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Crônica | Hoje, tão similar ao ontem

Um professor e suas reflexões sobre o passado presente e o futuro ausente no cenário eleitoral brasileiro
Na imagem, uma urna eletrônica ao centro
Por Yuri Umemaru (yuri.umemaru@usp.br)

Era por volta das dez da manhã do dia 23 de maio de 2026 quando Marcos Barbosa*, professor de ensino fundamental, pegou seu celular para dar uma olhada nas notícias enquanto aguardava a água do chá ferver. A televisão, que costumava preencher o silêncio do apartamento, encontrava-se desligada. Ele estava buscando quebrar a tradição de sempre assistir ao noticiário logo após acordar, em uma tentativa de dar respiro para as constantes angústias da mente.

Abriu o site que mais gosta de acompanhar e, como esperado, lá estavam as razões para suas angústias no topo da página, como se aguardassem sua visualização: pesquisas eleitorais para presidente e matérias a respeito da pré-campanha deste ano. Os números de intenção de voto diante de seus olhos naquele dia continuavam apresentando porcentagens próximas entre os principais candidatos, mas agora com um diferencial notável: a distância aumentara. Os dados haviam sido coletados após as revelações do The Intercept Brasil e, apesar de aliviarem um pouco, ainda eram preocupantes — afinal, o pleito é apenas em outubro, e os ventos da política sempre imprevisíveis.

Entretanto, as sensações frente ao atual cenário não são uma novidade para Marcos, mas sim uma espécie de eco incômodo de um passado recente. “É como um fantasma. Você pensa que a normalidade voltou, mas aí, na quietude, vem a distorção das palavras de paz e liberdade… não há como se acostumar com esse tipo de coisa”, suspirou alto.

Já com o chá preparado e o aroma de hortelã perfumando o ambiente, ele sentou-se em seu sofá de couro marrom e, enquanto lia todas aquelas informações, pensava e pensava. Sobre o presente? Não… sobre aquele eco de 2022. Barbosa tinha lembranças vivas a respeito das eleições daquele ano. Tocou o fio da memória.

Primeiro, veio o clima de tensão. Ele recordou das brigas e discussões acaloradas entre colegas de profissão, com palavras que saem como flechas impiedosas das bocas e abalam relações quando o assunto é política — algo que foi tão recorrente nos intervalos que, durante um tempo, a sala dos professores passou a ser evitada. Lembrou até do seu pacato grupo da família, onde uma figurinha de teor satírico enviada pelo seu primo foi o suficiente para inflamar os ânimos e os áudios e textos começarem. Levara um bom tempo para reunir todos novamente de maneira pacífica para as festas de fim de ano e tirar uma fotografia — a mesma que agora estava posta ao lado de seu televisor.

Situações similares ocorreram em todo o país até depois do pleito, inclusive com pessoas próximas. Relembrou um café da tarde com um jovem amigo seu, estudante de ensino médio na época, que relatou em tons de raiva e indignação que estava com amizades estremecidas por conta de discordâncias — presentes desde o primeiro bate-papo sobre o tópico, mas que foram se intensificando ao surgirem as provocações. Tema abordado ora abertamente, ora através de sussurros que se misturavam ao vento para não serem notados — isso quando não era um assunto “proibido” —, não houve quem passasse intacto a esse período.

Marcos teme a volta desse abalar de conexões, capaz de fragmentar por completo o que já está frágil. Tomou mais um pouco do chá, imaginando que pararia por ali em suas reflexões.

Na imagem, uma cabine de urna eletrônica eleiçoes 2022
“Sabe… ultimamente, tenho pensado muito em uma frase de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain: ‘são tempos difíceis para os sonhadores’”, afirmou ele, enquanto agitava levemente sua caneca [Imagem: Reprodução/Edilson Rodrigues/Agência Senado]

Foi então que percebeu que sua memória não iria se restringir à superfície, às circunstâncias que o tempo de alguma forma ajeitou. Mergulhou ainda mais fundo, para atingir aquilo que ainda é uma cicatriz cuja dor não suavizou na sua mente e muito menos na sociedade: a ameaça à democracia.

Neste instante, reviveu aquele nebuloso domingo de janeiro, em que não acreditou nas imagens que estava vendo pelo plantão. Cogitou, a princípio, ser um pesadelo — daqueles tão intensos que as sensações e visões parecem reais, mas logo tudo se desmancha nos mares da consciência ao clarear do horizonte. Contudo, não se tratava disso. Para seu desconsolo, era a realidade de fato, com uma legião de indivíduos demonstrando um violento e completo desprezo pelos símbolos, pelas instituições, pela história. 

Calafrios. Além dessa circunstância, nunca houve tanta incerteza em seus 58 anos de vida quanto naqueles doze meses de 2022, quando as notícias relacionadas a certo assunto sempre traziam uma fala ou um gesto de mensagem preocupante nas entrelinhas. Tendo vivido sua juventude no processo de redemocratização do Brasil, Barbosa jamais imaginou que este conceito tão precioso estaria em perigo após tantos anos. “Pensava que era um valor indiscutível, que repousava adormecido na mente de todos”.

Os fatos acabaram mostrando o contrário. Ele percebeu que, mesmo com uma maioria democrata, o autoritarismo estava sempre à espreita — não ficara para trás, guardado em meio a partículas de poeira — e não havia mais vergonha em se apresentar. “Foi doloroso notar essas coisas… me fez perder um pouco das esperanças, inclusive com a minha própria geração”, ponderou. Isso, para ele, foi reforçado pelas incontáveis vezes em que ficou horrorizado ao ver as falas e cartazes de pessoas de idade próxima à sua em manifestações da época. 

Hoje, quase quatro anos depois, Marcos pressente que tudo isso será, mais uma vez, o ponto central das discussões. Ainda é pré-campanha, mas para o que os movimentos ao redor apontam senão para repetições e um cenário notavelmente acirrado? Afinal, mesmo agora, após todas as consequências, as constatações do dia a dia apontam que a ameaça continua com força. Pode até parecer mais dócil para seduzir os desavisados, mas é a mesma em essência. Nesses momentos, às vezes, ele pensa até a respeito dos perigos que podem vir pelos alaranjados ventos do norte. 

Desligou a tela do celular e, por um instante, se questionou em que ano estava. Olhou para o calendário na parede e, dando o último gole em seu chá já quase frio, confirmou que era 2026. Percebeu que era necessária a materialidade do tempo para ter certeza porque, se dependesse de suas preocupações e de seus medos, não saberia diferenciar o antes do agora.

*Marcos Barbosa é um nome fictício. A identidade verdadeira foi preservada a pedido do entrevistado.

(A capa desta matéria usa imagens editadas do Wikimedia Commons)

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