Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Eleições 2026 | A floresta que Marina Silva levou consigo 

Conheça a história de Marina Silva, representante da luta pela preservação da Amazônia e símbolo de resistência feminina, negra e política
Por Manuela Neves (manuelanevesmiranda@usp.br)*

Em 2026, Marina Silva (REDE) disputa pela terceira vez o cargo de senadora. A candidatura ao Senado por São Paulo é mais um capítulo de uma trajetória política que começou aos seus 17 anos quando Marina conheceu o ativista ambiental Chico Mendes. Sua história é marcada pela militância ambiental, pela Câmara de Deputados, pelo Ministério do Meio Ambiente, por três campanhas presidenciais e pelo próprio Senado Federal.

Filha de seringueiros, neta de parteira e uma das 11 crianças da família, Marina nasceu em 8 de fevereiro de 1958, no seringal Bagaço, no interior do Acre. Passou a infância morando em uma palafita. Perdeu a mãe aos 15 anos e mudou-se para Rio Branco, capital do Acre, aos 16 para tratar uma hepatite; na capital acreana, trabalhou como empregada doméstica e aprendeu a ler e escrever.

Família e fé

Batizada como Maria Osmarina da Silva, ela passou a ser chamada de Marina por causa de uma tia do espectro autista, que tinha dificuldade para pronunciar seu nome “Osmarina”. Desde então, a família passou a chamá-la de Marina.

Sua família veio do Nordeste e chegou para trabalhar na extração do látex das seringueiras e na produção de borracha no Norte do país. Em entrevista ao vídeocast “Conversa vai, conversa vem”, do jornal O Globo, Marina conta que seu pai, Pedro Agostinho, estudou até o terceiro ano do primário e que, por isso, escrevia cartas e fazia contas de matemática para os membros da comunidade. Com esse gesto, ele evitava que os seringueiros fossem enganados pelos patrões na hora do pagamento. 

Marina também descreve a mãe, Maria Augusta, como a matriarca da família e lembra o cuidado que ela tinha com as filhas, especialmente em relação aos abusos que poderiam ocorrer na floresta. Marina trabalhou desde criança no roçado e nas estradas de seringueiras.

Mulher jovem negra em uma foto preto e branco
Marina venceu a malária por cinco vezes e a hepatite por três. Quando contraiu leishmaniose, seu pai caminhou por 22 horas para conseguir o remédio para a filha. “Quando chegou, estava tão cansado que, nunca me esqueço, deitou no chão de casa com os braços para trás, todo sujo de lama”, ela lembrou em entrevista ao UOL [Imagem: Marina Silva/Wikimedia Commons]

Inspirada pela religiosidade de sua avó Júlia — a qual fez o próprio parto da neta —, Marina sonhava em se tornar freira. Ela lembra, na entrevista, que sua avó lhe dizia: “Minha filha, freira não pode ser analfabeta”.

Aos dezesseis anos, na década de 1970, incapacitada de trabalhar na mata pela hepatite que contraiu, mudou-se para Rio Branco para tratar-se e estudar. Na época,  passou a frequentar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) — grupos que reuniam católicos para discutir questões sociais e direitos humanos. Ali, teve contato com a Teologia da Libertação, corrente de pensamento que coloca a desigualdade e a pobreza no centro do debate religioso e que possibilitou o encontro de Marina com o bispo Dom Moacyr, com Clodovis Boff e com Chico Mendes.

O encontro com Chico Mendes — seringueiro que ficou mundialmente conhecido por sua luta em defesa da Amazônia — levou Marina a participar de movimentos com os seringueiros e dos “empates”: mobilizações em que trabalhadores formavam correntes humanas pela floresta, criando uma barreira física para impedir o avanço das motosserras sobre as árvores. Marina afirma que as táticas de defesa da floresta de Chico eram inspiradas no ideal da resistência pacífica de Gandhi. Ao lado de Chico, fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Acre, em 1983.

Mulheres andando descalças no mato
Marina é formada em História pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e possui especialização em teoria psicanalítica pela Universidade de Brasília (UnB) e em psicopedagogia pela Universidade Católica de Brasília (UCB) [Imagem: Reprodução/Comitê Chico Mendes]

Ela teve dois filhos em seu primeiro casamento, Shalon e Danilo. Com seu atual marido, Fábio Vaz de Lima, Marina teve as filhas Moara e Maira.

Em 1997, Marina deixou o catolicismo e passou a frequentar a igreja evangélica Assembleia de Deus. Mesmo sendo religiosa, ela reafirma constantemente a importância de um Estado laico e de se haver uma separação clara entre política e religião, o que fica evidente em sua fala no Programa Roda Viva, em 2022: “Nunca fiz do púlpito um palanque e nem do palanque um púlpito”.

“Não venham usar a fé para poder discriminar quem quer que seja. Quer ser preconceituoso, seja por sua conta. Quer ser homofóbico, seja por sua conta. Quer ser racista, seja por sua conta.”

