Por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
Uma especial noite de sexta-feira na França, em 17 de maio de 1996, o tradicional Festival de Cannes foi inundado por desconforto, repulsa e, em alguns casos, admiração pura. Silêncio ensurdecedor seguido por vaias misturadas a palmas sucederam os créditos da sessão de Crash: Estranhos Prazeres (Crash, 1996), uma das maiores polêmicas da história do festival.
O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome, Crash (Companhia das Letras, 2007), do aclamado escritor inglês J. D. Ballard. A obra narra a trajetória de James Ballard (apesar do nome em comum, a história é ficcional com apenas alguns toques autobiográficos), um roteirista que, após um grave acidente de carro, conhece um grupo de pessoas obcecadas em colisões veiculares e a natureza sexual do renascimento pela destruição do corpo e da máquina automobilística.
No seu ano de publicação, 1973, as editoras inglesas alertavam: “esse autor está além de ajuda psiquiátrica. Não publique isso!”, reação não muito diferente do que ocorreu duas décadas depois na região com a adaptação de Cronenberg. Exibidores se negavam a exibir o filme, partes dele foram censuradas em algumas regiões do Reino Unido e, em outras, teve sua veiculação até proibida.
A natureza fria e abordagem quase médica quanto a sexualidade em Crash espantam até o mais experiente dos subversivos, como o próprio Cronenberg. Ele admitiu que quase abandonou a leitura, um processo perturbador que causou repulsa no diretor e roteirista de obras tão envoltas em body horror, depravação física e psicológica que até Martin Scorsese, não exatamente conhecido por sua abordagem isenta de violência e debates espinhosos, temia conhecer.
“O livro começou um processo de mudança em mim que conseguiria completar apenas filmando. É assim que eu exploro minha reação às coisas.”
David Cronenberg em entrevista ao The Guardian Interview, 1996

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Para alguém que teve dificuldade em entender seus sentimentos com relação a Crash, Cronenberg não apenas parecebeu o melhor na história como conseguiu reproduzir o mesmo desconforto incansável e intrigante por meio do sexo, da violência e da depravação física e moral já conhecido no livro de Ballard com maestria. O diretor elevou a história para um novo patamar que apenas o audiovisual poderia alcançar.
O filme se inicia com três sequências de sexo diferentes, Caterine Ballard (Deborah Kara Unger) e um homem tem relações na asa de uma aeronave de pequeno porte. James Ballard (James Spader) e uma jovem fazem sexo no trabalho e, por último, James e Catherine, marido e mulher, tem relações em sua varanda enquanto observam uma rodovia e conversam casualmente sobre seus encontros do dia. Começar um filme assim já é, no mínimo, arriscado.
Mas o verdadeiro fator controverso de Crash não está em suas inúmeras cenas de sexo explícito: está em seus difíceis e quase inabordáveis temas. As águas profundas de Crash se iniciam tempo depois das três cenas de sexo iniciais, quando James se envolve em uma colisão grave em seu Lincoln Continental 1961, que resulta em um homem falecido e um encontro no mínimo desconcertante com Helen Remington (Holly Hunter). É a partir de seu próprio acidente que James começa a se aproximar de Helen e, consequentemente, de Vaugh (Elias Koteas), a espinha dorsal do grupo de viciados em acidentes de carros.
Os primeiros dez minutos do filme resumem bem a principal polêmica do filme no mundo e em Cannes, sua narrativa envolta e completamente indissociável ao sexo. Sexo esse que, diferentemente do presente na onda de filmes eróticos e violentos em que o cinema hollywoodiano se envolvia desde Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), era o que muitos críticos à época definiram como sexo não sensual baseado na fusão do homem à máquina ou, no caso, seu carro.
A polêmica em Cannes e a sexualidade do homem-máquina
A estreia do filme em Cannes não foi uma clássica representação do sucesso. As reações mistas ao erotismo e às reflexões em telas foram alguns dos motivos da fama que se espalhou por toda a Europa. Crash foi considerado um filme pervertido e que não apenas beirava o pornográfico: era puro pornô.

