Por Pedro Mattos (pedromattostr@usp.br)
Desde o início de seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos da América (EUA) em 2025, Donald Trump vem apresentando um discurso conservador, em relação à imigração, com ações mais severas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) deportando cada vez mais imigrantes considerados ilegais; à economia, com medidas protecionistas como tarifas produtos importados e, principalmente, à política externa, com ações militares e econômicas contra outras nações .
Dois meses depois do assassinato do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, em ataque coordenado por Estados Unidos e Israel, e do bloqueio quase imediato do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do mundo, a geopolítica global continua tensionada pela imprevisibilidade de Donald Trump e seus discursos de expansionismo.
O início do conflito no Oriente Médio se soma a outras investidas estadunidenses e acende mais um alerta nos sistemas de alianças internacionais sobre a possibilidade do mundo estar à caminho de um confronto em escala global.
Pressão sobre alianças internacionais
O cenário também reacende o debate sobre o enfraquecimento do multilateralismo. Definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma forma de cooperação entre pelo menos três países para enfrentar crises e desafios comuns, o modelo ganhou força após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU em 1945, e se consolidou depois do fim da Guerra Fria, na década de 1990. Ainda assim, algumas potências mantiveram maior protagonismo dentro desse sistema.
A China, por exemplo, consolida-se como uma potência econômica e tecnológica ao liderar rankings de inovação em IA e 6G, com sua economia digital superando 10,5% do Produto Interno Bruto (PIB.) A Rússia projeta-se como potência militar e energética, usando sua capacidade bélica para desafiar a segurança ocidental. E os EUA, que mantêm a hegemonia tradicional, com a centralidade financeira do dólar.
Segundo Vinicius Guilherme Rodrigues Vieira,professor adjunto de Economia e Relações Internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), as ações de Trump demonstram uma visão diferente do multilateralismo global. Para ele, o governo norte-americano não é isolacionista, mas “anti-multilateralista”, ao priorizar acordos bilaterais e unilaterais em vez de negociações coletivas.
Essa postura, afirma Vieira, aparece tanto na política econômica quanto na diplomática. A imposição de tarifas bilaterais indicaria uma tentativa de impor os interesses dos Estados Unidos sem espaço para negociação ampla. O movimento também se reflete na saída do país de organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), durante seu segundo mandato, e de mais de 60 órgãos em janeiro de 2026, sendo 31 deles vinculados à ONU.
“Nós temos um cenário complexo, para dizer o mínimo, em que os Estados Unidos parecem querer voltar a um tipo de política do século 19, que é uma política bilateral, fundamentada em questões militares, na pressão, e não na negociação”, afirma Vieira.
“Os Estados Unidos estão demolindo a arquitetura multilateral que sustentou as relações internacionais desde o fim da Segunda Guerra Mundial”
Vinicius Guilherme Rodrigues Vieira

Início das ações militares em 2026
Nos primeiros dias de 2026, em 3 de janeiro, o presidente estadunidense aprovou uma intervenção militar na Venezuela e a deposição do até então presidente, Nicolás Maduro. Os ataques, segundo Trump, foram motivados para combater o narcotráfico na região.
No mesmo dia, o senador Mike Lee, aliado de Trump, afirmou em publicação nas redes sociais, que o Secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, o informou que a operação teve natureza policial, para que Maduro respondesse a acusação de comandar a organização narcoterrorista Cartel de los Soles. Segundo ele, os ataques tiveram como objetivo “proteger e defender aqueles que executavam o mandado de prisão”.

As investidas de Trump não pararam por aí. Ainda em janeiro, no dia 16, o presidente norte-americano fez ameaças sobre uma possível tomada da Groenlândia, discurso que estava presente em sua campanha eleitoral. Em evento realizado com empresários do setor petrolífero na Casa Branca, o presidente afirmou que não descartava o uso de poder militar, alegando que a ilha é vital para a construção do “Domo de Ouro”, sistema de defesa antimísseis do governo estadunidense, devido à localização estratégica no Ártico.
Trump afirmou ainda, que a Dinamarca, que mantém vínculos políticos com a Groenlândia, não seria capaz de defender o território em caso de uma tentativa de ocupação pela Rússia ou China e que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) deveria intervir no processo para que a tomada do território fosse bem sucedida. “A OTAN deveria liderar o processo para que a conquistemos. Se não o fizermos, a Rússia ou a China o farão, e isso não vai acontecer!”, escreveu o presidente republicano em publicação nas redes sociais.
Para André Roberto Martin, especialista em Geopolítica e professor titular do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), as investidas e recuos do presidente estadunidense em relação à Groenlândia é uma mistura de “um pouco de lógica e um pouco de improvisação”.

