Jornalismo Júnior

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Observatório | Vitória da AfD alerta para avanço da extrema-direita na Alemanha 

O partido venceu as eleições na região da Saxônia-Anhalt e conquistou um resultado inédito desde o fim da Segunda Guerra Mundial

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) foi o vencedor das eleições estaduais na Saxônia-Anhalt, um dos 16 estados federais alemães, no leste do país. No dia 6 de setembro, o partido recebeu por volta de 44% dos votos e tornou-se a primeira legenda de extrema-direita a vencer uma eleição estadual na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, superando partidos como o União Democrata-Cristã (CDU). No governo do estado desde 2002, o CDU é a agremiação do atual chanceler alemão Friedrich Merz, que afirmou que o caráter do resultado das urnas é “sísmico”. 

Este processo eleitoral foi responsável por montar o Parlamento do estado, no qual o partido conservador ficou com 39 das 83 cadeiras. Tal conquista, no entanto, não garante o comando do estado pela AfD. De acordo com o modelo governamental alemão, a sigla ainda precisa negociar com outros partidos para compor o restante das vagas de um governo minoritário, de forma a criar coalizões com outros partidos para liderar mesmo sem ocupar a maioria dos assentos parlamentares. Caso não seja possível, o Parlamento estadual, formado também por partidos como o Social Democrata (SPD) e o Aliança Sahra Wagenknecht (BSW),  pode ainda pedir por novas eleições.

União contra o avanço da AfD

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Kai Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, afirma haver uma movimentação política entre os demais partidos alemães, ainda que rivais, para que não sejam criadas coalizões com a AfD. Segundo o programa de notícias DW News, essa movimentação seria um suposto “cordão sanitário”, promovido a fim de evitar que a ultra-direita chegue ao poder no país.

Embora não seja o primeiro caso de criação de uma “barreira de proteção” contra o extremismo na Europa — movimentos similares foram promovidos na França e na Itália — o caso alemão havia se mostrado extremamente eficiente até então, com o isolamento de partidos de extrema direita de alianças políticas formadas entre o restante das legendas. No entanto, apresentou sinais de enfraquecimento após a aprovação de uma lei anti-imigração no país pelo CDU, apoiada pela AfD, em janeiro de 2025. De acordo com Lehmann, parlamentares do CDU já haviam começado a discutir a continuidade do “cordão sanitário” na sigla, que uniu-se a outros partidos na formação desta política em 2018.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, no entanto, permanece firme em suas críticas ao partido conservador. Na última quarta-feira (9), o político retaliou a AfD por sua proximidade com a Rússia em meio ao confronto com a Ucrânia e cancelou uma ligação telefônica agendada com o presidente Donald Trump, que parabenizou a legenda de extrema-direita por sua vitória nas redes sociais.

Segundo Lehmann, o interesse americano em se aproximar do partido é especificado na Estratégia de Segurança Nacional oficial de Trump. Tal proposta afirma a intenção do líder em fortalecer as forças de extrema-direita na Europa, como a AfD na Alemanha e o partido Reform no Reino Unido. O professor afirma, porém, que o alinhamento político com o presidente pode ser um movimento arriscado. Como demonstrado no caso de Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana, que foi alvo de comentários difamatórios pelo presidente norte-americano em uma entrevista concedida à TV italiana.

“É perigoso se aproximar politicamente de Donald Trump, pois há uma grande chance de que ele irá te trair e fazer com que a opinião pública se volte contra você”
Kai Eno Lehmann

O sistema político alemão se define como uma república parlamentar democrática e federal, baseada na liderança de um chanceler e na formação de um parlamento eleito estadualmente [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
O sistema político alemão se define como uma república parlamentar democrática e federal, baseada na liderança de um chanceler e na formação de um parlamento eleito estadualmente [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Entre o passado e o presente

O nie wieder (“nunca mais”, em português) permanece como um princípio político e representa a ideia de que a experiência nazista deve servir como referência dos caminhos que a Alemanha não pode voltar a seguir. Apesar da permanência dessa memória, a extrema-direita voltou a se apresentar como alternativa para os problemas locais.

