Por Marte Politano (marte.cp@usp.br)
Se alguém tivesse contado para Nicole naquela primeira assembléia, do dia 16 de abril, em que foi aprovada a greve dos estudantes na USP, que a vida dentro do espaço universitário e a imaginação política dela seriam alteradas permanentemente ela teria dado uma risada alta e ironizado com as “férias surpresa”.
A estudante ainda consegue lembrar vividamente o quanto ela e outros colegas de turma, entusiasmados em finalmente estar vivendo a tão sonhada vida uspiana pela primeira vez, reclamaram da paralisação. Naquele momento, as maiores preocupações dos calouros eram com os conteúdos das matérias e a entrega de trabalhos: se precisariam adiar alguma coisa, se iriam perder conteúdo ou notas, e quanto à rotina, se ainda deveriam ir ao campus, se precisariam recalcular a rota que já estavam acostumados e fazer a pé o caminho, agora já mais familiar, da estação Cidade Universitária, na linha esmeralda, até a Escola de Comunicações e Artes (ECA).
No núcleo familiar mais próximo de Nicole, quase todos os membros estudaram ou estudam em faculdades públicas. Então, para ela, a concretização de uma greve em algum momento dos quatro anos previstos para a graduação sempre foi uma certeza, embora ela não pudesse imaginar que seria ainda no primeiro semestre.
A visão de Nicole sobre toda essa mobilização estudantil, que antes era muito distante, quase um outro mundo, começou a mudar quando contam para ela sobre a minuta dos centros acadêmicos e como esta poderia acabar com qualquer vivência que não fosse estritamente acadêmica dentro da universidade. O possível fim dos espaços de convivência e lanchonetes, das atléticas, das torcidas organizadas, das festas e dos “inters” a preocupou, principalmente porque ela havia acabado de começar a descobrir o que são e a viver essas coisas. Isso foi suficiente para fazer ela ler as propostas divulgadas pela reitoria e entender quais eram as reivindicações dos estudantes.
A partir daquele momento, muito por conta do engajamento do Diretório Central dos Estudantes Alexandre Vannucchi Leme (DCE) da USP, dos Centros Acadêmicos (CAs) e outras entidades, a cada dia que passava a estudante se via mais envolvida nas mobilizações estudantis. Depois de aprender que as principais pautas do movimento estudantil na greve eram a criação de cotas para pessoas trans e um vestibular indígena, o aumento do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) — que, até então, era menos de um salário mínimo paulista, condições dignas de moradia no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), melhorias nos bandejões e o direito aos espaços de convivência no campus, ela passou a frequentar todas as assembleias possíveis, os atos e as manifestações, além de participar das atividades de greve.
Naqueles meandros de greve, ela entendeu a importância das entidades. Nos primeiros atos, ao ouvir a multidão cantando: “Nas ruas, nas praças / quem disse que sumiu / aqui está presente o movimento estudantil”, Nicole sentia até vergonha alheia. Ficava se questionando: “Será que está mesmo?”.
A partir do dia 7 de maio, não teve mais essa dúvida, após presenciar a ocupação da reitoria por estudantes. Quando tudo começou, havia apenas uma van com um sistema de som, poucos ritmistas de algumas baterias dos institutos e poucas centenas de estudantes aglomerados em frente ao prédio trancado. O ato foi lentamente reunindo mais pessoas, que repetiam perfeitamente todo o jogral iniciado e ouviam atentamente aos discursos dos líderes de cada movimento estudantil e dos representantes do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP).
Eventualmente, todos os ritmistas presentes, dos mais variados institutos e escolas da USP, pararam de tocar e envolveram todos os ali presentes num canto sincronizado, que dizia “pisa ligeiro, pisa ligeiro / quem não pode com a formiga / não atiça o formigueiro / então pisa ligeiro, pisa ligeiro / e quem não pode com a formiga / não atiça o formigueiro / quem não pode com a formiga / não atiça o formigueiro”. Para Nicole e muitas pessoas, provavelmente essa tenha sido a primeira vez em que foi possível enxergar as baterias universitárias também como agentes políticos e relevantes para a mobilização estudantil.
