Por Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)
Na última terça-feira (08) ocorreu no Espaço Petrobrás de Cinema a cabine e a coletiva de imprensa de Virtuosas (2025), primeiro longa-metragem da diretora Cíntia Domit Bittar. O filme mistura drama e horror e chega aos cinemas em 24 de setembro.
O enredo do longa acompanha um grupo de mulheres cristãs sorteado para participar de uma imersão exclusiva focada no desenvolvimento da feminilidade. Bittar afirma que a ideia para a construção do enredo surgiu diante da ascensão do negacionismo científico e suas consequências trágicas na sociedade. Ancorando-se no terror social, a diretora enfatiza que a produção é um “filme que explora a mulher dentro desse gênero não só como vítima ou sobrevivente, mas com diversas facetas”.
O gatilho para a produção do roteiro, escrito por Bittar em colaboração com Fernanda de Capua, foi a pandemia da Covid 19. A ideia inicial era fazer algo sobre o negacionismo e a questão anti-vacina, mas ao buscar algo que fosse mais abrangente, a diretora se deparou com a problemática das mulheres dentro de comunidades ultra conservadoras.
Ela destaca que as falas das personagens são baseadas em discursos propagados na internet e que algumas cenas são quase transcrições de diálogos encontrados em palestras e vídeos divulgados nas redes sociais. Segundo a diretora, tais discursos deveriam trazer medo ao público geral, mas acabam muitas vezes virando motivo de risada. “Nós erramos em não dar a devida importância para esse assunto”, afirmou.

[Imagem: Acervo Pessoal/Thaís Vicari]
Segundo Juliana Lourenção, que interpreta Lorena, uma das personagens sorteadas para participar da imersão conservadora, essa esfera e a busca pela perfeição no âmbito feminino são temas que sempre chamaram sua atenção. “[A perfeição] é inalcançável, mas quando você está no limite, na beira do colapso, entregar sua vida a uma coach é uma solução mágica” disse.
Já Maria Galant, que dá vida à personagem Germina, apontou que o cinema demora para ficar pronto: apesar de parecer uma caricatura do Brasil atual, o filme foi gravado há dois anos. Para ela, é assustador pensar que o país caminha em direção à atmosfera sombria em que o filme se passa.
A extrema direita se mostra em ascensão no mundo todo. Pautados pela insatisfação com a realidade atual e por um viés conservador, grupos de direita conquistam cada vez mais espaço na política e nas redes sociais — e utilizam a religião para legitimar seu discurso.
Através de dogmas religiosos, a ideia de feminilidade é associada à submissão da mulher, que é reduzida ao papel de mãe, esposa e dona de casa, cria e propaga-se um ideal misógino de uma “mulher perfeita” que deve sempre se portar de forma modesta e delicada, ideia explorada no longa.
Bruna Linzmeyer — que interpreta Virgínia, a influenciadora que encabeça o retiro e grande vilã do filme — relatou que a pesquisa realizada para a construção das personagens e a percepção da dimensão da onda conservadora atual “foi um susto”, e que no início houve um certo espanto ao se pensar em como colocar isso nas telas.
O filme trata, sobretudo, de mulheres que buscam sempre manter tudo sob controle, e para Linzmeyer, “um corpo sob controle sempre vaza”. De maneira histórica, as personagens femininas costumam ser vítimas de uma violência brutal nos filmes de terror, seja pela violação de seus corpos de forma explícita ou pela “incarnação do mal” Para a atriz, o filme faz um movimento importante ao colocar uma mulher como a grande vilã já que “geralmente a mulher carrega um mal no corpo, é possuída ou morre no final”.
Brisa Marques, que dá vida à Gorete, também abordou a questão da construção das personagens. Para Marques, o processo foi árduo e foi necessário manter uma “mente de artista” para se debruçar diante de notícias e registros de comunidades conservadoras e negacionistas.
Segundo a diretora, uma das partes fundamentais na construção da narrativa é a parte visual. Para ela, o trailer do filme não entrega tudo aquilo que o longa tem a oferecer, mas a estética diz tudo — e que foi ela a grande responsável pela reação de incômodo demonstrada por parte do público diante do teaser.
A diretora relata que diversas pessoas dentro da comunidade cristã atacaram o longa nas redes sociais e que chegou até a receber mensagens privadas sobre críticas ao trailer. Bittar conta que dialogou com pessoas que atacavam o filme e que, no fim, conseguiu convencer algumas delas de que o longa não é um ataque à religião, mas sim àqueles que a utilizam de forma distorcida para exercer poder sobre determinados grupos.
Bittar também afirmou que o lançamento do filme em ano de eleições foi algo planejado, e que a reação das pessoas diante do trailer já era esperada. Segundo o elenco, incomodar faz parte do fazer cinema. A diretora afirmou que fazer filmes sobre grupos é sempre interessante e que pretende explorar outras facetas do conservadorismo futuramente, abordando desde o arquétipo mais hippie e rural das mulheres virtuosas até o “universo coach” e o masculinismo.
Ao final da coletiva, Maria Galant enfatizou, ainda, que Virtuosas é um filme de terror em que o horror não está no que é visto, mas nos diálogos e em tudo aquilo que acontece em plena luz do dia.
*Imagem de capa: Acervo Pessoal/Thaís Vicari