Mesmo com a existência de memoriais, leis e projetos educacionais voltados à preservação do período nazista, o distanciamento temporal altera sua influência sobre as novas gerações, explica Karl Schurster, professor de História da Universidade de Pernambuco e historiador, em entrevista à Jornalismo Júnior. Para o historiador, eleitores mais jovens tendem a sentir menor responsabilidade direta pelo passado entre 1933 e 1945.

No leste alemão, essa distância convive com outra memória histórica: a experiência da população durante a Alemanha Oriental e o processo de reunificação. Segundo Schurster, essas vivências familiares podem exercer maior influência sobre as decisões eleitorais das novas gerações. Parte da população da região também enfrentou dificuldades após a reunificação, com a migração de jovens e adultos para o oeste em busca de oportunidades de trabalho, enquanto na região oriental, o fechamento de empresas estatais e dificuldades para a manutenção de empregos deteriorou a qualidade de vida da população. “A população dessa região se sente abandonada pelo governo federal”, complementa o historiador.

Essa memória também é incorporada ao discurso da AfD. Nas eleições de 2025, o partido foi a legenda que mais expandiu sua presença no Parlamento, com 69 novos representantes eleitos das 630 cadeiras, além de ter sido o mais votado nos cinco estados que ocupavam o território da antiga Alemanha Oriental. Em Saxônia-Anhalt, a legenda apresentou a eleição como uma espécie de nova “revolução pacífica através das urnas”, em referência à Revolução Pacífica de 1989, que levou à queda do regime da Alemanha Oriental. A campanha associa a atual República Federal a uma elite política que teria deixado de ouvir a população e explora a sensação de abandono vivida por parte dos habitantes do leste.

A insatisfação, contudo, não se restringe às gerações mais velhas. Segundo a pesquisa Infratest Dimap, a AfD dominou as urnas em todas as faixas etárias eleitorais na votação de setembro. Schurster reforça que “a eleição na Saxônia-Anhalt não foi uma eleição de idosos”, o que demonstra a presença do partido entre eleitores mais jovens.

O aumento no custo de vida, o mercado de trabalho arrefecido e as preocupações com o sistema previdenciário contribuem para o descontentamento com os partidos tradicionais, como a União Democrática-Cristã, enquanto a comunicação do partido busca alcançar a juventude por frases de efeito e figuras de apelo popular.

Nesse cenário, a AfD busca construir uma “nova narrativa nacional” para a Alemanha. Para Schurster, o partido procura deslocar a centralidade do Terceiro Reich na representação da história alemã e valorizar outros períodos, como o Império Alemão. A estratégia também aparece na utilização de símbolos associados a esse passado e na tentativa de questionar elementos da forma como a memória nacional foi construída no pós-guerra.

Apesar das aproximações possíveis entre discursos da AfD e elementos da extrema-direita histórica alemã, existe uma diferença fundamental em relação ao período nazista. O historiador explica que enquanto o regime de Hitler extinguiu a democracia para consolidar uma ditadura, a AfD atua dentro das instituições democráticas e procura explorar as brechas do próprio sistema para avançar politicamente.

“O que eles estão fazendo é jogar um jogo antidemocrático dentro da democracia.”
Karl Schurster

Pichação na Baviera, um dos maiores estados da Alemanha, compara o AfD com o Partido Nazista [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
Pichação na Baviera, um dos maiores estados da Alemanha, compara o AfD com o Partido Nazista [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]

O discurso da AfD

Entre as principais propostas da legenda vencedora, as políticas de imigração ocupam lugar de destaque. A AfD defende o endurecimento das regras de entrada de estrangeiros e a chamada “remigração”, termo usado para se referir à deportação em massa de imigrantes, além de medidas que preveem a separação de crianças refugiadas de estudantes alemães nas escolas. Para Schurster, a estratégia remete ao discurso antissemita propagado durante o período nazista, que construía a imagem de um inimigo interno a partir de grupos considerados externos à sociedade.

