Por Lara Oliveira (la.oliveira@usp.br)
No início dos anos 2000, com o surgimento da internet, uma organização de hackers ficou conhecida no Brasil por meio da Operação Ponto Com. A complexidade do caso foi tão grande que a produtora Clube Filmes decidiu trazer a trajetória de Daniel Nascimento, um dos envolvidos, para os cinemas em O Rei da Internet (2026), que estreia em todo o país nesta quinta-feira (14).
O filme apresenta os fatores que levaram Daniel (João Guilherme), um adolescente que vivia isolado em uma pequena cidade do Paraná, a desenvolver as habilidades necessárias para realizar ataques cibernéticos de alto nível. Quando começa a ganhar destaque no ramo, o jovem se junta a uma quadrilha de hackers, comandada pelo vigarista Fábio (Marcelo Serrado), cuja lavagem de dinheiro transforma a sua adolescência em completa ostentação.
Não é exagero dizer que o longa é extremamente intenso, não só pelas atitudes absurdas dos personagens, inspirados em indivíduos reais, mas pelos ambientes que eles frequentam. Contudo, a trama começa em um cenário completamente diferente: a casa simples onde Daniel morava com os pais. O menino, com quase nenhum amigo, enfrentava dificuldades diárias na escola pela implicância de dois outros adolescentes que o agrediam. É visível ao público como o bullying sofrido afetava a sua autoestima, dado que ele apresentava sérias dificuldades de socialização dentro e fora da escola.
Tudo muda quando o protagonista encontra nos manuais de informática uma forma de se sobressair e, com isso, escapar do ciclo de violência que o cercava. Assim que ganha o seu primeiro computador — em uma época na qual ter um aparelho desses em casa era muito menos comum —, ele percebe que o desejo de explorar algo novo é incontrolável. É nessa lógica que todo o seu arco de desenvolvimento se baseia, ao retratar um jovem de apenas 14 anos com um talento capaz de levá-lo a lugares inimagináveis.
Fabrício Bittar, diretor e roteirista conhecido pelo destaque de bilheteria nacional Como se Tornar o Pior Aluno da Escola (2017), opta por desenvolver a figura de Daniel por meio de sua conduta. Isto é, mesmo que o recurso de narração (voice over) do personagem seja usado ao longo de todo o filme, o que realmente compõe a sua identidade são as mudanças comportamentais observadas no decorrer dos acontecimentos.
No entanto, essa estratégia perde força com o fraco roteiro de O Rei da Internet. Embora a cronologia dos fatos seja bem construída, os diálogos simplistas não fornecem entrelinhas ou descrições detalhadas dos personagens para que o telespectador reflita. Isso pode decorrer da tentativa do longa de impactar o público com uma abordagem extravagante, mas acaba levando a uma escrita frágil que depende da narração irônica de Daniel para dar mais profundidade às cenas.
O primeiro clímax do filme acontece quando o menino, já com uma boa bagagem como hacker, perde o seu usuário (“DNx”) e invade um grande servidor brasileiro, deixando o Nordeste do país sem internet por uma semana. A concentração e tensão de Nascimento na em decide partir para um alvo maior ilustram a importância da conquista, que aconteceu na vida real e foi um divisor de águas para sua trajetória no mercado internacional de crimes virtuais.