O conflito no Oriente Médio
No dia 28 de fevereiro, o exército estadunidense e as Forças de Defesa de Israel (FDI) coordenaram ataques em diferentes cidades do Irã, que resultaram na destruição de instalações militares e nucleares e na morte de diversos civis, figuras importantes do exército iraniano e do principal líder supremo da teocracia, o aiatolá Ali Khamenei.
Em um vídeo de 8 minutos postado na TruthSocial, Trump anunciou a operação militar e a justificou dizendo que o Irã “tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance”. Segundo o presidente, o país árabe poderia ameaçar os aliados dos EUA na Europa e, posteriormente, atingir o território americano.
Em resposta, no dia 2 de março, Ebrahim Jabari, o assessor do Comandante-Chefe da Guarda Revolucionária do Irã, declarou à TV estatal o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do mundo, e ameaçou atacar embarcações que tentassem violar o bloqueio. “O Estreito [de Ormuz] está fechado. Se alguém tentar passar, os heróis da Guarda Revolucionária e da Marinha regular incendiarão esses navios”.
O fechamento da rota estratégica causou alterações nas bolsas de valores em diferentes países. Uma das mais afetadas foi a Bolsa de Nova York, com o índice S&P 500, considerado o maior “termômetro” da economia dos EUA e um dos principais termômetros financeiros globais, registrando uma queda 5,1% durante o mês de março, um recuo quase 9% desde o pico em janeiro e o pior percentual desde março de 2025.
O preço do petróleo também sofreu oscilações. O petróleo estadunidense “Brent”, principal referência global de preços para a comercialização do combustível, que custava US$72,00 passou a custar mais de US$100,00 o barril menos de um mês, com um aumento de mais de US$50,00 no valor desde o início dos ataques até o início de maio.

No mesmo período, Israel começou uma série de bombardeios no Líbano para combater o Hezbollah, grupo financiado pelo Irã que disparava mísseis contra o norte do país. Os ataques continuaram mesmo após tentativas de trégua e transformaram o Líbano no principal palco da disputa entre Israel e o governo iraniano. A ofensiva destruiu bases na fronteira, deixou mais de 3 mil mortos, 9 mil feridos e forçou mais de 1 milhão de pessoas a deixarem suas casas.
O porta-voz da ONU para os Direitos Humanos, Thameen Al-Kheetan, alertou que “o resultado tem sido a morte de civis e a destruição de bens no Líbano, ao lado de ameaças de uma ofensiva mais ampla”. Diante disso, a Rússia e a China observam e agem a partir das próximas tentativas expansionistas de Trump.
Para André Martin, essas ofensivas servem para ocultar a falta de um plano estratégico por meio da exaustão após diversos discursos em diferentes contextos.
“Nessa altura, os Estados Unidos perderam credibilidade. Tentou-se aquele acordo com o Paquistão, mas o próprio Irã não pôde confiar, porque eles [EUA e Israel] buscam um cessar-fogo para movimentar as tropas, reabastecer e trocar a munição. Não tem como entrar em acordo, pois não tem confiança. O restabelecimento dessa confiança está muito difícil”, afirma o especialista.
O conflito pode se tornar global?
De acordo com Martins, o conflito vem escalonando-se cada vez mais para proporções mundiais. Ele estabelece uma comparação entre o cenário atual com as frentes de batalha durante a Segunda Guerra Mundial, que incluía Europa, Oriente Médio, Ásia, e a intervenção dos Estados Unidos após o ataque do exército japonês à base naval estadunidense em Pearl Harbor, no Havaí.
“Meu medo é nós estarmos enfrentando a mesma situação. Um cenário europeu indefinido, o Oriente Médio entra em jogo e a coisa vai para o Extremo Oriente, com o fechamento do Estreito de Ormuz por parte do Irã e dos Estados Unidos impedindo mais petróleo de chegar à China, provocando-a indiretamente”, afirma Martin.
André Martin também citou conflitos menores que se somam ao panorama bélico, como o ataque ucraniano ao porto russo de petróleo Primorsk no Báltico e o ataque das Forças de Defesa de Israel a alvos iranianos no mar Cáspio, próximo a portos russos.
“Ou seja, a coisa só está ampliando. Então, realmente, está muito perigoso o cenário, e, por isso, com base na geopolítica, infelizmente somos pessimistas neste curto prazo”, afirma Martin.
Diferenças e semelhanças com as duas Grandes Guerras
Anteriormente à declaração da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, observava-se um cenário de extrema tensão, interesses econômicos e disputas entre países europeus por territórios na África e na Ásia, que escalonaram para dois confrontos diretos e duradouros entre sistemas de alianças e que atingiram proporções globais, no caso, após o assassinato de um arquiduque austro-húngaro na primeira vez e a invasão alemã à Polônia na segunda.
Para Ana Lúcia Lana Nemi, professora de História Contemporânea na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o elemento de continuidade mais forte entre os períodos bélicos são as políticas imperialistas, decorrentes do processo de enraizamento do sistema capitalista. Segundo ela, o processo de enraizamento implica, como afirmou o filósofo alemão Karl Marx, que o capital precisa se expandir. “A Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial são respostas a esses processos de expansão, sem nenhuma dúvida.”, afirma.
A especialista descreve como a derrota do Eixo e a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial não implicaram na diminuição da busca pela expansão territorial do capital, mas sim mudaram as figuras políticas e estratégias implicadas nesse processo, passando pela Guerra Fria e chegando ao presente com os conflitos atuais.
Nemi cita como exemplo, as diferenças entre as atuais políticas imperialistas chinesas e estadunidenses, destacando o principal investimento feito à construção da Nova Rota da Seda pela nação asiática nos últimos anos. “É uma movimentação imperialista. Claro que não é igual ao imperialismo do século 19, porque não implica em servidão das populações locais ou na retirada de matéria-prima para transformação em matriz. Essa lógica imperialista se ressignifica de acordo com os aprendizados da História”, explica.
“Eles [China] não querem provocar uma guerra, então os acordos que fazem não retiram soberania dos países de onde vão, diferente dos Estados Unidos”, finaliza Nemi.