“Você precisa que este outro conveniente, ou aquele que é identificado como o corpo estranho dentro da sociedade: no nazismo, o judeu, na AfD, o imigrante. Acaba sendo o ponto de convergência entre esse passado e esse presente.”
Karl Schurster

Além da pauta migratória, o discurso da AfD se apoia no ultranacionalismo e na defesa de uma identidade alemã mais homogênea. O partido rejeita a ideia de uma Alemanha multicultural e questiona decisões supranacionais da União Europeia. Entre outras propostas, também estão a retomada de relações econômicas com a Rússia e a rejeição de políticas climáticas, como a expansão da energia eólica

As redes sociais também tiveram um papel estratégico. Ulrich Siegmund, principal rosto da AfD na campanha, ganhou destaque entre eleitores mais jovens por sua comunicação direta e uso de plataformas digitais como o TikTok. O candidato de 35 anos construiu uma imagem carismática e rompeu com a representação tradicional associada a lideranças mais velhas.

A conta de Ulrich Siegmund no TikTok possui mais de 990 mil seguidores, quase metade da população do estado da Saxônia-Anhalt (2,1 milhões de habitantes)  [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
A conta de Ulrich Siegmund no TikTok possui mais de 990 mil seguidores, quase metade da população do estado da Saxônia-Anhalt (2,1 milhões de habitantes)  [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O que pode ocorrer após a vitória da AfD?

Lehmann afirma que não é possível prever, a partir deste único resultado, que a AfD irá ganhar poder de forma definitiva no futuro. Segundo ele, as próximas eleições estaduais de Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia, previstas para ocorrerem no dia 20 de setembro, apresentam perfis distintos da estabelecida em Saxônia-Anhalt. “Berlim é do antigo ocidente e é uma cidade muito ligada à esquerda, então é um caso à parte”, o professor explica, “já em Mecklemburgo, a chefe de governo é muito popular, e ela é do partido social-democrata.”

Lehmann também descreve um movimento de insatisfação política crescente não só na Alemanha, mas na Europa como um todo, que fomenta a insurgência de partidos como a AfD. “Existe um desagrado com a direção dos países, um medo do futuro que, de acordo com eles, é culpa do atual sistema”, afirma. “A extrema-direita oferece uma saída para eles e diz: nós somos uma alternativa para o sistema atual que não consegue resolver os problemas.”

A vitória da AfD em Saxônia-Anhalt ultrapassa as fronteiras do estado e reforça uma transformação já presente na política alemã. O resultado demonstra a perda de força dos partidos tradicionais e a capacidade da extrema-direita de transformar insatisfações econômicas, sociais e políticas em apoio eleitoral. O cenário também se relaciona a uma mudança mais ampla na política europeia, marcada pelo crescimento de partidos nacionalistas em países como França e Áustria.

A ascensão da legenda também coloca em discussão os limites da própria democracia alemã. Criado após a Segunda Guerra Mundial com mecanismos destinados a impedir o retorno de forças autoritárias, o sistema político do país enfrenta o desafio de lidar com um partido que participa das eleições e das instituições democráticas, mas apresenta propostas e discursos considerados incompatíveis com parte dos princípios que sustentam essa ordem.

Para Schurster, o caso alemão pode ser compreendido a partir da ideia de uma “democracia defensiva”: um regime democrático não precisa aceitar de forma passiva que seus próprios instrumentos sejam utilizados para enfraquecê-lo. A questão, portanto, não se limita à vitória eleitoral da AfD, mas envolve a capacidade das instituições e da sociedade de preservar os valores democráticos diante do avanço de forças que também os questionam.

Mais do que um episódio isolado, a eleição de Saxônia-Anhalt expõe uma disputa sobre os rumos da Alemanha e sobre o futuro da democracia em uma Europa onde a extrema-direita amplia seu espaço político. O principal risco está na transformação da insatisfação em normalização de discursos que, pouco a pouco, deixam de ser vistos como incompatíveis com o sistema democrático.

“Uma sociedade que cansa da democracia normaliza o que é antidemocrático.”
Karl Schurster

*Imagem da capa: Reprodução/Instagram/afd_sachsen_anhalt

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