A imagem do formigueiro ficou ainda mais marcada assistindo ao momento em que os protestantes começaram a ocupar, de fato, a reitoria, como se montassem um novo formigueiro para si. Primeiro, só três pessoas escalaram a grade verde que separava a reitoria da multidão e subiram no teto da guarita vazia, dando gritos de ordem lá de cima para que o resto das pessoas avançassem. A massa de estudantes obedeceu e, em sincronia, começou a marchar em direção ao prédio. Até que a grade e, poucos minutos depois, a porta de vidro, fossem derrubadas e toda a recepção do prédio estivesse ocupada.
Os dias que seguiram foram lotados de correria, em todos os sentidos possíveis. Após a correria para tomar a reitoria, os CAs e o DCE passaram a correr contra o relógio para organizar atividades de greve — entre saraus, apresentações de música,oficinas, vigílias, manutenção do espaço, entrevistas, coletivas de imprensa, convocações para os próximos protestos e assembléias. Acredito que, para todos os envolvidos, desde os estudantes até os fantoches do governador, foram dias de muito aprendizado.
Na madrugada do dia 9 para o dia 10 maio, a correria voltou a acontecer, iniciada com gritos de “acorda! Polícia!” e acompanhada de súplicas dos dirigentes do DCE para que os militantes tivessem um mínimo de tempo para pegarem suas coisas e saírem do prédio pacificamente. Eles foram respondidos com um “corredor polonês” por parte dos policiais. Além da agressão gratuita, os agentes da Companhia de Ações Especiais de Polícia (CAEP) apreenderam pertences da maior parte dos estudantes que estavam ali e levaram alguns sob custódia. Da reitoria, a correria dos ocupantes se redirecionou para a delegacia, para onde alguns estudantes detidos haviam sido levados, em uma vigília para exigir suas liberações.
No dia 11 de maio, foi realizado um protesto conjunto de todas as universidade estaduais públicas de São Paulo: USP, Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em frente ao Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP). Naquele ato, milhares de estudantes se reuniram em frente ao CRUESP às 13h para pedir, pacificamente, que os reitores das universidades ao menos ouvissem às demandas apresentadas. Em resposta, foram recebidos com gás lacrimogêneo e de pimenta pelos policiais presentes no local. Nicole não se lembra de um único estudante que decidiu ir embora da manifestação, mesmo após a truculência da polícia.
Ainda naquele mesmo ato, outra situação a fez crer na capacidade de organização e de autogestão das entidades estudantis, principalmente os DCEs das universidades: o momento em que as milhares de pessoas reunidas passaram pelo Hospital das Clínicas em completo silêncio. Nenhum canto ou grito de protesto daqueles que todos já tinham decorado aquele ponto da greve, nenhuma buzina de vuvuzela ou de megafone e, até as conversas paralelas entre os protestantes, ficaram mais baixas em respeito aos pacientes e aos profissionais do hospital. Assim que a massa de estudantes terminou de passar pelo hospital, toda a agitação voltou ao normal, com muitas conversas entre os manifestantes sobre a ironia histórica de terem passado pela rua Maria Antônia no percurso do protesto.
Da manifestação, os estudantes da USP emendaram em mais uma assembléia geral na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUD) da USP, cenário já familiar aquele ponto da greve. A novidade foi que, naquele dia, todos falavam sobre a necessidade de politizar mais o movimento, tendo em vista a ação da polícia na desocupação da reitoria e no início do protesto. De resto, tudo igual. Todas as programações que envolviam a greve já haviam virado rotina, assembleias, protestos, escrever e colar cartazes, discutir no grupo da turma o que é ou não furar greve, aprender sobre a história da universidade em atividades organizadas pelos alunos e conhecer pessoas novas toda semana.
Apesar dos pesares, da assimilação da greve na rotina e da crescente sensação de que a luta já estava perdida, Nicole nunca perdeu a noção da importância daquele momento histórico para o movimento estudantil. Ela não consegue apontar quando a maioria dos envolvidos aparentemente entraram em consenso que a greve estava insustentável e, até hoje, lembra amargamente da última assembleia oficial, na qual foi votado o fim da greve. Depois de tantos protestos, tantos festivais, tanto tempo lutando pelo direito básico do acesso à universidade e tão poucas conquistas, não fazia sentido, para ela, pôr um fim em tudo aquilo.
Não demorou muito para que esse sentimento de ter passado 60 dias lutando quase em vão logo fosse substituído, graças aos companheiros de luta e à consciência política adquirida durante esse período.
[A capa desta matéria usa uma imagem editada do Magnific]


