Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br)*
O candidato Renan Santos (Missão) é um dos nomes que concorrem ao cargo da Presidência do Brasil. Com 42 anos, o postulante aparece pela primeira vez em uma disputa eleitoral. Em sua pré campanha, Renan se coloca como um político antissistema e já declarou oposição a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Empresário e um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL) em 2014, Renan resume sua candidatura com propostas de reformas na economia, combate ao crime organizado e inserção tecnológica, com enfoque na atração de investimentos de alta tecnologia e no desenvolvimento industrial para a região Nordeste.
Em 2016, também liderou o movimento de defesa do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), onde atuou no Comitê do Impeachment em Brasília. Na eleição de 2018, declarou apoio a Jair Bolsonaro (PL), mas, após a posse do candidato, retrocedeu sua posição e parou de aprovar o governo.
O começo da figura política
Nascido no bairro da Mooca, em São Paulo, filho de um advogado e de uma psicóloga, Renan se envolveu desde cedo com movimentos políticos. Com 25 anos, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), localizada no Largo de São Francisco, onde participou do Centro Acadêmico XI de Agosto.
No XI de Agosto, ele e seus colegas alteraram o estatuto do Centro Acadêmico e fundaram o partido que se tornou o vencedor das eleições, o Partido Acadêmico Autônomo (PAA). O objetivo da mudança do estatuto era permitir a criação de “partidos estudantis” permanentes, em vez de chapas temporárias, que mudavam a cada ano.
Como um retorno ao início de sua atuação política, Renan escolheu a Faculdade de Direito da USP para lançar sua candidatura nas eleições de 2026. O evento descontentou alguns alunos e movimentos estudantis que não concordam com as pautas do candidato.
Renan decidiu não continuar o curso de Direito para seguir carreira no empreendedorismo. Com o pai e o irmão, o candidato trabalhou na recuperação de empresas. Durante sabatina realizada pela Rede Globo, Renan defendeu que resultados e capacidades profissionais não dependem necessariamente de uma graduação.
Além de escritor e candidato político, Renan Santos também é guitarrista e vocalista da banda Limão Rosa, que finalizou sua turnê no dia 8 de agosto, antes do início das propagandas eleitorais.
Partido e a questão social
Renan Santos é filiado ao partido Missão, que foi oficializado em 2025. De acordo com o candidato, o partido é marcado por perseguições contra mulheres, o que ocasiona em um menor número de afiliadas. O Missão possuía cerca de 17.382 filiados em abril de 2026 — destes, 92% eram homens. Em entrevista à Renata Vasconcellos e César Tralli, no Jornal Nacional, questionado sobre a maior presença masculina no partido, o presidenciável citou o caso de sua coordenadora de campanha, Amanda Vettorazzo (Missão), que foi ameaçada e perseguida por um stalker. Hoje, o homem está preso.
Em resposta ao questionamento da falta de propostas mais incisivas na defesa da mulher e ao fim do feminicídio em sua campanha, Renan pontuou que políticas públicas serão criadas para a segurança generalizada. Entretanto, o candidato não apresentou um projeto direcionado ao público feminino e infantil, apesar do aumento de casos de violência contra mulheres e crianças.
De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o país registrou 399 vítimas de feminicídio entre os meses de janeiro e março de 2026. O volume de casos no primeiro trimestre de 2026 apresentou uma alta de 7,55% em comparação ao mesmo período de 2025.
Em 2022, tornou-se público um caso que envolveu o vazamento de áudios em tons machistas sobre mulheres ucranianas, enviados pelo ex-deputado estadual Arthur do Val (Missão) — conhecido como “Mamãe Falei” — a um grupo de amigos, durante uma viagem “humanitária” à fronteira da Ucrânia. Renan Santos, amigo e filiado ao MBL junto com Arthur, também foi associado ao episódio e à repercussão política do caso.
Propostas
Suas propostas são inspiradas em Javier Milei, presidente da Argentina, e em Nayib Bukele, presidente de El Salvador. O discurso sobre o ultraliberalismo econômico atrai a atenção do mercado financeiro, já que, de acordo com a BBC News Brasil, profissionais do setor financeiro têm a tendência de um crescente interesse nas propostas do candidato do Missão.