Marina Silva

Da militância sindical à política institucional

A sua transição para a administração pública veio em 1988, quando Marina elegeu-se como vereadora de Rio Branco pelo PT. Em 1990, foi deputada estadual pelo mesmo partido. Em 1994, com 36 anos, chegou ao Senado como a mulher mais jovem a ser eleita ao cargo – a idade mínima permitida para o cargo é de 35 anos.

Mulher negra de blusa preta falando ao microfone
Marina afirmou, no programa “Conversa vai, conversa vem”, que só passou a conviver com os discursos racistas e machistas depois de se mudar para a cidade; antes disso, sua família vivia isolada, nos seringais, em um ambiente matriarcal e respeitoso em relação às diferenças de cor [Imagem: Wikimedia Commons]

Em 2003, assumiu o Ministério do Meio Ambiente durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cargo que ocupou até 2008, quando divergências internas do governo na condução da política ambiental a fizeram sair do cargo. Permaneceu no PT até 2009, passou pelo Partido Verde e pelo PSB e, posteriormente, ajudou a criar a Rede Sustentabilidade, seu atual partido. Em 2023, no terceiro mandato de Lula, Marina retornou ao comando da pasta do Meio Ambiente.

Mulher negra de coque com blusa laranja sorrindo
Sua música favorita é “Respeita Januário”, de Luiz Gonzaga. Em entrevista ao O Globo, Marina disse que a canção simboliza o orgulho que sente em navegar entre os universos do saber das comunidades tradicionais e do saber letrado [Imagem: Cadu Gomes/Wikimedia Commons]

Durante seus anos como ministra, procurou articular o combate ao desmatamento entre diferentes setores, e não restringir esse cuidado apenas ao Ministério do Meio Ambiente. Para isso, contribuiu na elaboração e no lançamento, em 2004, do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Entre 2004 e 2012, a taxa anual de desmatamento na Amazônia caiu 83%, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

Marina também teve embates importantes relacionados ao licenciamento ambiental nas duas vezes em que ocupou o ministério. No primeiro momento, defendeu o cumprimento dos procedimentos técnicos de análise dos impactos ambientais de novos projetos frente às iniciativas do governo de crescimento acelerado. 

Em 2025, Marina foi contrária à decisão do Congresso Nacional de derrubar os vetos do presidente Lula a trechos do projeto de lei — conhecido como PL da Devastação — que altera a Lei Geral do Licenciamento Ambiental.

Mulher negra de óculos e roupa amarela com homem branco de terno azul e faixa presidencial
Marina recebeu os prêmios Goldman de Meio Ambiente e Champions of the Earth, da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1996 e em 2007, respectivamente [Imagem: Ricardo Stuckert/Wikimedia Commons]

Ministra e mulher

Em 2025, um episódio de violência envolvendo a ministra chamou atenção para o machismo presente no ambiente político. Em maio daquele ano, Marina foi convidada para uma audiência no Senado; o evento terminou com uma sequência de comentários desrespeitosos contra ela.

Após Marina afirmar não ser uma mulher submissa na reunião, o presidente da audiência, senador Marcos Rogério (PL-RO), mandou que ela “se pusesse no seu lugar”. Em seguida, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) disse: “Ao olhar para a senhora, eu estou vendo uma ministra; eu não estou falando com uma mulher”. Marina respondeu que ele estava falando com as duas coisas. Ele então rebateu: “A mulher merece respeito, a ministra não”. 

Marina exigiu um pedido de desculpas que, ao não ser acatado, fez com que ela se retirasse do encontro. A situação tornou-se ainda mais grave porque o mesmo senador Plínio Valério havia dito, semanas antes, que tinha vontade de “enforcá-la” — frase que, segundo ele, foi dita em tom de “brincadeira”. Um outro exemplo de agressão contra a candidata ocorreu em 17 de agosto de 2026, durante uma caminhada para mulheres da campanha de Fernando Haddad (PT), em que um homem proferiu ofensas contra a candidata e tentou atingi-la fisicamente.

Os episódios evidenciam as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao ocuparem espaços historicamente dominados por homens, em que a violência política de gênero pode ser feita de forma explícita ou velada. Ao separar “a ministra” e “a mulher”, o senador reafirma a sua estima à figura feminina apenas dentro de uma esfera privada, enquanto invalida a mulher em posição de autoridade na esfera pública, já que afirma não ser necessário respeitá-la. Esse desacato fica claro na fala do presidente da reunião, que pediu para Marina parar de “provocar” Plínio, ainda que a ministra só estivesse tentando se defender.

Mulher negra de coque e óculos falando com microfones
Em 1982, grávida de Danilo, Marina ficou abalada ao ser questionada sobre seu amor pelo marido e pelos filhos devido à sua intensa atuação política. Encontrou na psicanálise um caminho de reflexão para essa dor [Imagem: Geraldo Magela/Agência Senado]

[Imagem de capa: Isabella Balena/Wikimedia Commons]


*Esta reportagem foi produzida pelo repórter Manuela Neves sob a supervisão da diretora de Redação Gabriela César.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima