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Simone Tebet busca acertar as contas em candidatura ao Senado por SP

Ex-ministra do Planejamento e Orçamento do terceiro governo Lula e ex-senadora pelo Mato Grosso do Sul, Tebet se lança como parte da representação do petista no estado paulista
Na imagem, a candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet

Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)

“Em uma conversa ainda que informal com o presidente Lula, ele pediu que eu pensasse sobre o processo eleitoral, sobre ser candidata ao Senado por São Paulo”, disse Simone Tebet (PSB) ao g1 em 21 de março de 2026, quando firmou sua saída do MDB, uma semana após ter anunciado sua candidatura. Tebet estava no mesmo partido há 30 anos, desde o início da carreira política.

O destino foi o PSB, que conta com outros parceiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como seu vice, Geraldo Alckmin, Tabata Amaral e Márcio França, que concorre ao vice-governo de São Paulo na chapa com Fernando Haddad (PT). Os suplentes da candidata são de outros partidos, respectivamente Laio Morais (PT) e Marcelo Barbieri (PDT)

Tebet se tornou uma figura amplamente conhecida nacionalmente ao se candidatar à Presidência em 2022, tornando-se o principal nome de uma possível terceira via na disputa entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na campanha do 1º turno, teceu críticas a ambos, citando os casos de corrupção durante os governos petistas, como o Mensalão e o Petrolão, e também as investigações da CPI da Pandemia, que possibilitaram a descoberta e o impedimento da compra de vacinas superfaturadas pelo Ministério da Saúde durante o governo Bolsonaro.

A candidata terminou o pleito de 2022 em terceiro lugar com 4,53% dos votos, superando inclusive Ciro Gomes (PSDB), que já era “figurinha repetida” em eleições presidenciais, e registrou 3,05% dos votos válidos. Três dias depois do resultado, declarou apoio ao então candidato Lula no segundo turno: “Depositarei nele o meu voto, porque reconheço no candidato o seu compromisso com a democracia e com a Constituição, o que desconheço no atual presidente”, disse em pronunciamento oficial. 

Em reportagem do Nexo, dez dias antes do segundo turno, a jornalista Malu Delgado abordou o papel importante que Tebet desempenhou na campanha lulista, aproximando-o do mercado financeiro e do agronegócio. Na matéria, a cientista política Carolina Almeida de Paula destacou: “ela carrega também, para dentro de um eventual governo Lula, a ideia de que será um governo de conciliação, de coalizão. Ela virá como um nome bem forte nos próximos pleitos, e terá sim um papel importante no governo Lula, se ele vencer.”

Na imagem, posse de Simone Tebet como Ministra do Planejamento e Orçamento do governo Lula em 2023
Posse de Simone Tebet como Ministra do Planejamento e Orçamento do governo Lula em 2023 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Trajetória

Mestra em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Simone Nassar Tebet foi professora de Direito Constitucional por 12 anos, inclusive na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Ela é oriunda de uma das famílias de maior influência política e territorial do Mato Grosso do Sul. Ingressou na vida política tendo como inspiração o pai, Ramez Tebet (PMDB-MS), que foi presidente do Senado entre 2001 e 2003.

Em 2002, filiada ao PMDB (atual MDB), Tebet foi eleita deputada estadual pelo Mato Grosso do Sul, mas deixou o Congresso em 2004 para concorrer à prefeitura de sua cidade natal, Três Lagoas (MS). Tebet se elegeu em primeiro turno com 66,72% de votos válidos e foi reeleita em 2008. No entanto, em 2010, ela deixou o cargo para se candidatar à vice-governadora do Estado, na chapa com André Puccinelli (PMDB). 

Após a vitória, em abril de 2013, ela tornou-se Secretária de Estado do governo, cargo que exerceu até janeiro de 2014. Em entrevista ao g1, ela já anunciava os planos e o entendimento com o partido de sua candidatura ao Senado: “Comecei a vida no legislativo. É um sonho que tenho de representar o Estado na cadeira que meu pai ocupou.”

Na imagem, Simone Tebet olhando um quadro de seu falecido pai, Ramemes Tebet
Ramez Tebet faleceu em 2006, aos 70 anos [Imagem: Reprodução/Instagram/@simonetebet]

Tebet foi eleita para o Senado em 2014 com 52,61% dos votos, contra o petista Ricardo Ayache, que obteve 23,09%. Em seu mandato, votou a favor do impeachment da então presidente  Dilma Rousseff (PT) e apoiou as reformas econômicas propostas por Michel Temer (MDB), como a implantação do teto de gastos e a reforma trabalhista. Votou a favor também da reforma da Previdência durante o governo Bolsonaro.

Em 2015, quando o estado do Mato Grosso do Sul passava por um contexto de disputa de terras entre povos indígenas, principalmente os Guarani-Kaiowá, e produtores rurais, Tebet votou a favor do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) nº 71, de 2011, que tornava nulo atos que buscassem a retomada por fazendeiros de terras declaradas indígenas, dando uma indenização em dinheiro aos produtores rurais. 

Além disso, propôs o Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 494, de 2015, que buscava alterar o Estatuto do Índio, com o objetivo de defender a reintegração de posse pelos agricultores de terras em que ainda não se havia iniciado o processo antropológico de identificação de territórios indígenas, mas estavam sendo ocupados. Esses locais deveriam ir pro final da fila no sistema da Fundação Nacional do Índio (Funai). A ex-senadora, que possui uma fazenda em área reivindicada pelos povos Guarani-Kaiowá, retirou o PL em 2018. 