descreveu Crash como “um filme além
dos limites da depravação”
[Imagem:Reprodução/Instagram/@thefridacinema]
Na comitiva de imprensa em Cannes, pouco tempo depois da primeira exibição do filme, Cronenberg foi questionado sobre o que diferenciava Crash de pornografia: “é algo criado para te excitar sexualmente e não possui nenhum outro propósito. É óbvio que Crash não é pornográfico. Dizem que é sexual mas não erótico, como se isso fosse uma crítica”, afirmou. Crash é uma obra em que sexo não é apenas um motor da narrativa, é também rodas e volante.
“A única vez em que a maioria das pessoas veem cenas de sexo é na pornografia. Na maioria dos filmes, a história para, tem uma cena de sexo, e a história continua. Mas não tem nada que diz que você não pode utilizar uma série de cenas de sexo como elementos estruturais. As coisas evoluem e personagens são revelados.”
– Cronenberg em Cannes, 1996.
Naquele ano, 1996, o Festival de Cannes estava no mínimo competitivo e com um presidente de júri rigoroso, o diretor e roteirista Francis Ford Coppola. Fargo: Uma Comédia de Erros (Fargo, 1996), Segredos e Mentiras (Secrets & lies, 1996) e outras produções aclamadas eram apenas alguns dos nomes que competiam com Crash que, no fim, não levou a Palma de Ouro, o prêmio mais prestigiado de todo o festival.
Apesar de indicado e um dos favoritos a vencer o prêmio, Crash enfrentou resistência por parte dos jurados no período de votação. Para Cronenberg, a resistência dos votantes era, na verdade, apenas o presidente dos jurados. “Coppola era completamente contra”, disse o diretor anos depois em entrevista à imprensa canadense.
Mas o filme não deixou o festival sem um prêmio, o longa recebeu o “Special Jury Prize”, criado exclusivamente para premiar Crash, um prêmio pela originalidade e ousadia do filme. “Acho que foi a tentativa do júri de lidar com a negatividade do Coppola, porque eles tinham o poder de criar um prêmio próprio sem a aprovação do presidente”, disse Cronenberg. Ao anunciar o prêmio, o presidente disse que a honraria seria concedida a Crash apesar de alguns jurados terem discordado muito sobre essa decisão. A repulsa de Coppola pelo longa era tanta que o diretor se recusou a entregar o prêmio a Cronenberg.
Coppola nunca disse ao certo qual era a origem de sua tamanha insatisfação com o filme. O que resta é imaginar que tenha sido sua representação e natureza violenta. Crash não se torna repulsivo pelo sexo presente em tela em todo momento, mas sim por sua conatação violenta: a de que alguém poderia ter seu prazer sexual atrelado a um automóvel e às catástrofes produzidas por seus acidentes.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
No grupo de viciados em adrenalinas de carros batidos e suas desgraças, é comum reencenações de acidentes. James conhece Vaughn definitivamente e mergulha no culto de vez quando Helen o leva para uma reencenação da colisão fatal entre o Porsche 550 Spyder de James Dean e o veículo de um universitário. O choque é tanto, que Ballard é instantaneamente atraído para aquele mundo, conhecendo Vaughn e seu “projeto” mais intimamente, “the reshaping of the human body by modern technology”, uma forma de enxergar o carro como extensão do homem.
A tensão erótica em Crash se constrói através da violência e excitação que os personagens sentem em acidentes de carro e suas sequelas. Em uma das cenas mais emblemáticas, James, Hellen, Vaughn, Gabrielle (Rosanna Arquette) e Seagrave (Peter MacNeill) assistem a uma fita de simulação de um acidente com um Chrysler Intrepid 1993, completamente vidrados. Um problema com o toca-fitas interrompe a reprodução do vídeo em seu grande clímax, uma batida violenta. Hellen, então, levanta de maneira tão abrupta e busca pelo controle da televisão de maneira tão frenética e agressiva que assusta seus pares. A ansiedade e o desejo pelo acidente são tamanhas que ela se descontrola ao ter o auge do momento interrompido.

[Imagem: Reprodução/TMDB]
Já reconhecido por tal mérito em outros filmes, Cronenberg explora a fundo em Crash a obsessão e natureza rasa dos personagens, pessoas tão envoltas em recriar prazer que entendem um carro como extensão de si mesmas e levam essa filosofia a extremos. Em outro momento, James se oferece para dar carona a Vaughn e, no meio do caminho, se deparam com um grave acidente de carro.
Vaughn entra em êxtase, ele se levanta, tira fotos e parece hipnotizado pelo momento. Catherine e James então descem do carro e exploram a cena, veem carros destruídos, oficiais de segurança, feridos, o que parece intensificar ainda mais a atração que sentem por tudo aquilo. Os personagens parecem tão envoltos em suas próprias fantasias que Catherine chega a posar para uma das fotos de Vaughn ao lado de um carro ensanguentado envolvido no acidente.
A sequência disso é outra cena ainda mais controversa do ponto de vista narrativo e maestral da perspectiva técnica, uma tomada de sexo violenta e silenciosa entre Vaughn e Catherine no lava-rápido. Enquanto James observa a ação, Vaughn e Catherine, especialmente Vaughn, parecem famintos. Com uma direção espetacular e mixagem de som impecável, a cena não tem trilha alguma além dos sons da lavagem do carro, Vaughn, Catherine e o atrito do banco de couro.
Estar no carro e sentí-lo é também uma forma de sexo. Gabrielle e James vão a uma concessionária sentir de verdade uma Mercedes-Benz SL [R129], mas com um fato dificultante: Gabrielle utiliza uma estrutura metálica no corpo desde seu acidente de carro, limitando de certa forma seus movimentos. Para entrar no veículo, Gabrielle pede ajuda de um consultor de vendas da concessionária que a pressiona até que se encaixe no carro, ou melhor, que o carro se encaixe a ela.
Momentos depois, James e Gabrielle tem uma das cenas de sexo mais intensas de todo o filme, em que a deficiência e cicatrizes de Gabrielle se tornam um objeto de desejo extremos em tela. Segundo Cronenberg, a representação de Gabrielle como uma mulher passível de desejo e sexualidade enquanto pessoa com deficiência (PCD) foi desconcertante, com as cenas envolvendo a expressão da sexualidade de Gabrielle sendo censuradas em alguns países por uma série de tabus envolvendo PCDs e suas representações na mídia.

[Imagem: Reprodução/TMDB]
Ao final do filme, James e Catherine iniciam uma perseguição em uma rodovia. Catherine parece dirigir de forma normal até que James se aproxima e colide repetidas vezes no Mazda MX-5 (NA). O carro sai da via e capota, James vai a seu encontro. Ele pergunta se ela está bem, Catherine diz que sim. Enquanto James beija seu pescoço, Catherine diz que está bem, ao que ele sussurra “talvez no próximo, querida”. Depois disso, a câmera se afasta lentamente, deixando o espectador da mesma forma que se iniciou: com uma cena de sexo mas, dessa vez, em meio a fumaça e os ferimentos de um acidente.
De certa forma, Crash explora um grupo de pessoas obcecadas. Recriar acidentes e sair ileso, em algum ponto, não será mais suficiente. Eles precisam sempre de mais até cederem completamente ao desejo e, por um grande ato, se unirem definitivamente à máquina em um acidente perfeito.
*Imagem de capa: [Reprodução/TMDB]
