingressos vendidos. Em outra lista, feita pela Billboard, os shows de Iron Maiden e Linkin Park apareceram, respectivamente, em 14º e 15º lugar.

Com Emily Armstrong como nova vocalista do grupo, a tour do mais recente disco do Linkin Park, From Zero, faturou U$ 150,6 milhões ao longo de 51 datas ao redor do mundo [Imagem: Reprodução/Luca Dell’Orto/Wikimedia Commons]

Porém, mesmo com essa popularidade e influência, os números apontam que, no streaming, o rock ainda não é uma das sonoridades mais ouvidas, principalmente no Brasil. Em uma verificação feita no Spotify pelo Sala33 no dia 20 de setembro, o Top 50 do país não continha nenhuma música do gênero, com predomínio de sertanejo e funk. Já no Top 50 Global, foram encontradas seis canções — e todas de bandas já estabelecidas, como The Police e The Killers.

Este padrão foi analisado recentemente por um relatório intitulado “Geração Z e o Poder da Nostalgia Histórica”, produzido pela Human Flourishing Lab e pela Discover.ai. No estudo, foi percebido que o elemento da nostalgia tem tido força no comportamento das novas gerações, que, mesmo podendo ouvir bandas novas, preferem as antigas. Tiago diz que isso é “inegável” e que presta atenção nos fãs jovens do Oasis, por exemplo, pois “muitos nem sequer eram nascidos na época do auge da banda”.

Quanto ao revival promovido pelos ícones do mainstream, Igor Miranda reafirma que talvez seja por conta de uma “movimentação cíclica”, mas salienta que é interessante ver o rock, de certo modo, “desmarginalizado” na música pop. Se esse movimento veio para ficar por um bom tempo ou não, a imprevisibilidade é a resposta. “Não dá para prever se será uma tendência rápida”, ele comenta. “Com a velocidade em que tudo corre, fica impossível prever como estaremos daqui cinco anos”.

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