A ascensão do protagonista à fama representa uma mudança visual e narrativa crucial na obra. O jovem decide sair de casa, mentindo para os pais sobre o motivo, para se juntar à quadrilha de Noturno (Caio Horowicz), um hacker nacionalmente reconhecido, em Porto Alegre. A partir daí, ele encontra nos prazeres fúteis do dinheiro uma válvula de escape para suas inseguranças, porém isso o transforma aos poucos em um personagem raso. E o mesmo acontece com a narrativa.
Quando a temática das grandes e luxuosas festas é introduzida ao público, ela acrescenta um valor interessante tanto à fase vivida pelo protagonista quanto à ambientação do longa. Porém, aos poucos, esses espaços passam a concentrar a maior parte das interações entre os personagens, fazendo com que a narrativa se limite à repetição de cenas desse tipo. Um ponto crucial para o sucesso e autodescobrimento de Daniel acaba, então, sendo abordado de forma superficial.
Há de se considerar que tudo se passa no auge de sua adolescência e em um contexto no qual o seu dinheiro, ilegal, era abundante. Mas, mesmo diante disso, as cenas de sexo e nudez nos ambientes onde ele frequentava são excesssivas e fazem com que grande parte da minutagem do longa (2h e 15 minutos) se resuma a isso.
Embora ainda haja momentos de ação envolvendo as atividades dos hackers, torna-se incômodo ao telespectador ver a personalidade do protagonista e a construção da história serem dominadas por esse falso luxo. A partir do momento em que as saídas noturnas passam a ser a vida de Daniel, conversas éticas ou minimamente fundamentadas entre os personagens, como as discussões que ele tinha com o pai no início da trama, deixam de acontecer.
A narrativa só recompõe a sua estrutura quando o menino e sua namorada são sequestrados pela Polícia Federal, já com as investigações bem encaminhadas sobre a quadrilha. Até então, a futilidade da conduta dos hackers é tão grande que o telespectador fica torcendo para que eles sejam capturados.
Talvez essa impressão se fortaleça pela abordagem do filme a respeito do custo de fazer o que eles faziam: na tentativa de trazer um tom bem-humorado para a história, O rei da internet foge da realidade e acaba banalizando os crimes cometidos à medida que exalta o glamour em que Daniel vivia. Por outro lado, esse caminho sugere que o menino, movido por uma urgência juvenil, não tinha valores morais suficientes para impedi-lo de desfrutar os benefícios que a vida criminosa lhe proporcionava. Isso comprova que, mesmo tendo como referência o livro do próprio homenageado, “DN pontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-Hacker” (Idea Editora, 2014), o filme não possui um caráter estritamente biográfico.
Tal escolha pode ser decepcionante para a parcela do público que espera conhecer, por meio do filme, a trajetória de um dos maiores hackers da era digital no Brasil. Na prática, a produção se preocupa mais em mostrar aos indivíduos o mundo de experiências que o dinheiro e a fama concederam a um adolescente comum – ironicamente, quem ele menos desejava ser.

Apesar desses pontos negativos, as escolhas de fotografia e trilha sonora condizem com a atmosfera exuberante proposta pela narrativa. Na imagem, o recurso de fast cutting (cortes rápidos), é utilizado com frequência para trazer mais emoção e intensidade às cenas de ação, além de aprimorar o engajamento do telespectador. Dentro desta mesma técnica, a produção emprega os jump cuts, quebras na linearidade dos acontecimentos que fortalecem o dinamismo do filme. A música também atua em paralelo a essa estratégia, sendo muitas vezes inserida em alto volume para intensificar a tensão presente.
Outro elemento de destaque no longa, sobretudo para o público mais velho, é a nostalgia dos anos 2000. Trazer plataformas como o MSN (Messenger), uma tipografia inspirada na estética digital e a própria popularização dos computadores domésticos atribui um valor cultural muito interessante para o longa. Entretanto, esse foi mais um elemento explorado apenas no começo, já que no decorrer da história a caracterização de época praticamente desaparece.
A reflexão mais pertinente que o filme provoca refere-se à insegurança dos nossos dados na internet e como as falhas da justiça brasileira contribuem para tal. Após o sequestro, Daniel passa a subornar dois policiais federais para que não seja denunciado; quando a quadrilha é finalmente detida pelas autoridades, o protagonista afirma que “enquanto houver falhas, haverá pessoas como ele”. Essas falhas, tanto no espaço virtual quanto em sua fiscalização, permitem que golpes e invasões de privacidade ocorram com tremenda facilidade no país.
O Rei da Internet é uma tentativa de expor como a riqueza pode mudar a vida de um jovem vulnerável, mas acaba exagerando na dose e esquecendo da origem dessa condição. A discussão proposta teria sido muito melhor aproveitada se os desejos adolescentes de Daniel tivessem sido um elemento de sua história, e não o fator central de seu comportamento. Os questionamentos sobre “o preço do crime” e da própria atuação policial no Brasil ficam em segundo plano, uma vez que só ganham certo destaque nos minutos finais do filme.

O Rei da Internet já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
* Imagem de capa: [Reprodução/ TMDB]