Na imagem, Simone Tebet discursando no plenário do Senado
Por esses projetos o Conselho Missionário Indigenista classificou Tebet como uma das dez senadoras que mais atuaram contra os direitos indígenas no Parlamento [Imagem: Reprodução/Agência Senado]

Na Câmara Alta, Tebet foi a primeira mulher a presidir, de 2019 a 2020, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. No cargo, ajudou a vetar o decreto de armas, nº 9.785 de 2019, feito por Jair Bolsonaro, por ferir o Estatuto do Desarmamento. Ela se considera a favor de que a discussão sobre o tema seja feita no parlamento, não por meio de decretos presidenciais, tendo inclusive pedido ao presidente do Senado na época que priorizasse a votação sobre o porte de armas para moradores da zona rural.

A senadora também teve participação ativa na Comissão Parlamentar de Inquérito  (CPI) da Pandemia da Covid-19, que, além de evidenciar irregularidades no projeto de compra das vacinas Covaxin, trouxe também à tona o caso da Prevent Senior, operadora de saúde que recomendava medicamentos contra o coronavírus sem eficácia comprovada. A CPI destacou-se também por indiciar a conduta  de Bolsonaro, que agiu sem considerar a posição do Ministério da Saúde como um fator que agravou as condições da pandemia. O ex-presidente do PL agia segundo um gabinete paralelo, que o teria influenciado na sugestão da cloroquina — remédio sem comprovação de eficácia contra a COVID-19 na época — e no atraso da compra de vacinas.

Se eleita…

O principal questionamento feito a Tebet em recentes sabatinas, como na entrevista realizada pela Jovem Pan News, é o motivo da candidata ter trocado de domicílio eleitoral vindo para São Paulo.  Segundo ela, o estado “é uma terra que acolhe a todos: a terra da generosidade, da oportunidade” e citou sem dizer seu nome, o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que é carioca.

A candidata destacou, ainda na entrevista, as proximidades entre o Mato Grosso do Sul e São Paulo, brincando com o fato de que entre sua cidade e a divisa paulista fica apenas um rio ou, sob outra perspectiva, uma ponte. Ela alega que ambos os estados têm forte presença agrícola que necessita de atenção especial, principalmente o noroeste paulista.

Um dos motes da campanha de Tebet é que o Brasil cabe em seu orçamento, que está em torno de 6,34 trilhões de reais, o que falta é uma boa administração da verba. Ela elenca três problemas sobre os quais debaterá no Senado caso eleita: corrupção, desperdício e privilégios, sendo exemplificados respectivamente pela falta de transparência e altas verbas de emendas parlamentares, a má organização de leilões de móveis ociosos pelo Executivo e os penduricalhos e supersalários do Judiciário.

Defende também a necessidade de uma reforma política no país, que busque demarcar o papel do Supremo Tribunal Federal (STF), restringindo, por exemplo, decisões monocráticas e estabelecendo a permanência de 12 anos no mandato dos juízes — que é vitalício até a aposentadoria compulsória aos 75 anos.

Além disso, ela propõe rever o tamanho dos fundos partidário e eleitoral, que limitam a verba discricionária da União — que seria o orçamento brasileiro livre para a realização de gastos não fixos pelo Estado, como Educação ou Saúde, que já possuem a verba separada por lei. No entanto, segundo ela, para que haja vontade política para votar projetos como esses, é necessário que o país escolha bem a renovação da Câmara dos Deputados e do Senado.

Na imagem, Simone Tebet durante sessão plenária da Comissão de Constituição e Justiça do Senado
Tebet gravou depoimento recente em suas redes sociais cobrando investigações com relação às denúncias envolvendo Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro no Caso Master [Imagem: Reprodução/Agência Senado]

Sobre o fim da escala 6×1, a ex-ministra se diz a favor e destaca a importância do relatório feito com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em seu cargo, que mostrou que o impacto da redução da jornada de trabalho no agronegócio, por exemplo, seria de apenas 1%. No entanto, ela revela que a preocupa o efeito da medida nas pequenas empresas e nos microempreendedores individuais, sendo necessário, junto com o fim do sistema, um projeto de lei que proteja esse recorte da população. Ela propõe que haja a possibilidade de que empresas que têm até dez funcionários, possam ser desoneradas da folha de pagamento.

Outra pauta levantada pela candidata é a revisão do Pacto Federativo, que atualmente estabelece uma divisão da renda da União que favorece estados que contribuem menos com o Produto Interno Bruto (PIB), fazendo com que São Paulo, estado mais rico do país, seja a unidade da federação que menos receba verba do governo federal proporcionalmente. Também se coloca contra o sistema de reeleição nos cargos do Executivo, de forma a optar pela proposta de um mandato único de cinco anos.

Tebet destacou, em entrevista ao Jornal da EP, de Araraquara, que o momento atual é uma das últimas janelas de oportunidade para discutir o Marco Regulatório das Terras Raras, “transformando verdadeiramente o Brasil em um país rico, que garanta essa riqueza para todos os paulistas e brasileiros.” Questionada sobre sua permanência completa no mandato de oito anos, caso eleita, a candidata do PSB se comprometeu a cumprir todo o período. Ela afirmou que está “totalmente fora de cogitação” se candidatar novamente em eleições nos próximos anos ou aceitar qualquer cargo em um possível quarto governo Lula.

Imagem da Capa: [Reprodução/Wikimedia Commons]


Esta reportagem foi produzida pelo repórter Guilherme Hofer sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos

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