No Livro Amarelo (2026), onde está o programa nacional e plano de governo do Partido Missão, Renan defende que facções criminosas não devem ter direito a um processo criminal com ampla defesa. Para o candidato, a “desfavelização” deve ser um caminho de não romantização, além do Brasil precisar de um plano melhor de habitação, segundo o candidato. Uma legislação com burocracia mais rápida para criminosos é pontuada pelo candidato como meio para a eficiência deste projeto. Durante a sabatina, Renan afirmou que irá recuperar áreas dominadas por facções criminosas.
O candidato à Presidência aponta, em seu plano de governo, que tirará os direitos políticos de pessoas eleitas que não entregarem melhores índices em âmbitos educacionais, saúde e segurança — a chamada Lei de Responsabilidade Gerencial. A proposta de criar uma lei para retirar os direitos políticos de governantes que não atingirem metas sociais esbarra em fortes barreiras jurídicas e constitucionais no Brasil. A Constituição Federal de 1988 define regras rígidas e taxativas sobre a suspensão ou perda de direitos políticos.
Durante um debate organizado pela emissora de televisão Bandeirantes, Renan Santos declarou que, caso vença a disputa presidencial, uma de suas prioridades será aumentar a produtividade brasileira. O candidato promete a implementação de segurança pública e o início de um processo de recuperação e soberania em um ano, que envolve a possível criação de bombas nucleares.
Orçamento
Na entrevista do dia 26 de agosto, realizada pelo Jornal Nacional, Renan conta que o Brasil deve ter condições de possuir armas atômicas para proteger os recursos naturais existentes nas terras brasileiras. O candidato cita a Coreia do Norte como um país respeitado diante do mundo por seu arsenal atômico, apesar de não concordar com o regime autoritário do país.
Além de não apresentar políticas estruturadas sobre feminicídios, o programa do candidato também não inclui medidas relacionadas a eventos climáticos. Renan justifica que essas políticas já existem em regiões consideradas “problemáticas” e afirma que os planos serão aprimorados a partir do corte de gastos que pretende realizar caso seja eleito. Segundo o candidato, “não há dinheiro’’.
Entre as prioridades de seu governo estão a redução dos gastos públicos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e a contenção de despesas, majoritariamente, nas áreas de educação e saúde, ajustando esses pisos apenas pela inflação. O objetivo do corte de gastos, segundo o candidato em entrevista ao Jornal Nacional, é gerar espaço no orçamento público para conter o crescimento da dívida e direcionar recursos para investimentos em infraestrutura.
Ainda na sabatina no Jornal Nacional, Renan disse que pretende implementar uma reforma na previdência, o que recuperaria aproximadamente R$1.1 trilhão na economia.
Intenções de voto e crise na campanha
De acordo com uma pesquisa DataFolha, o candidato Renan Santos apresenta 5% das intenções de voto para a Presidência. Flávio Bolsonaro segue na liderança com 37%.
O cenário eleitoral do candidato, no entanto, foi acompanhado por um episódio envolvendo a Justiça Eleitoral. No dia 31 de agosto, o ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a suspensão da propaganda eleitoral do candidato na internet, vetou repasses de recursos e o proibiu de participar de debates. O TSE alegou atraso no processo de registro de candidatura da pauta e ilicitude nos requerimentos, além do candidato não ter informado previamente os links de 16 perfis de redes sociais, sites ou aplicativos usados na campanha no momento do registro oficial.
As redes sociais oficiais de Renan também foram suspensas. Toffoli reaveu a decisão após três dias e liberou a campanha eleitoral do candidato em todos os meios de comunicação. Em pesquisa atualizada DataFolha, Renan diminuiu seu percentual de intenções de voto de 5% para 3%.
[Imagem de capa: Wikimedia Commons]
*Esta reportagem foi realizada pela repórter Bianca Candido sob a supervisão da diretora de redação Gabriela César.





